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O Advogado Moacy Leal, a calma e a sabedoria

Sempre com calma, parece já ter nascido com o dom da paciência


Moacy Leal

Moacy Leal Foto: Divulgação

Faço parte certamente de um grupo de pessoas que, muito jovem e sem carga de maior experiência, teve a sorte de conhecer o advogado Moacy Leal, morto na semana passada, de repente, criando um vazio difícil de ser preenchido, porque muitas de suas qualidades pessoais não poderiam ser encontradas se não nele próprio.

Sempre com calma, parece já ter nascido com o dom da paciência, virtude que nos mais sábios sempre se destaca. A humildade era outra de suas características positivas. Daí porque, passou pela vida com discrição, a despeito de sua competência profissional, zelo com que tratava as causas, rigor na observância de prazos e normas.

Sua capacidade de organização, afinco e acuidade no tratado das ações profissionais foi fundamental no êxito da escolha direta da primeira lista sêxtupla da OAB-PI para o quinto constitucional, logo que assumi a Presidência da Secional, em 2002. Foi aí que minha amizade com ele se estreitou. Moacy Leal foi decisivo nesse processo no qual foi o presidente da comissão eleitoral, por seu trabalho e dedicação, que se repetiram na mesma medida quando ele ocupou a Ouvidoria da OAB-PI, tendo sido seu primeiro ocupante.

Ocupei no Tribunal Regional Eleitoral cadeira de juiz jurista que também foi ocupada por Moacy Leal, que sempre me honrou com suas visitas e aconselhamentos, sobretudo, porque suas orientações se estribavam na experiência e no conhecimento da matéria eleitoral – um terreno que ele trilhava com grande habilidade.

Estou certo de que a discrição que sempre pautou sua atuação serviu-lhe como ferramenta para que exercesse o mister de julgador com a máxima competência técnica e toda a isenção que se precisa aplicar quando nos encontramos na condição de magistrados.

Como profissional do Direito, trabalhava muito, mesmo depois dos 70 anos, quando a maioria das pessoas prefere, com certa razão, desfrutar de merecida aposentadoria. Não no caso dele, que desde sempre fazia do trabalho também uma razão de seguir vivendo e, certamente, aprendendo.

Teve na vida não apenas a experiência do exercício da Advocacia, sobretudo na área eleitoral, na qual atuou como juiz jurista e depois como advogado ligado ao ex-senador João Vicente Claudino e do Diretório Estadual do Partido Trabalhista Brasileiro.

Era um homem organizado, daí a razão de ter desempenhado com maestria e eficácia todas as tarefas a que se propôs. Em tempos nos quais não se dispunha das facilidades criadas pela tecnologia da informação, informática e a internet, foi chefe de gabinete e assessor jurídico do presidente da Empresa de Telecomunicações do Piauí S/A, a Telepisa, que existiu até o início dos anos 90, quando foi privatizada junto com outras concessionárias estaduais de telefonia fixa. Nessa área, aliás, convém que eu lembre ter sido ele um exímio advogado, atuando administrativa e judicialmente para que funcionassem concessões de rádio.

Antes disso, quando trabalhava na Prefeitura de Teresina, teve a boa ideia de sugerir que o município, ainda nos anos 70, estabelecesse um plantão de farmácia. A ideia foi posta em prática, com a determinação de que houvesse sempre um estabelecimento desse tipo funcionando por 24 horas. Naquela época, uma mão na roda, principalmente para pais aflitos para aviar uma receita para um filho adoecido.

Se atuou bem no serviço público, foi também um destacado e atuante membro e colaborador de organizações sociais como a Associação Comercial Piauiense, a Federação da Agricultura do Estado do Piauí, esta última com razões mais fortes ainda, posto que Moacy Leal era um criador de ovelhas, uma de suas paixões.

Citei aqui algumas das coisas e passagens de Moacy Leal como advogado e servidor público em nossa cidade, integrante de organizações sociais, um pecuarista, pai, marido, amigo, uma pessoa plural com quem convivi em muitas viagens pelo interior do Piauí, o qual ele conhecia bem.

Poderia dizer mais, porém, a despeito de ter tido uma relação amistosa e profissional com Mocay, não fui de acompanhar suas rotinas, apenas observando de mais distante nos últimos tempos, tendo contatos com menor frequência que o desejável quando se tem uma pessoa sábia à nossa volta, mas o bastante para admirar. Deixa um vazio, como disse, porque do pouco que pude apreender dele, sabia de qualidades pessoais somente suas e que não podem preenchidas.

Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB-PI. Mestre em Direito pela UFPE. Presidente do Instituto dos Advogados Piauienses.

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