“Cada autista é único”. A afirmação da psicóloga, fotógrafa, escritora e doutoranda em Filosofia da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Ana Cândida, resume uma das principais reflexões compartilhadas por ela durante entrevista ao podcast Mulher Mais. Diagnosticada com autismo aos 30 anos, ela contou como passou boa parte da vida tentando compreender dificuldades que, durante anos, não tinham uma explicação.
Na infância e adolescência, Ana enfrentou dificuldades para acompanhar a escola e precisou concluir os estudos por meio do supletivo. Ela também relatou problemas de interação social e afirmou que, naquele período, pouco se falava sobre autismo em mulheres.
“Na minha época de infância e adolescência, não se falava sobre autismo. Até se falava em autistas com deficiência intelectual, geralmente severa, autistas que não verbalizavam. Não se falava em mulheres autistas, principalmente mulheres autistas com alta fluência verbal”, contou.
Diagnóstico veio aos 30 anos
Ana explicou que começou a buscar respostas depois de enfrentar períodos de depressão e dificuldades relacionadas à aprendizagem e à rotina. O diagnóstico veio em 2013, quando ela tinha 30 anos.
“Quando você vai atrás do diagnóstico, você vai atrás principalmente para saber o que você pode fazer na sua vida para melhorar sua qualidade. Eu vivia em depressão e tenho muita dificuldade de aprendizagem”, relatou.
Antes de descobrir o autismo, Ana chegou a trabalhar como psicóloga na área social. A rotina, que exigia contato constante com outras pessoas, era especialmente difícil para ela.
Ela contou que enfrentava crises frequentes e chegou a perder muito peso. Na época, ainda não compreendia que algumas das dificuldades estavam relacionadas ao autismo.
Ela queria ser jornalista
Antes da Psicologia, Ana tinha outro sonho profissional: queria ser jornalista. O interesse surgiu principalmente pela vontade de escrever e de transmitir informações para outras pessoas.
A timidez, porém, fazia com que ela tivesse dificuldade para se comunicar. Uma familiar chegou a dizer que ela não conseguiria seguir a profissão.
“Eu queria muito escrever. Eu queria viver de escrever mesmo. Eu acho que eu me encantei pelo jornalismo justamente por essa possibilidade de poder dar informação para as pessoas”, afirmou.
Com o passar dos anos, Ana encontrou outras formas de se expressar. A fotografia e a literatura se tornaram importantes ferramentas para colocar para fora sentimentos e experiências que nem sempre conseguia traduzir em palavras.
Fotografia e literatura como expressão
Ana também é fotógrafa e escritora. No ano passado, publicou o livro Abscinto, obra em que reúne crônicas em prosa poética sobre experiências pessoais, sentimentos e autismo.
“Eu não sinto de uma forma convencional, não sinto de uma forma neurotípica. Meu livro é todo escrito em crônicas em prosa poética. Eu precisava botar para fora aquilo que eu sentia, como eu preciso também fotografar”, explicou.
Para ela, a arte também contribuiu para a construção de repertório e para o desenvolvimento da comunicação.
“A fotografia me permitiu adquirir esse repertório. Eu adquiri muito também com a forma de extravasar os meus sentimentos através da fotografia, da arte e também da escrita”, afirmou.
Epistemologia da deficiência
Atualmente, Ana é doutoranda em Filosofia e pesquisa a chamada epistemologia da deficiência. O campo busca discutir a produção de conhecimento sobre as experiências das pessoas com deficiência.
Segundo ela, o trabalho também procura ampliar a participação dessas pessoas na própria produção acadêmica.
“A epistemologia da deficiência é o conhecimento sobre deficiência, não só autismo, mas sobre deficiência como um todo. A gente estuda de forma que consiga ampliar espaços para a gente atuar dentro da Filosofia”, explicou.
Ana também participa de um grupo de trabalho sobre Filosofia da Deficiência na UFPI. Para ela, ainda existem muitas barreiras para a permanência de pessoas autistas na universidade.
Ela relatou que tentou ingressar no doutorado três vezes e que, inicialmente, teve dificuldade até mesmo para compreender o processo de inscrição.
“Eu tentei três vezes o doutorado porque eu não passava nem da inscrição. Eu não consegui entender nem o processo de inscrição do doutorado. Cada autista é diferente, isso precisa ser muito visto. Cada um é único”, afirmou.
Assista a entrevista completa:
Universidade ainda precisa avançar
A pesquisadora considera que as instituições de ensino precisam olhar para as necessidades individuais de estudantes autistas, em vez de criar adaptações padronizadas.
“Eles criam padrões de tratamento, matrizes curriculares, mas todos os autistas têm que ser vistos de forma individualizada. Cada um é único. E na universidade também existe essa barreira de olhar de forma única”, destacou.
Para Ana, os prazos e a rotina acadêmica podem representar uma sobrecarga ainda maior para algumas pessoas autistas.
“Uma pessoa autista tem dificuldades ímpares que vazam a nossa energia. Eu fico morta o tempo todo. Eu fico acabada o tempo todo”, contou.
“Eu queria não ter medo das pessoas”
Entre as dificuldades que gostaria de eliminar, Ana apontou o medo das relações sociais. Apesar disso, ela afirma que gosta de estar perto de outras pessoas e considera ocupar espaços uma forma de resistência.
“Eu gosto muito de pessoas, muito. Eu queria não ter medo das pessoas. Eu queria muito não ter medo das pessoas, porque eu amo pessoas”, disse.
Para ela, continuar ocupando espaços, mesmo diante das dificuldades, também representa uma escolha pela própria vida.
“Eu não deixo de estar nos lugares por causa das minhas dificuldades, porque eu acho que estar aí é uma forma de resistência. Eu estou mostrando para as pessoas que eu quero viver”, afirmou.
Um sonho que envolve pessoas
Ao falar sobre o futuro, Ana contou que gostaria de realizar um doutorado-sanduíche no exterior. Mas, acima da trajetória acadêmica, existe um desejo que considera ainda maior: alcançar outras pessoas.
“Meu maior sonho sempre foi alcançar pessoas. Alcançar pessoas no sentido de acolher, de mostrar quem eu sou e de falar. Eu acho que meu maior sonho sempre envolveu pessoas”, declarou.
A história de Ana Cândida mostra como o diagnóstico tardio pode ajudar a compreender experiências vividas durante décadas e também evidencia a necessidade de ampliar os espaços de inclusão para pessoas autistas.
Entre a Psicologia, a Filosofia, a fotografia e a literatura, ela encontrou diferentes maneiras de compreender a si mesma e de compartilhar sua forma particular de enxergar o mundo.