HISTÓRIA E MEMÓRIA

ONG resgata a história de famílias que o Parque Nacional da Serra da Capivara apagou

Criado em 2013, o Instituto Olho d'Água atua em Coronel José Dias (PI) como ponte entre o passado pré-histórico e a memória viva dos que foram despejados durante a criação do Parque Nacional, enquanto 124 famílias seguem sem indenização

Por Luiz Brandão

05 de junho de 2026 às 13:54 ▪ Atualizado há 1 mês


Arquivo do Instituto Olho D'água Exposição de peças em cerâmica feitas pelas crianças assistidas pelo Instituto Olho D'água
Exposição de peças em cerâmica feitas pelas crianças assistidas pelo Instituto Olho D'água

Enquanto o Parque Nacional Serra da Capivara, no sul do Piauí, é reverenciado como Patrimônio Mundial pela UNESCO e celebra 47 anos de fundação e seu reconhecimento internacional, uma ferida silenciosa permanece em aberto nos arredores do município de Coronel José Dias. A criação da unidade de conservação em 1979 expulsou centenas de famílias de suas terras, e, quase cinco décadas depois, a história e luta por reparação segue viva, principalmente, pelo trabalho de uma organização que nasceu dentro da própria comunidade: o Instituto Olho d’Água (IOd’A).

O Parque Nacional Serra da Capivara foi criado em 5 de junho de 1979, através do Decreto nº 83.548 , para proteger a maior concentração de sítios arqueológicos das Américas, com pinturas rupestres que datam de milhares e milhares de anos. Contudo, entre 1978 e 1980, durante o processo de demarcação da área de 129.140 hectares, 251 famílias que viviam na serra foram retiradas à força de suas casas.

As famílias, que por gerações viveram do manejo da terra, da coleta de maniçoba e da criação de animais, foram realocadas às pressas nas periferias de cidades próximas, como São Raimundo Nonato, Coronel José Dias, João Costa e São João do Piauí. Relatos históricos descrevem um processo traumático: casas foram queimadas ou demolidas, roças destruídas, e os moradores tratados como "ameaça" à preservação, sem qualquer processo de conscientização ou diálogo prévio .

Apesar de o parque ter sido criado há 47 anos, o passivo fundiário nunca foi totalmente resolvido. Dados atualizados indicam que, das 251 famílias afetadas, 127 receberam algum tipo de indenização, embora os valores — que variam atualmente entre R$ 100 mil e R$ 300 mil — sejam considerados defasados e insuficientes por muitos atingidos. Outras 124 famílias seguem sem receber absolutamente nada do poder público pela perda de suas terras e de seu modo de vida.

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O jornalista Luiz Brandão ouve as histórias contadas por Jorlan Oliveira, um dos coordenadores do Instituto Olho D'água 
Arqueologia abraça a memória

Foi nesse cenário de apagamento histórico que surgiu, em 2013, o Instituto Olho d’Água (IOd’A). Fundado pela arqueóloga Marian Rodrigues, a associação sem fins lucrativos nasceu com uma proposta inovadora e sensível: aplicar os princípios da arqueologia comunitária, aproximando a população local de sua própria herança e, principalmente, preservando a memória das comunidades que foram silenciadas.

Sediado na cidade de Coronel José Dias, o instituto se tornou o principal elo entre o passado pré-histórico do parque e a história viva dos que foram expulsos dele.

O Centro de Memórias que resiste

O carro-chefe do IOd’A é o Centro de Memórias dos Povos da Serra da Capivara. Reconhecido como Ponto de Memória e Ponto de Cultura, o espaço museológico social resgata e expõe o modo de vida, as ferramentas de trabalho, as moradias e as histórias das famílias que habitavam a região antes da criação do parque.

"O instituto nasceu para articular a pesquisa científica com a educação patrimonial e a valorização das comunidades tradicionais", explica a fundadora. O local funciona como um contraponto à narrativa oficial, mostrando que a região não era um "vazio demográfico" antes da chegada dos arqueólogos, mas sim um território vivo, repleto de cultura e história recente.

Hoje, o IOd’A desempenha um papel crucial no desenvolvimento humano da região. O instituto atende centenas de pessoas diariamente com projetos que vão desde o acolhimento de crianças com TDAH e jovens em situação de vulnerabilidade (com aulas de informática, capoeira e contação de histórias) até a geração de renda.

O projeto Raízes Vivas, por exemplo, resgata técnicas tradicionais de artesanato e bordado, ensinando mulheres e idosas a produzir peças que são comercializadas, criando uma fonte de renda autônoma para as famílias que ainda sofrem as consequências econômicas do desterro. Devido ao seu impacto social, o instituto já foi premiado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e conta com incentivos de programas como o SISTE.

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Luta judicial segue em andamento

Enquanto o IOd’A preserva a memória, a Justiça Federal tenta garantir a preservação do parque e a reparação dos danos. Em outubro de 2025, a Justiça Federal de São Raimundo Nonato concedeu liminar determinando a reserva de R$ 4,49 milhões para a manutenção e preservação do Parque Nacional da Serra da Capivara, após ação movida pela OAB-PI que apontava omissão do poder público.

Entretanto, a questão das 124 famílias não indenizadas segue sem previsão de solução definitiva. O processo de desapropriação, que se estende há décadas, ainda aguarda um desfecho digno para aqueles que perderam não apenas suas casas, mas também seu território e sua identidade.

O trabalho do Instituto Olho d’Água, portanto, vai além da preservação. Ele devolve a essas pessoas o que o progresso lhes tomou: o direito de existir na história.


Fonte: IOd’A

Blog do Brandão

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Luiz Brandão é jornalista formado pela Universidade Federal do Piauí. Está na profissão há 40 anos. Já trabalhou em rádios, TVs e jornais. Foi repórter das rádios Difusora, Poty e das TVs Timon, Antares e Meio Norte. Também foi repórter dos jornais O Dia, Jornal da Manhã, O Estado, Diário do Povo e Correio do Piauí. Foi editor chefe dos jornais Correio do Piauí, O Estado e Diário do Povo. Também foi colunista do Jornal Meio Norte. Atualmente é diretor de jornalismo e colunista do portal www.piauihoje.com.