O medo do câncer de mama ainda faz parte da realidade de muitas mulheres, mas receber o diagnóstico não significa necessariamente uma sentença de morte. O alerta é da tecnóloga em Radiologia e especialista em Oncologia e Radioterapia Patrícia Ribeiro Costa, que atua na assistência em radioterapia no Hospital São Marcos e no Hospital Universitário e é mestra em Saúde da Família.
Em entrevista ao podcast Mulher Mais, apresentado pela jornalista Natália Costa e pela cientista política Ozeli Santos, Patrícia falou sobre prevenção, diagnóstico, autoconhecimento e a importância de as mulheres conhecerem o próprio corpo. Ela também apresentou o e-book Amor de Mama, projeto criado para levar informação sobre o câncer de mama de maneira acessível.
Para a especialista, trabalhar diretamente com pacientes oncológicos também mudou a forma como ela própria enxerga a doença. Patrícia explica que, apesar de a oncologia estar relacionada à dor e aos desafios enfrentados pelos pacientes, também existe espaço para tratamento e cura.
“Ter câncer não quer dizer que você vai morrer”, afirmou durante a entrevista.
Por que as mulheres têm tanto medo do câncer?
O câncer ainda é frequentemente associado à morte, o que pode fazer com que muitas pessoas tenham medo até mesmo de procurar atendimento médico. Para Patrícia, falar abertamente sobre a doença é uma forma de enfrentar esse medo e ampliar o conhecimento das mulheres sobre a própria saúde.
Ela considera o câncer de mama um problema de saúde pública, principalmente diante da incidência da doença e dos diagnósticos realizados em estágios avançados.
A especialista defende que a informação e o conhecimento sobre o próprio corpo precisam fazer parte da rotina das mulheres.
“Eu estou aqui partilhando saberes e falando sobre prevenção, diagnóstico, sobre o autoconhecimento, sobre o que nós mulheres podemos fazer diante desse problema que é um problema de saúde pública, que é o diagnóstico avançado do câncer de mama e a alta incidência do câncer de mama.”
Nesse sentido, o autoconhecimento aparece como uma ferramenta importante. A mulher que conhece o próprio corpo consegue perceber quando determinada alteração foge do que é habitual e, diante disso, procurar atendimento profissional.
E-book Amor de Mama leva informação às mulheres
Além da atuação na área de oncologia e radioterapia, Patrícia também utiliza a educação em saúde como forma de conscientização. Ela é autora do e-book Amor de Mama, projeto que aborda o câncer de mama e busca aproximar as mulheres de informações relacionadas à prevenção e ao diagnóstico.
A publicação é uma das iniciativas desenvolvidas pela especialista para falar sobre a doença de forma mais acessível e ajudar a diminuir o medo provocado pela falta de informação.
A proposta também está relacionada à própria trajetória profissional de Patrícia. Ela conta que seu contato com a oncologia começou há cerca de 20 anos, quando ainda era estagiária no Hospital São Marcos.
“Fui ser estagiária no Hospital São Marcos e foi lá que eu conheci a oncologia e foi lá que a oncologia me conheceu. Interessante. E isso aconteceu há 20 anos."
A experiência despertou nela a necessidade de aprofundar os conhecimentos sobre o câncer. Segundo Patrícia, durante a formação na área da saúde, os profissionais recebem uma preparação generalista, mas o contato com pacientes na prática pode revelar a necessidade de uma especialização.
“Quando eu conheci o câncer, como até hoje os estudantes saem dos cursos de saúde com conhecimento generalista, então eles saem conhecendo a enfermagem, a fisioterapia, todas as áreas da saúde, enfermagem, fío, fono, nutrição, radiologia.”
Ela explica que, ao começar a trabalhar diretamente com pacientes oncológicos, percebeu que precisava compreender mais do que os aspectos técnicos da profissão.
“E aí de repente você sai com aquele conhecimento geral na sua área e aí você está ali em um hospital de um paciente que tem câncer, que eu entendia sobre radiação, sobre dose, sobre entrega, mas eu não entendia sobre a doença dele e isso me levou a estudar mais. Então eu fui fazer a especialização em oncologia.”
Conhecer o próprio corpo ajuda na prevenção
Durante a entrevista, Patrícia também reforçou a importância de as mulheres desenvolverem o autoconhecimento corporal e prestarem atenção às mudanças que aparecem nas mamas.
A percepção de um caroço ou de qualquer alteração diferente do habitual deve levar a mulher a procurar um serviço de saúde para avaliação. A investigação médica é fundamental para identificar a causa da alteração e verificar se há necessidade de exames complementares.
A especialista ressalta que a prevenção e o diagnóstico precisam ser acompanhados de informação, evitando tanto a negligência quanto o medo excessivo.
A ideia, portanto, não é fazer com que as mulheres vivam com medo do câncer, mas que tenham conhecimento suficiente para reconhecer alterações e buscar ajuda quando necessário.
Navega Mamas
Patrícia também desenvolve o Navega Mamas, projeto voltado à conscientização sobre a saúde das mamas. A iniciativa faz parte de sua atuação na área de educação em saúde e amplia o trabalho desenvolvido por ela para levar informações às mulheres.
Para a especialista, falar sobre câncer de mama é também falar sobre cuidado, informação e possibilidade de tratamento.
A trajetória profissional de Patrícia, segundo ela própria, foi construída a partir do estudo e da experiência adquirida no contato com pacientes.
“Então, tudo aconteceu na minha vida a partir do estudo. Então, eu estudei a Radiologia e fui ser estagiária, que é a porta de entrada de milhões de jovens do nosso país.”
Hoje, a especialista alia a atuação na assistência em radioterapia à produção de conteúdo e iniciativas de educação em saúde, buscando fazer com que mais mulheres tenham acesso a informações sobre o câncer de mama.
E é justamente essa mensagem que ela leva para o Amor de Mama: falar sobre câncer não deve significar apenas falar sobre medo. Também é preciso falar sobre prevenção, diagnóstico, tratamento, cuidado e cura.