MEMÓRIA TERESINENSE
Natalia Costa
16 de agosto de 2026 às 08:00
Teresina completa 174 anos neste domingo (16) e, em meio às comemorações pelo aniversário da capital, imagens antigas ajudam a lembrar uma cidade que já foi mais tranquila, com ruas menos movimentadas, bairros ainda em formação e grandes áreas verdes onde hoje estão avenidas, residências e estabelecimentos comerciais.
É esse passado que o teresinense Wesley Araújo vem resgatando por meio do perfil no Instagram "Teresina Retrô", criado em maio de 2026 e que, em poucos meses, ultrapassou a marca de 28 mil seguidores. Com mais de 60 publicações, o projeto reúne fotografias e vídeos que mostram diferentes momentos da capital e ajudam moradores a reconhecer lugares que fizeram parte de suas próprias histórias.
Para celebrar os 174 anos de Teresina, Wesley realizou uma nova pesquisa em acervos históricos e selecionou oito imagens de diferentes regiões da cidade. Os registros mostram desde bairros que começavam a crescer até espaços que permanecem como referências para os teresinenses.
“Nosso trabalho é feito à base de muita pesquisa”, explica Wesley. Segundo ele, o projeto busca fontes principalmente no Arquivo Público do Estado do Piauí e na Biblioteca Abdias Neves, procurando registros capazes de recuperar fragmentos do passado da capital.
O Arquivo Público do Estado do Piauí, criado em 1909, tem entre suas atribuições preservar documentos relacionados à história, à administração, à legislação e às manifestações culturais do estado. O acervo também reúne fotografias, jornais, livros e outros registros utilizados por pesquisadores para reconstruir diferentes períodos da história piauiense.
Wesley conta ainda que algumas das imagens encontradas passam por um processo de revitalização com auxílio de inteligência artificial para melhorar a qualidade visual. O procedimento, segundo ele, é feito buscando preservar a fotografia original. O criador do perfil ressalta, porém, que a tecnologia pode produzir pequenos erros e que as imagens revitalizadas devem ser compreendidas como versões aprimoradas dos registros originais.
“Fazemos tudo com muito carinho, dedicação e respeito, porque nosso principal objetivo é preservar e mostrar a história da nossa cidade”, afirma.
Oito imagens de uma Teresina que mudou
As fotografias escolhidas por Wesley atravessam diferentes regiões da capital. Juntas, elas mostram que a história de Teresina também pode ser contada a partir das ruas, igrejas, conjuntos habitacionais, avenidas e espaços comunitários que fazem parte do cotidiano da população.
1. Avenida Principal do Dirceu
A Avenida Principal do Dirceu aparece em um período em que a região ainda apresentava uma configuração bastante diferente da atual. O registro permite observar uma paisagem marcada por menor movimento e por espaços que, ao longo das décadas, foram sendo ocupados pelo crescimento urbano.

Hoje, a avenida é uma das referências da região do Grande Dirceu e concentra comércio, serviços e circulação diária de moradores.
A fotografia, portanto, funciona como um retrato de uma época em que o bairro ainda construía a identidade que teria nas décadas seguintes.
2. Igreja São José Operário, na Vila Operária
Na Vila Operária, a Igreja São José Operário aparece como outro registro da memória urbana de Teresina.
Mais do que um edifício religioso, a fotografia representa a presença de espaços de convivência que ajudaram a formar a identidade dos bairros da capital. Igrejas, praças e ruas acabaram se tornando pontos de referência para gerações de moradores.

A imagem também mostra uma Teresina em processo de expansão, quando diferentes regiões da cidade começavam a consolidar suas próprias características.
3. Estação Frei Serafim, no bairro Cabral
O registro da Estação Frei Serafim leva a memória para uma região tradicional da capital.
A imagem recupera um cenário urbano que já passou por diferentes transformações e ajuda a perceber como a paisagem de Teresina foi sendo modificada conforme a cidade cresceu.

Fotografias como essa têm justamente esse papel: permitir que quem conhece a cidade atual compare o que existe hoje com aquilo que fazia parte da paisagem décadas atrás.
4. Conjunto Tancredo Neves
O Conjunto Tancredo Neves aparece em uma época em que a ocupação daquela região ainda estava se consolidando.
A fotografia registra casas, ruas e uma paisagem urbana diferente daquela encontrada atualmente. O crescimento dos conjuntos habitacionais teve papel importante na expansão de Teresina para além das áreas mais antigas da cidade.

Ao observar o registro, é possível perceber que bairros hoje integrados à dinâmica da capital também tiveram um momento em que eram áreas novas e ainda em processo de ocupação.
5. Vista do bairro Morada Nova
A vista do Morada Nova revela outra característica do crescimento de Teresina: a transformação de áreas que antes tinham maior presença de terrenos vazios e vegetação em espaços ocupados por moradias e novas vias.

A imagem ganha ainda mais significado quando comparada à paisagem atual. O que hoje pode parecer consolidado já foi, em algum momento, uma região em construção.
6. Avenida Ininga, no bairro de Fátima
No bairro de Fátima, a Avenida Ininga aparece em um cenário diferente do atual.
A via, hoje conhecida pela circulação de veículos e pela presença de estabelecimentos comerciais e residenciais, surge no registro como parte de uma Teresina que ainda se expandia.

A fotografia ajuda a contar uma transformação que aconteceu em várias regiões da capital: o crescimento das ruas e avenidas acompanhou a expansão da população e das atividades econômicas.
7. Palácio de Karnak, no Centro
Entre as oito fotografias, uma das imagens mais facilmente reconhecíveis é a do Palácio de Karnak, no Centro de Teresina.
O prédio é um dos principais símbolos políticos e arquitetônicos da capital e está ligado à própria história administrativa do Piauí.

O registro antigo permite observar não apenas a construção, mas também o entorno em uma época diferente da atual. É uma lembrança de que até os cartões-postais mais conhecidos da cidade já tiveram outras paisagens ao redor.
8. Horta Comunitária do Renascença
A última fotografia selecionada por Wesley mostra a Horta Comunitária do Renascença.
O registro chama atenção para uma dimensão diferente da memória de Teresina: aquela construída nos bairros e nas iniciativas comunitárias.

Ao lado de grandes avenidas, prédios e espaços oficiais, também existem histórias feitas por moradores que ocuparam, transformaram e deram significado aos lugares onde vivem.
De Vila Nova do Poti à capital do Piauí
As fotografias recuperadas pelo Teresina Retrô ajudam a contar a história recente da cidade, mas a trajetória da capital começou muito antes dos bairros registrados nas imagens.
Teresina foi fundada em 16 de agosto de 1852, quando a sede da Província do Piauí foi transferida de Oeiras para a então Vila Nova do Poti. A mudança foi conduzida pelo presidente da Província, José Antônio Saraiva, e tinha como um dos objetivos colocar a capital em uma localização considerada mais estratégica para as comunicações e atividades econômicas.
A nova capital foi planejada com ruas organizadas em um traçado regular, característica que fez de Teresina uma referência entre as primeiras cidades planejadas do Brasil. O município foi implantado entre os rios Parnaíba e Poti, localização que também marcou sua identidade ao longo dos anos. O Ministério do Turismo reconhece Teresina como a primeira capital planejada do Brasil.
O nome da cidade foi uma homenagem à imperatriz Teresa Cristina, esposa de Dom Pedro II. A escolha do local e o planejamento urbano estavam relacionados ao projeto de transformar a nova capital em um centro administrativo e comercial mais conectado a outras regiões.
Mas a construção de Teresina também guarda histórias que durante muito tempo receberam menos destaque.
Pesquisa realizada por Genimar Machado Resende de Carvalho e Solimar Oliveira Lima, da Universidade Federal do Piauí, mostra a participação de pessoas escravizadas nas obras públicas da nova capital entre 1850 e 1871. O estudo utiliza documentos do Arquivo Público do Estado do Piauí e demonstra que trabalhadores negros escravizados participaram da construção de obras públicas em Teresina naquele período.
É uma dimensão importante para compreender que a cidade não foi construída apenas por decisões políticas ou pelo planejamento de seus governantes. A formação da capital também envolveu o trabalho de diferentes grupos sociais, incluindo pessoas escravizadas.
Uma cidade que continua mudando
Dos primeiros traços planejados por Saraiva às grandes avenidas, conjuntos habitacionais e bairros que aparecem nas fotografias do Teresina Retrô, a capital passou por profundas transformações.
O crescimento urbano modificou paisagens, abriu novos caminhos e fez surgir novos espaços de convivência. Algumas referências desapareceram, outras permaneceram e muitas foram transformadas.
É nesse intervalo entre o que existiu e o que existe que projetos de memória como o de Wesley Araújo encontram espaço.
Ao recuperar fotografias antigas e colocá-las novamente diante dos olhos dos teresinenses, o Teresina Retrô não apenas mostra como a cidade era. O projeto provoca uma pergunta simples: quantas histórias ainda existem escondidas em fotografias antigas?
Para Wesley, preservar esses registros é uma maneira de manter viva a relação entre passado e presente.
“A história é o que nos conecta ao passado e nos impulsiona a construir um futuro melhor”, resume.
Neste aniversário de 174 anos, as oito fotografias mostram que Teresina pode ser lembrada de muitas formas. Pela cidade planejada de 1852, pelos rios que ajudaram a definir sua localização, pelos prédios históricos, pelas avenidas, pelos bairros que cresceram e, principalmente, pelas memórias de quem viu todas essas transformações acontecerem.
A Teresina de hoje é diferente daquela registrada nas fotografias. Mas, em cada rua, bairro e construção que resistiu ao tempo, permanecem fragmentos da cidade que um dia foi — e que continuam ajudando a contar quem Teresina é.
Fonte: Instagram/@teresinaretro
Cultura e arte
MÚSICA
MAKE A WISH
ASSINATURA SPOTIFY
PARCERIA
CINEMA