O BALÃO
Por Luiz Brandão
08 de maio de 2026 às 15:50 ▪ Atualizado há 1 hora
No Piauí, existe uma expressão que o povo usa muito como definição de calote. Aqui, quando alguém engana uma pessoa, se diz que "deu um balão". Pois, analisando as informações da Polícia Federal que resultaram na operação na casa de Ciro Nogueira (PP) e na empresa da família dele, foi exatamente isso que senador fez com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
De acordo com a PF e com a decisão de ministro do STF, André Mendonça, que resultou operação contra Ciro, ele recebia mesada, tinha cartão de crédito liberado, avião, hospedagem nos melhores hotéis do mundo, tudo pago pago por Vorcaro, em troca de favores políticos.
No entanto, conforme as investigações, o senador prometeu uma PEC para beneficiar o Banco Master, mas não entregou. Ficou como aquela história do ladrão que rouba ladrão. Ciro, como sempre, quis dar uma de esperto, mas dessa vez se ferrou e levou o irmão Raimundo Nogueira Lima Neto para o calabouço.
Na última quinta-feira (07/05), a Polícia Federal deflagrou a quinta fase da Operação Compliance Zero, e, pelo visto, Ciro não é mais visto como um simples “amigo” do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que agora é "hóspede" permanente da sede da PF em Brasília.
Pela descrição dos investigadores, o parlamentar assumiu o posto de “destinatário central” do esquema de Vorcaro. Ou, numa tradução mais clara para o nosso linguajar matuto: Ciro pegou o cartão de crédito do amigo, passou o rodo na mordomia, mas na hora de entregar o combinado, "deu balão".
Mensalão do Centrão
Sabe aquela história de “parceiro de negócios” que paga mesada? Então, a amizade entre Ciro e Daniel era tão linda que saía por módicos R$ 300 mil mensais. Sim, a PF descobriu que a empresa do senador, a CNLF Empreendimentos, mantinha uma “parceria” sólida com a empresa de Vorcaro, a BRGD S.A, dos Vorcaro.
Em diálogos dignos de novela mexicana, o primo e operador do banqueiro, Felipe Vorcaro, preso na operação de quinta-feira (0705), manda uma mensagem seca para Daniel em julho de 2024: “Oi, é para continuar pagando a parceria BRGD/CNLF? 300k mes?”. A resposta de Daniel é imediata: “Sim”.
Mas, como a inflação não perdoa, em junho de 2025 o salário já estava em dia, mas o valor subiu. Daniel, já desesperado no meio da “guerra”, cobra o primo: “Cara eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?”. Ágio na certa. O primo responde perguntando se mantém os R$ 500 mil ou volta os R$ 300 mil. É mole? Enquanto o trabalhador comum chora no cartório pra pagar a conta de luz, o "parceiro" Ciro Nogueira recebia um reajuste no "salário emocional" bancado pelo banco falido.
A PEC no envelope
Ora, almoço grátis não existe nem no conto da carochinha. A contrapartida era tão cara quanto a mensalidade. A Polícia Federal revelou que Ciro usou seu mandato de luxo para tentar salvar o Master da falência. Em agosto de 2024, ele protocolou a Emenda nº 11 à PEC 65/2023.
O que ela fazia? Coisa pouca: pular o limite de garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Um verdadeiro "salva-vidas" para o banco que estava afundando.
A parte mais cômica (e criminosa) dessa história é a autoria do texto. A PF afirma que Ciro não teve nem o trabalho de copiar do Google. A assessoria do próprio Banco Master redigiu a PEC, imprimiu, colocou num envelope e mandou entregar na casa do senador. O resultado? Ciro apresentou a parada no Senado como se fosse ideia de sua cabeça brilhante.
A prova do telhado de vidro veio na comemoração do banqueiro. Segundo os autos, Daniel Vorcaro vibrou: “Saiu exatamente como mandei”. Os comparsas dele já projetavam que a trama iria "sextuplicar" os ganhos do banco. Se isso não é a definição de "escravidão moderna" (o senador de aluguel mais barato do DF), eu não sei o que é.
Mas é aí que entra o "balão". Segundo a PF, Vorcaro pagou mesada, pagou hospedagem nos melhores hotéis do mundo, deixou o cartão de crédito liberado, pagou avião, deu entrada numa sociedade de R$ 13 milhões por apenas R$ 1 milhão para o senador. E o que Ciro entregou? Nada!
A PEC não passou. As operações da PF foram deflagradas. O Banco Master quebrou de vez. E Daniel Vorcaro, que achou que estava comprando um senador pra fazer seu serviço sujo, acabou perdendo o dinheiro, a liberdade e ainda levou um "balão" que já está ecoando na história política do Piauí.
Enquanto isso, Ciro Nogueira, como o bom "esperto" que tentou ser, ficou com a fama e o um irmão em apuros. Raimundo Neto, o irmão do senador, foi quem sobrou para o calabouço, usando tornozeleira eletrônica e proibido de falar com o próprio irmão.
Agora, para completar o enredo, Daniel Vorcaro está propondo uma delação premiada. E como se diz aqui no Piauí, Ciro Nogueira tem de "ficar veaco", porque o "balão" que ele deu no dono do Master pode explodir nas mãos dele.
Luiz Brandão é jornalista formado pela Universidade Federal do Piauí. Está na profissão há 40 anos. Já trabalhou em rádios, TVs e jornais. Foi repórter das rádios Difusora, Poty e das TVs Timon, Antares e Meio Norte. Também foi repórter dos jornais O Dia, Jornal da Manhã, O Estado, Diário do Povo e Correio do Piauí. Foi editor chefe dos jornais Correio do Piauí, O Estado e Diário do Povo. Também foi colunista do Jornal Meio Norte. Atualmente é diretor de jornalismo e colunista do portal www.piauihoje.com.
ENTREVISTA
ELEIÇÕES 2026
VAMOS AVANÇAR?
TERREMO DO SOM
ATRASO
OBRA MAL FEITA