ARTE CONTRA A FOME
Por Luiz Brandão
07 de setembro de 2026 às 01:48 ▪ Atualizado há 3 horas
Na terça-feira da semana passada, 1º de setembro de 2026, em São Paulo, o salão do Jantar Anual do Pacto Contra a Fome se calou antes mesmo de qualquer prato ser servido. Quem subiu ao palco não foi um político nem um empresário. Foi Seu Jorge. E o que ele trouxe não foi um show, foi um testemunho.
O cantor e ator, dono de uma das vozes mais reconhecíveis da música brasileira, abriu a noite com um relato que fez gelar a espinha de cada um dos presentes. Falou da própria pele, da própria carne: contou que já esteve dias sem comer, que já revirou o lixo em busca de alimento e encontrou um pão mofado, levou para casa e comemorou como se fosse um tesouro.
“Eu tô tão feliz, achei um pão no lixo com um pouco de mofo, é só limpar que dá pra comer”, teria dito na época. Uma frase que deveria ser absurda, mas que para milhões de brasileiros já foi — e para alguns ainda é — a mais pura realidade.
O evento, que reuniu lideranças corporativas e bancos concorrentes em torno de um objetivo comum, teve como pano de fundo a meta ousada de erradicar a fome no Brasil até 2030. A noite também contou com as apresentações da cantora Agnes Nunes e da acordeonista Lívia Mattos, além da presença do jogador Memphis Depay, que integrou o momento simbólico de doação de um veículo à organização. Mas foi a palavra de Seu Jorge que deu o tom: a fome não é um dado estatístico — é uma história que pode ser a de qualquer um.
E é justamente por isso que o depoimento do artista soa como um chamamento ao governo e ao povo brasileiro. Não para que celebrem apenas, mas para que garantam a continuidade da luta.
O que ainda precisa ser feito
Há uma razão para o otimismo que pairou sobre o jantar. Menos de dois meses antes, em 21 de julho de 2026, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) divulgou o relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026” (SOFI) e confirmou: o Brasil segue fora do Mapa da Fome.
O país manteve a prevalência de subnutrição abaixo de 2,5% da população — o limite utilizado pela FAO para classificar um país como livre da fome crônica. Mais do que isso: a insegurança alimentar severa despencou para 0,6% da população, o menor índice da série histórica. Isso significa que 16,7 milhões de brasileiros deixaram a condição de insegurança alimentar severa no triênio 2023-2025.
Para se ter uma ideia da dimensão da queda, o percentual de brasileiros em situação de fome extrema era de 6,6% no triênio 2021-2023, recuou para 3,4% em 2022-2024 e chegou agora a 0,6%. Uma redução de mais de 90% em poucos anos.
Não é coincidência. É política pública!
Lula e a fome: uma história que se repete (para o bem)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já tirou o Brasil do Mapa da Fome duas vezes. A primeira, em 2013, durante seu primeiro governo, quando o país alcançou o índice abaixo de 2,5% pela primeira vez. O Brasil voltou ao mapa no triênio 2020-2022, durante o governo anterior, quando 3,5% da população voltou a passar fome. Agora, com base nos dados do triênio 2022-2024, o país saiu novamente do mapa em 2025 — e o relatório de 2026 confirmou a permanência.
Em suas falas públicas, Lula tem repetido um mantra que ecoa nas políticas do atual governo: “ O Brasil deu exemplo duas vezes: é possível acabar com a fome ”. E os números mostram que não é retórica. A retomada de programas estruturantes como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que incentiva a agricultura familiar e distribui alimentos a quem mais precisa, e o Plano Brasil Sem Fome, somados à ampliação de políticas de transferência de renda e ao fortalecimento do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), vêm produzindo resultados concretos.
A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, resumiu bem o espírito do momento ao comentar o relatório da FAO: “ Esses resultados nos lembram que a fome não é inevitável. Quando os governos priorizam o combate à fome, à pobreza e à desigualdade, é possível alcançar avanços concretos ”.
O que Seu Jorge tem a ver com tudo isso?
Tudo.
O depoimento de Seu Jorge não é apenas emocionante — é estratégico. Artistas têm um poder que governos e empresários muitas vezes não têm: a capacidade de tocar o coração das pessoas. Quando Seu Jorge sobe ao palco e diz que já viveu aquilo que os números tentam descrever, a fome deixa de ser um gráfico e vira um rosto. Uma história. Uma vergonha que a sociedade não pode tolerar.
E ele não está sozinho. O combate à fome tem mobilizado cada vez mais o mundo da cultura e do entretenimento. O Rock in Rio escolheu a causa como tema central de sua edição de 2026, em parceria com a Ação da Cidadania. A dupla Henrique e Juliano organizou uma mega campanha de arrecadação de alimentos. Até Beyoncé, por meio de seu projeto BeyGood, lançou campanha contra a fome no Brasil.
Mas é preciso mais. Muito mais.
O chamado que fica
O Jantar do Pacto Contra a Fome não foi um evento de celebração — foi um alerta. O Brasil pode ter saído do Mapa da Fome, mas 1,2 milhão de pessoas ainda vivem em insegurança alimentar severa. E 21,1% da população ainda não tem condições de pagar por uma alimentação saudável. A luta está longe do fim.
A fala de Seu Jorge, naquela noite de setembro, foi um lembrete de que o progresso não é automático. Ele é construído com políticas públicas, com engajamento da sociedade civil e com a coragem de artistas que usam sua voz para quem não tem. Como bem disse o presidente Lula: “ É possível garantir que todo mundo tenha direito a tomar café, almoçar e jantar todo dia ”.
Mas só será possível se todos — governo, empresas, sociedade civil e, sim, artistas — assumirem a responsabilidade. Que o exemplo de Seu Jorge inspire outros nomes da música, do cinema e do esporte a levantar essa bandeira. A fome não pode esperar. E o Brasil não pode — nem vai — voltar atrás.
Luiz Brandão é jornalista formado pela Universidade Federal do Piauí. Está na profissão há 40 anos. Já trabalhou em rádios, TVs e jornais. Foi repórter das rádios Difusora, Poty e das TVs Timon, Antares e Meio Norte. Também foi repórter dos jornais O Dia, Jornal da Manhã, O Estado, Diário do Povo e Correio do Piauí. Foi editor chefe dos jornais Correio do Piauí, O Estado e Diário do Povo. Também foi colunista do Jornal Meio Norte. Atualmente é diretor de jornalismo e colunista do portal www.piauihoje.com.
ATAQUES ÀS MULHERES
REPROVADO
JUSTIÇA E CIDADANIA
DÚVIDAS
ELEIÇÕES 2026
AS DIFERENÇAS