O medo de que a reposição hormonal provoque câncer ainda é um dos principais motivos que levam mulheres a evitar o tratamento durante a menopausa. Segundo a ginecologista Débora de Moura Santos, no entanto, estudos realizados ao longo dos anos ajudaram a esclarecer essa relação e mostraram que a terapia hormonal não pode ser apontada, de forma isolada, como causadora da doença.
“O que causa câncer são outros fatores, como obesidade, sedentarismo, tabagismo. Se a mulher tiver uma predisposição a ter câncer, ela vai ter, independente de fazer ou não a reposição hormonal”, explicou a médica durante participação no podcast Mulher Mais, do Portal Piauí Hoje.
De acordo com a ginecologista, o receio em relação à terapia hormonal ganhou força a partir de um estudo realizado na década de 1990, que ficou conhecido pela sigla WH. A especialista afirmou que pesquisas posteriores permitiram uma nova avaliação dos resultados.
“O problema desse período que a sua mãe passou foi um estudo que veio na década de 90, que foi o WH. Esse estudo acabou com a gente mesmo, com nossas mães, principalmente por causa desse medo da reposição hormonal. Mas hoje, depois de vários estudos, a gente viu que não é a reposição hormonal que causa câncer."
A ginecologista ressaltou, porém, que a indicação do tratamento deve considerar as características de cada paciente. Ela explicou que existem situações específicas em que a reposição hormonal não é indicada e diferentes formas de administração dos hormônios.
Sintomas podem aparecer antes da menopausa
A ginecologista Débora de Moura explicou que a menopausa corresponde à última menstruação da mulher. O diagnóstico é considerado quando ela permanece 12 meses sem menstruar. Antes disso, durante o climatério, já podem surgir alterações hormonais e sintomas.
Entre os sinais citados pela médica estão irregularidade menstrual, ondas de calor, irritabilidade e a chamada “névoa mental”, caracterizada por esquecimentos e lapsos de memória.
“Então, tem mês que vem, tem mês que não vem, calores, fogachos, pode aparecer também irritabilidade. E a névoa mental, que são aqueles esquecimentos, aqueles lapsos de memória”, explicou.
Segundo a especialista, algumas mulheres chegam ao consultório sem compreender que as mudanças de comportamento podem estar relacionadas à fase. Ela relatou casos de pacientes que passaram a se sentir mais irritadas, estressadas e menos produtivas.
Libido pode diminuir, mas não significa fim da vida sexual
A sexualidade feminina também foi um dos principais assuntos da conversa. Segundo a ginecologista Débora de Moura, a queda hormonal pode interferir na libido, mas não é o único fator responsável pela redução do desejo.
“Ajuda, mas ela não é a principal causa de alteração na libido”, afirmou a médica ao falar sobre a reposição hormonal. Ela explicou que estresse, atividade física, relacionamento, autoestima, aumento de peso, ressecamento vaginal e dor durante a relação também podem interferir no desejo sexual.
A ginecologista destacou ainda que a redução dos hormônios pode provocar alterações na vagina, incluindo ressecamento e desconforto durante as relações.
“Então, existe hoje tanta tecnologia que ajuda nisso. Existe o laser, existe a radiofrequência, existem bioestimuladores, preenchimento íntimo que ajuda também.”
Para a ginecologista, a menopausa não representa o fim da vida sexual. Ao ser questionada sobre a possibilidade de a mulher continuar sentindo prazer nessa fase, ela foi direta:
“A gente é para namorar em qualquer idade.”
Gravidez ainda é possível durante o climatério
Outro alerta importante feito pela ginecologista envolve a possibilidade de gravidez. Mesmo quando a mulher está próxima da menopausa, ela ainda pode ovular. Por isso, a transição para essa fase não deve ser confundida com infertilidade imediata.
A ginecologista citou o caso da atriz Claúdia Raia que engravidou durante a reposição hormonal para reforçar a necessidade de manter métodos contraceptivos quando houver possibilidade de gestação.
“Fazer reposição hormonal, tem que usar camisinha ou pelo menos coloca o DIU”, alertou.
A orientação vale para mulheres que ainda não chegaram efetivamente à menopausa. A esterilização também é um fator que deve ser considerado individualmente, mas, para quem não é esterilizada e ainda pode engravidar, é necessário discutir um método contraceptivo com o médico.
Parceiro também deve participar
A médica também chamou atenção para a importância de o parceiro compreender as mudanças provocadas pela menopausa. Segundo ela, alterações na libido, irritabilidade e esquecimentos podem ser interpretados de maneira equivocada dentro do relacionamento.
“Eu sempre oriento vocês, mulheres, a levarem seus maridos para a consulta”, afirmou.
A ginecologista explicou que o acompanhamento do parceiro pode ajudar na compreensão dos sintomas e do próprio tratamento.
“Marido às vezes acha que a mulher não está mais gostando dele, né? Porque naquele caso do desejo sexual, então já acha que é problema dele, que a mulher não gosta dele.”
Para a ginecologista, informação e diálogo são importantes para que a mulher não atravesse essa fase sozinha.
Menopausa precisa de acompanhamento
Antes de iniciar uma reposição hormonal, segundo Débora, é necessário avaliar as condições de saúde da paciente. Ela citou exames hormonais e avaliações das mamas e do útero como parte da investigação.
A médica também reforçou que o tratamento precisa ser acompanhado ao longo do tempo e não deve ser reduzido à repetição automática de uma receita.
“Reposição hormonal não é só você fazer e acabou. Pega a mesma receita e fica só repetindo, não é? A gente tem que fazer o acompanhamento pelo menos de seis em seis meses”, explicou.
Ao final da entrevista, Débora deixou um recado para as mulheres que estão passando pelo climatério ou pela menopausa.
“Eu sempre digo: a menopausa não é uma doença. Ela tem tratamento. Procurem ajuda. Não fique em silêncio. Nós mulheres temos muito aquela coisa de ficar guardando os sintomas”, orientou.
A entrevista com Débora de Moura Santos foi gravada para o podcast Mulher Mais, do Portal Piauí Hoje, e teve como tema “Menopausa sem tabu e as soluções para essa fase da vida da mulher”.