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República destroçada no banquete infame

Sentados à cabeça da hedionda mesa, três expoentes desse destroçamento e revés civilizatório: um chefe de falanges hitlo-liberalóides, o juizeco ciótico, um coturneiro bufão mas perigoso.


João da Ega

João da Ega Foto: Divulgação

Dia 22 de abril lembra a data do avistamento da mata atlântica do futuro Brasil pela expedição de Pedro Cabral. Em torno desse fato se faz narrativas e mitos fundadores para usos diversos.

No ano de 2020, a data acaba de ser inscrita na memória social como dia de abominável encontro de gente do velho Brasil para infamar e destruir o arranjo de liberdade vigente, que a isso se chame de democracia ou república. 

Um pressuposto da reunião bolsomorista que contém a infâmia das infâmias: levar a cabo um plano de tomada do poder total por uma espécie de gangue do elitismo, o mais rápido possível, enquanto o mundo e o brasilão cuidam-se, com medo, e recolhidos pelo impacto da mortandade do ataque viral.

Uma “reunião ministerial”, assim se autodenominou o dito encontro palaciano. Sim, até foi, de ministros e quetais. Mas aparentemente sem exceção, todos atuando como bando para liquidar o que sobrou de pé do arranjo político-institucional e da legalidade pactuada na fórmula da CF88.

Sentados à cabeça da hedionda mesa, três expoentes desse destroçamento e revés civilizatório: um chefe de falanges hitlo-liberalóides, o juizeco ciótico, um coturneiro bufão mas perigoso. E todos inveterados golpistas, unidos para ferir e derrubar, de vez, a ordem constitucional e tomar o poder.

Mas como falar que é “reunião” para dá golpe se ele já aconteceu? Urge examinar atentamente a História e logo se nota que cada “golpe” se faz de golpe em golpes, crime político continuado, um produzindo o seguinte, que aprofunda as misérias do antecedente. O encontro planaltino foi ato de golpistas para acelerar o destroçamento da democracia até aqui possível.

Ato de covardes: cavilosamente aproveitando a oportunidade da população aterrada em casa e morrendo de medo de morrer, sabujos assaltam o que restou dos destroços republicanos de 2016. Quanta iniquidade. Quanto crime contra as instituições... Elas, que em de 2014 a 2016, acolitaram a farsa e até se irmanaram para ferir de morte a tênue tábua salvadora legal pactuada em 88. Aliás, pactuada e deixando desculpados os criminosos do regime ditatorial militar imposto em 64 com o apoio vergonhoso de outras “instituições”, Congresso, Supremo, complexo de mídia empresarial, já então um monopólio mitigado em oligarquia.

Ataca-se a democracia, já tão pouco amada e assim com poucos apaixonados por ela. Vão esmaecendo os valores referidos à ética no caldo social em fervura. O terror como método – com arminhas e canhões, e o “mate”: eis a consigna que guia essa tirania em flor do pântano de tantas misérias pátrias. A mentira como regra: eis o arremedo pleno de manipulações a que alguns sonsamente chamam de “eleição” presidencial.

“Da choldra”, aquele rapaz “achava uma desgraça incomparável para o país esse imoral desacordo entre a inteligência e o caráter”. E o “outro [político] faiscando todo de finura e cinismo, atirou-lhe uma palmada ao ombro [antepondo-lhe a dizer] dinheiro, menino, o onipotente dinheiro:   

“Meu caro, a política hoje é uma coisa muito diferente! Nós fizemos como vocês, os literatos. Antigamente a literatura era a imaginação, a fantasia, o ideal... Hoje é a realidade, a experiência, o fato positivo, o documento. Pois cá a política em... também se lançou na corrente realista. No tempo da Regeneração e dos Históricos, a política era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrório... Nós mudamos tudo isso. Hoje é fato positivo – o dinheiro, o dinheiro! O bago! A massa! A rica massinha de nossa alma, menino! O divino dinheiro!

“Dinheiro! Dinheiro” – parecera ficar vibrando, no ar quente do gás, com a prolongação de um toque de rebate acordando as cobiças, chamando ao longe e ao largo todos os hábeis para o saque da Pátria inerte”.

Que personagens? Que diálogo? Logo responderão: é o Brasil de hoje em corpo descarnado. E é. Mas essa história é invenção literária genial de Eça a tratar de seu Portugal há 150 anos, na monarquia apodrecida. É Queirós, n’Os maias, tecendo o diálogo do Ega, realista romântico, com o sabujo e cínico Guedes. Digo, ...   

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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