REMINISCÊNCIAS

São João na Floresta

Pintura de 1919 serve de inspiração para história de vida e de fé


Casa do sitio Floresta

Casa do sitio Floresta Foto: Alvaro Mota

Semana passada chegou-me às mãos uma gravura em tinta guache, datada de 1919, retratando casa do sitio Floresta, pertencente a minha tia-avó Erotides Correia.  A tela, pintada pela própria tia Erotides, estava afixada na sala da casa da nossa prima Genu Moraes e me foi dada há alguns dias pelo Victor Aguiar.  Para mim foi mais que um presente contemplar a gravura, porque isso me fez imediatamente viajar pelo tempo, levando-me de volta à minha infância.

O quadro me transportou de volta à Teresina do início da década de 1970. Então, resolvi dar um passeio pela Estrada da Alegria, indo ver de perto o casarão de dois andares retratado na pintura e no qual tive contatos com a religiosidade, a fé, a literatura de Monteiro Lobato. Uma experiência maravilhosa de retorno a alguns dos momentos mais felizes de minha infância.

Pude rememorar também as festividades juninas celebradas no Sítio Floresta, que fica exatamente na esquina da Estrada a Alegria com a Avenida Manoel Ayres Neto. Lá estão as minhas melhores lembranças infantis, de quando íamos eu, meu meus pais, minha tia Maria Justina, à missa de 13 de junho, dia de Santo Antônio, na capela da Floresta, erguida em 1943 em devoção a Nossa Senhora da Conceição. Era uma reunião de família e da comunidade. Ali encontrava com muitos primos, amigos e familiares, cujos nomes infelizmente não se comportam aqui pela escassez de espaço.

A missa da Floresta era mais que um ato religioso. Tratava-se de evento cuidadosamente planejado e elaborado minha tia-avó Erotides Correia e também por minhas tias Maria José Ayres (tia Zezé) e Maria Justina e por minha avó. Elas que pensavam desde os atos necessários à missa, celebrada pelo Monsenhor José Luís Carvalho (capelão da Colégio das Irmãs) até a comida, a recepção dos convidados, a limpeza do local, as fogueiras de São João, a barraca para banho no Rio Poti, e até os fogos de artifícios para nos meninos. Foi lá que experimentei pela primeira vez a emoção indescritível de estourar fogos de artifício para celebrar os santos juninos.

As lembranças são as melhores possíveis: na frente da capela montava-se uma grande quermesse, tinha pau de sebo, corridas de cavalo, brincadeiras de meninos para um “compadrio de fogueira”. Era um lugar para diversões intermináveis para mim e meus primos, com banhos de rios, aventuras pelas matas com baladeiras para caçar passarinhos, corridas de cavalo e as noites embaladas por histórias de trancoso.

O casarão guardava ainda livros mantidos em uma biblioteca por meu tio-avô  Álvaro Sisipho Motta Correia, que inspirou meu nome e de meu primo Álvaro Arthur. Foi lá que passei a me interessar mais pela leitura, incentivado por tia Erotides, que, em face da idade avançada, já não enxergava tanto, mas lia trechos da Bíblia para nós.

Que bom que pude ter em mãos uma gravura de 100 anos pintada por minha tia Erotides. Esse quadro fez-me retroagir à infância em uma Teresina quase rural, que não existe mais, mas que se mantém viva em muitos pelas lições de felicidade e valores de solidariedade que carregam pela vida toda.

Hoje, quando se celebra o dia de Santo Antônio, casamenteiro, vêm à minha mente as ações de minha tia Erotides Correia, que se esforçava em promover casamentos para a formação de famílias. Ela a responsável por ter apresentado sua irmã Marcolina Motta (minha avó) a o meu avô João Osório Porfírio da Mota.

Essas boas memórias infantis me fazem lembrar que tão é importante cultivar o que de fato importa na vida: o amor, o acolhimento, a união das pessoas. Tudo isso eu aprendi com a convivência em lugares como o Sítio Floresta, onde estão incrustradas as lembranças de minhas tias Maria Justina, Maria José e Erotides, que muito me ensinaram sobre a vida, sobre como se conduzir como tratar a fé e o respeito ao próximo.

Fonte: Alvaro Mota

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Sobre a coluna

Álvaro Mota

Álvaro Mota

Procurador do Estado e mestre em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. Álvaro também é presidente do Instituto dos Advogados Piauienses.

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