Era uma vez marte


Marte

Marte Foto: Divulgação

O rover Perseverance, uma espécie de laboratório móvel que lembra um grande jipe, desenvolvido pela NASA, foi lançado em 30 de julho de 2020 com destino a Marte. Até 2022, atuando em parceria com seu antecessor, Curiosity, não havia encontrado sinal de vida no planeta vermelho.

Porém, entre alarmes falsos e muita pareidolia, enfim, no ano 2025 o aparato ambulante constatou evidências incontestáveis de que uma forma de vida subsistia e sobrevivia em meio a ruínas do que em um passado recente fora uma civilização.

A notícia encheu os cientistas da Nasa de júbilo e, ao se espalhar pelos quatro cantos de nosso planeta, trouxe muita curiosidade, especulação, negacionismo, mas, sobretudo, esperança. Afinal, não estávamos sozinhos no Universo.

Era então chegada a hora de uma missão tripulada a Marte!

Um programa da Nasa permitiu que cientistas de todo o mundo pudessem participar da jornada, afinal, hoje em dia a diversidade produz frutos mais qualitativos do que a mesmice. E entre eles, brasileiros tiveram sua oportunidade.

Os preparativos foram concluídos no prazo recorde de dois anos e, enfim, uma nave tripulada chamada Hope foi lançada para procurar estabelecer contato com os seres e a cultura recém-descobertos.

Após dez meses de viagem, o módulo da Hope pousou suavemente na borda de Mare Erythraeum, uma vasta região escura onde os restos da civilização foram encontrados.

Passados alguns dias de instalação e estruturação dos módulos de sobrevivência e de laboratório, a equipe composta de três homens de três nacionalidades diferentes e três mulheres brasileiras, todos cientistas de alto nível, adentrou Mare Erythraeum.

O que se via era destruição por todos os lados. Havia edifícios desmoronados, uma grande extensão de um antigo lago já seco, veículos sobre rodas abandonados e cobertos de areia vermelha, troncos de uma estranha vegetação caídos pelo solo e muitos, muitos esqueletos de várias formas de vida desconhecidas.

O que teria acontecido a essa civilização no prazo de apenas dois anos?

A equipe avançava lentamente pelas ruas anotando e fotografando tudo que via, quando alguns sobreviventes cambaleantes se aproximaram parecendo a princípio hostis por causa da fome e da sede. Eram seres humanoides porque possuíam pernas com as quais caminhavam eretos e mãos, mas no mais eram totalmente estranhos aos humanos. Os cientistas carregavam água e proteínas em pó e isso foi suficiente para acalmar os ânimos.

Estabelecida a paz, era hora de tentar o diálogo.

A equipe procurou com gestos e desenhos no solo perguntar o que causou a hecatombe, mas não foi necessário um grande esforço de compreensão porque os sobreviventes logo adivinharam quais eram as indagações.

O ser aparentemente mais idoso grunhiu alguns sons e logo outro com aspecto de criança trouxe fotos, desenhos e um estranho projetor holográfico por meio do qual foi possível estabelecer uma linha do tempo dos terríveis fatos ocorridos.

Foi durante a chegada da Perseverance que a civilização avançada que vivia harmoniosamente de maneira sustentável começou seu processo de extinção.

Até antes da Perseverance, Mare Erythraeum vinha sendo governada de maneira sábia, previdente e civilizada. Claro que havia alguns problemas na produção e distribuição de alimentos e água, mas, de maneira geral vivia-se bem.

A sociedade era composta de 6 grupos principais: a diminuta, mas poderosa classe dos muito abastados, a pequena classe dos governantes e das instituições, a também pequena classe dos intelectuais, artistas e cientistas, a dos sacerdotes, a grande classe do povo simples e, por fim a pequena e barulhenta congregação dos pategos, aqueles que  renegavam a civilização e seus avanços, desprezavam os intelectuais e os cientistas, conspiravam contra o governo e as instituições e se consideravam orgulhosos de sua ignorância e de suas ideias retrógradas.

Os pategos já haviam dominado Mare Erythraeum no passado, causando enorme estrago à civilização, mas estavam recolhidos há décadas e ninguém mais levava a sério a possibilidade de eles voltarem ao poder.

Porém, havia surgido em 2020, pelo calendário terráqueo, uma certa movimentação deles a que ninguém deu grande importância.

Os pategos alçaram um dos seus à sua liderança. Justamente um dos mais obscurantistas e que há anos dava mostras de não se encaixar no sistema vigente, preferindo o regime que dominou a região no passado.

Passaram a fazer muito barulho, conseguiram que os órgãos informativos da população fizessem vistas grossas e até, em alguns casos aderissem disfarçadamente ao que pregava o novo líder.

Boa parte da classe política e instituições desdenharam da possibilidade da ascensão ao poder desse patego, achando que ele não levava perigo.

Também, boa parte da população aos poucos se convencia de que ele apenas era um marciano simples e sincero, e que o que pregava, preconceito, discriminação, autoritarismo, armamento, ódio, era apenas para impressionar.

Pois bem, o líder patego conseguiu chegar ao poder e o processo de deterioração da civilização de Mare Erythraeum teve início.

À princípio os políticos de oposição e as instituições ficaram apenas estarrecidos e inertes diante dos discursos cruéis e infames. Seguiram-se atos de destruição do meio-ambiente, dos direitos da classe pobre e de fechamento das instituições. Quando uma terrível doença advinda provavelmente de vírus que foram trazidos inadvertidamente pela Perseverance e sobrevivido à longa viagem pelo espaço, começou a dizimar a população, o líder patego lhe negou remédio.

Embora as classes dos políticos e instituições e dos intelectuais, artistas e cientistas esboçassem uma reação, esta não foi possível se concretizar devido às ameaças violentas do líder patego e seus asseclas. Ademais, a classe dos muito abastados e boa parte da dos sacerdotes perceberam que poderiam se aproveitar e lhe deram apoio.

As ameaças passaram a ser constantes e a aumentar em grau de violência.

Os pategos, agora armados por seu líder, intimidavam a todas as classes.

Registros históricos da civilização foram queimados em nome de uma nova ordem.

Certos da impunidade, os que lhe eram mais próximos começaram a praticar todo tipo de corrupção.

Mare Erythraeumcomeçou então a viver períodos de grande fome e sede, além de desastres naturais como imensas tempestades de areia. O líder patego não se importava com isso, preferindo se exibir de gnorkyiwh, uma espécie de veículo que flutuava sobre o solo em grande velocidade, sempre acompanhado de outros pategos.

Por fim, o colapso econômico e a deblaque da sociedade.

Terminada a exposição holográfica, o ancião gesticulou que era chegada a hora de todos se esconderem porque os pategos sobreviventes, junto com seu líder, sairiam a qualquer momento de seu bunker onde se refugiavam e gozavam da boa vida, para saquear o pouco que restara da civilização e calar com armas qualquer esboço de reação. Tornara-se uma prática diária.

Para terminar, o ancião demonstrou toda sua tristeza com o fato de que Mare Erythraeum deixara passar o turning point, o ponto de inflexão, porque todos se acovardaram e já não era possível nenhuma reação.

Contribuiu para isso a ausência de um líder que fizesse forte oposição ao patego. Os colaboracionistas, comprados por minerais preciosos do planeta, não se importaram com sua destruição.

As cientistas se entreolharam várias vezes. Impossível não relacionar o relato ao que havia acontecido na Terra entre 2016 e 2022.

Um arrepio percorreu a espinha das cientistasbrasileiras ao imaginar o destino do Brasil nas mãos de um patego. Foi justamente um patego que tentara vencer as eleições em 2022, mas fracassou.

Felizmente, ao contrário de Mare Erythraeum, o Brasil tinha um líder de oposição que enterrou de vez o terrível pesadelo de mais quatro anos de dominação dos pategos.

Infelizmente, por não ter uma liderança que se contrapusesse ao patego, a civilização de Mare Erythraeum estava irremediavelmente condenada.

Restaria apenas a barbárie.

Os cientistas decidiram voltar à Terrano dia seguinte.

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Fernando Castilho

Fernando Castilho

Arquiteto, Professor e Escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, A Sangria Estancada
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