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Vaqueiro, profissão primeira do Piauí

O gibão de couro e as perneiras, igualmente confeccionadas com o couro cru do gado vacum, se tornaram símbolo de nossa terra piauiense e de todo o semiárido nordestino


Vaqueiros do Piauí

Vaqueiros do Piauí Foto: Samuel Brandão

O Piauí tem no gado bovino o seu primeiro ciclo econômico, por assim dizer. O homem que enfrentou as agruras do sertão para criar o gado transformou-se no vaqueiro, com suas vestimentas feitas em couro, a doma do cavalo, que também precisava ser forte para dar conta de arrebanhar reses e garrotes em meio a uma vegetação que oferecia a sombra, o alimento e os riscos.

Imagine-se o Piauí no século XVIII, em seus primórdios de contemporaneidade, com vaqueiros isolados cuidando de gado bovino em fazendas no semiárido e em vales férteis como o Gurgueia? Um mundo de dificuldades que forjou uma cultura de força e fé, porque é exatamente isso que move o vaqueiro, que naquelas priscas eras se embrenhava no mato a cada fim de estação chuvosa para a pega de bezerros e reses. Contar os animais exigia reuni-los e isso demandava campear em meio à caatinga ou ao cerrado ou à vegetação do agreste, dos carnaubais, tucuns e babaçus. Nada fácil. Coragem e determinação moveram esses homens em tempos pretéritos.

O gibão de couro e as perneiras, igualmente confeccionadas com o couro cru do gado vacum, se tornaram símbolo de nossa terra piauiense e de todo o semiárido nordestino. São a vestimenta do vaqueiro, profissão que está na gênese de nossa cultura e de nossa economia.

Lembrar o vaqueiro é muito mais que celebrar os profissionais que até hoje lidam com o gado – agora não mais em cavalos ou campeando reses e bezerros como no passado, dado o fato de que o manejo pecuário se transformou por não se fazer mais a criação extensiva dos séculos XVIII, XVI e começo do XX. Assim, lembrar o vaqueiro é valorizar a nossa cultura mais ancestral, principalmente recordando que sem o trabalho dele não se teria desenvolvido a economia baseada no gado vacum nem todo o caldo cultural resultante e saberes imateriais dessa prática profissional.

Assim, faz bastante sentido lembrar o vaqueiro Chico Teófilo, da cidade de União, que foi um dos mais abnegados lutadores para o reconhecimento do vaqueiro como um profissional. Chico Teófilo morreu aos 67 anos de idade, em 2 de fevereiro do ano passado, depois de ver criado o dia municipal do vaqueiro em União, iniciativa dele como vereador da cidade, além do dia estadual e do dia nacional do vaqueiro nordestino, criado pela Lei 11.928 de 17 de abril de 2009, que estabeleceu o terceiro domingo de julho para a celebração da data.

A lei federal que criou o dia nacional do vaqueiro nordestino abriu a porteira para uma legislação protetiva ao vaqueiro: em 15 de outubro de 2013, a presidente da República, senhora Dilma Roussef, sancionou a Lei 12.870, que reconheceu a profissão de vaqueiro, criando um arcabouço legal para seu exercício, bem assim mecanismos de garantia social e econômica para aqueles que fazem da lida com o gado meio de sustento.

O vaqueiro legalmente reconhecido foi no passado pilar de nossa economia, base de expansão da pecuária pelos sertões adentro, nossa raiz cultural mais profunda. É justo e certo que se reconheça nesses profissionais a sua importância no passado e no presente e que se mantenham as tradições de celebrar o vaqueiro e sua cultura. Sem isso, nós deixamos um pouco de sermos nós mesmos, tributários de quem forjou nossa terra no lombo do cavalo lidando com gado bovino.

Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB-PI. Mestre em Direito pela UFPE. Presidente do Instituto dos Advogados Piauienses. Presidente do CESA-PI.

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