ESTIMULO À VIOLÊNCIA
Por Luiz Brandão
18 de outubro de 2026 às 18:25 ▪ Atualizado há 8 minutos
Em 29 de outubro de 2022, véspera do segundo turno que daria a vitória a Lula, a então deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) atravessou uma rua do bairro dos Jardins, em São Paulo, com uma pistola em punho, perseguindo o jornalista Luan Araújo. As imagens correram o país. O homem negro que fugia de uma parlamentar armada tornou-se a síntese de uma campanha que já não sabia disputar voto sem exibir força bruta.
Quatro anos depois, neste domingo (18), o míssil inflável com a inscrição “Trump nuke Brazil”, um pedido explícito para que o presidente dos Estados Unidos bombardeie o Brasil com armas nucleares, foi erguido em um ato de campanha de Flávio Bolsonaro na Avenida Paulista, também em São Paulo. A distância entre a pistola de Zambelli e o brinquedo bélico no ato pró-Flávio é de tempo e de forma. A substância é idêntica.
Zambelli foi condenada pelo Supremo Tribunal Federal a cinco anos e três meses de prisão pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal com emprego de arma de fogo. A decisão foi por 9 votos a 2. O relator, ministro Gilmar Mendes, foi acompanhado pela maioria da Corte.
A parlamentar não cumpriu a pena no Brasil. Com dupla cidadania, fugiu para Itália em maio de 2025, após ser condenada a dez anos de prisão por outro processo, o da invasão ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com a emissão de um mandado falso de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes. Foi presa em Roma em julho daquele ano.
A Justiça italiana negou sua extradição em maio de 2026, e Zambelli deixou a prisão em Roma, onde vive e agurada a decisão sobre sua extradição em liberdade. Carla renunciou ao mandato de deputada federal em dezembro de 2025. Ela acumula condenações que, somadas, ultrapassam 15 anos de prisão.

A escalada
O episódio de 2022 não foi um desvio. Foi um ensaio. Na véspera da eleição que perdeu, o bolsonarismo mostrou que estava disposto a sacar armas nas ruas. Quatro anos depois, no ato deste domingo, apoiadores da mesma família política exibe um míssil inflável pedindo ataque nuclear contra o próprio país. A progressão é clara: da intimidação individual à fantasia de destruição coletiva. Da arma que ameaça um homem à bomba que ameaça uma nação.
A organização do ato de Flávio tentou esconder as bandeiras estrangeiras antes dos discursos, pedindo que apoiadores recolhessem símbolos de outros países. Mas o míssil com o pedido de bombardeio ficou. A hipocrisia é cirúrgica: esconde-se a bandeira dos Estados Unidos, mas mantém-se o pedido para que Trump destrua o Brasil.
O que isso significa
Não se trata de episódios isolados de militantes descontrolados. Trata-se de um método. O bolsonarismo não disputa eleições com propostas; disputa impondo medo. A arma de Zambelli nas ruas dos Jardins e o míssil na Paulista são ferramentas da mesma pedagogia política: a de que o adversário não é um oponente a ser vencido no voto, mas um inimigo a ser eliminado, seja por uma bala, seja por uma bomba.
A maioria dos brasileiros, inclusive a direita que se pretende democrática, não se reconhece nisso. Mas enquanto o gesto se repetir, a cada eleição, com requintes crescentes de absurdo, a política brasileira seguirá refém de uma minoria que confunde patriotismo com a fantasia de ver o país reduzido a cinzas.
Isso nos faz lembrar o dramaturgo alemão Bertolt Brecht, a quem se atribui a frase segundo a qual a cadela do fascismo está sempre no cio. A metáfora aqui reproduzida mostra bem o perigo que corre nossa democracia com quem não tem proposta para o país e quer se impor pelo medo, pelas ameaças, pelas armas e pela força.

Luiz Brandão é jornalista formado pela Universidade Federal do Piauí. Está na profissão há 40 anos. Já trabalhou em rádios, TVs e jornais. Foi repórter das rádios Difusora, Poty e das TVs Timon, Antares e Meio Norte. Também foi repórter dos jornais O Dia, Jornal da Manhã, O Estado, Diário do Povo e Correio do Piauí. Foi editor chefe dos jornais Correio do Piauí, O Estado e Diário do Povo. Também foi colunista do Jornal Meio Norte. Atualmente é diretor de jornalismo e colunista do portal www.piauihoje.com.
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