A voz que mandou passar a boiada


Morte

Morte Foto: Divulgação

Este articulista, quando se senta em frente a um teclado de computador, costuma se perguntar com que órgão vai escrever. Se com o coração, com o cérebro, o fígado, o estômago ou os intestinos, seja o delgado ou o grosso. Prefiro sempre o cérebro, dando algumas chances ao coração também.

Ao ser informado em primeira mão pelo jornalista Simão Felix Zygband, editor do Construir Resistência, da notícia do assassinato de Dom e Bruno, que todos nós já aguardávamos, posto que já não havia mais esperanças de encontrá-los com vida, meu primeiro impulso foi o de escrever um artigo. Mas não consegui.

As ideias dançavam e insistiam em sair do cérebro, descendo até o intestino grosso, a última etapa da digestão, responsável pela escatologia. Melhor evitar.

Foi preciso desistir e aguardar até que a organização do pensamento se desse de maneira um pouco mais racional, porém não de todo.

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O culpado pelas mortes violentas de Dom e Bruno não é aquele apresentado pela imprensa, cujo nome nem me recordo, tamanha a desimportância da pessoa.

Embora não seja possível atribuir diretamente culpa, podemos inferir que a nascente que veio dar nesse rio violento está ocupando, ainda que por mais alguns meses, o Palácio do Planalto.

Foi um monstro, parido por um país desejoso do fim do processo civilizatório, desejoso da truculência e do preconceito, desejoso da entrega da Amazônia para o agronegócio, o responsável indireto, mas principal pelas mortes, não só de um jornalista ambientalista e de um indigenista, mas também de milhares de indígenas que hoje se encontram sob a mira de garimpeiros, madeireiros e grandes produtores rurais.

Ou não foi m monstro que mandou liberarem a Amazônia para o garimpo ilegal, botarem fogo na floresta, tentarem vender madeira ilegal para os Estados Unidos, enfim, passarem a boiada?

Coautor ou autor?

A grande imprensa noticia o ocorrido, culpa o autor direto pelas mortes de Dom e Bruno, mas poupa o coautor. Se furta a responsabilizar a quem deu sinal verde para os assassinatos. É cúmplice, portanto.

Enquanto isso, o fato repercute na mídia internacional que corretamente o enxerga como resultado das políticas de destruição implementadas desde 2019 pelo Capitão Morte.

Por estarmos enclausurados numa bolha, não conseguimos um olhar do todo, mas tenho certeza de que grande parte da população brasileira acompanhou os dias angustiantes das buscas, se sensibilizou com o trágico desfecho e está se perguntando até onde vai a responsabilidade daquele a quem segue como um mito. Aquele que possui uma casa num condomínio no Rio, mesmo local onde vivia o miliciano preso como assassino da vereadora Marielle Franco. Na cabeça das pessoas as peças se encaixam, de maneira não muito consciente, mas se encaixam.

As instituições não punirão o presidente que à esta altura deve estar se chafurdando por aí, como faz em todos os feriados prolongados (a agenda presidencial não registra nenhum compromisso e a imprensa não divulgou), mas o povo, ah, o povo, o fará, tenham certeza.

Acreditamos, de um ano pra cá, que, apesar do inúmeros malfeitos do capitão, cerca de 30% da população integra o núcleo duro que o apoia.

É um engano.

O núcleo duro está contido dentro desses 30%, portanto é menor. Certamente há quem agora já chegou a seu limite e abandonou o barco. E se não o fez, é porque também é cúmplice.

As próximas pesquisas dirão se essa massa se reduziu ou não. Acho que sim.

Será o início das punições àquele que é, mas nunca deveria ter sido. Não será reeleito.

As outras virão em cascata.

 

Fernando Castilho

Fernando Castilho

Arquiteto, Professor e Escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, A Sangria Estancada
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