A chegada de um gato molhado em uma noite chuvosa mudou os planos da professora e escritora Virgínia Rocha. O que inicialmente seria um romance acabou dando lugar a uma história infantil que se transformaria em seu primeiro livro publicado e em uma nova missão: usar a literatura para falar sobre proteção animal, empatia e adoção responsável.
Autora de Bichos Molhados e O Caminho para a Quitanda, a escritora encontrou na literatura infantil uma maneira de levar às crianças reflexões que vão além do cuidado com os animais. Para ela, ensinar desde cedo que um animal não é um brinquedo também pode ajudar a formar pessoas mais conscientes sobre o respeito ao outro.
A história com a literatura começou ainda na infância. Filha de uma mulher que trabalhava em uma gráfica em Timon, no Maranhão, Virgínia passou a ter contato com revistas, papéis e livros desde pequena. Quando chegou à escola, já sabia ler.
Formada em Pedagogia e com trajetória na educação pública, ela passou a utilizar livros infantis como parte de suas aulas. O contato com bibliotecas escolares ampliou ainda mais sua relação com a literatura.
“Eu queria que os meus alunos tivessem acesso à literatura infantil, um acesso que eu não tive na infância. Então, assim, eu mergulhei nesse universo da literatura infantil”, contou.
Assista ao podcast completo:
Um gato molhado mudou o rumo da escrita
A ideia de se tornar escritora surgiu depois que Virgínia se aposentou da Prefeitura de Timon, em 2024. O primeiro projeto era um romance, que ainda está sendo escrito. Porém, durante uma noite em que trabalhava no texto, ela foi interrompida por Bob, um gato que havia sido acolhido pela família.
“Uma noite eu estava escrevendo romance no quarto, quando meu gato Bob, que era um gato em situação de rua, se mudou para minha casa, ele me adotou e nós o acolhemos. Ele chegou molhado e ele quer que eu o enxugue. Então eu parei o que eu estava fazendo e fui enxugar o gato. Quando eu retornei, me veio a inspiração de escrever os bichos molhados.”
A partir daquele momento, a história ganhou vida. O primeiro poema do livro recebeu justamente o nome de O Gato Molhado. Virgínia passou cerca de dez meses escrevendo, relendo e reformulando o material até decidir publicá-lo.
Em Bichos Molhados, diferentes animais aparecem nas histórias e poemas, enquanto uma “boa senhora” acolhe os bichos e convida os leitores a refletirem sobre a importância de proteger animais em situação de rua.
A experiência também aproximou ainda mais a escritora da causa animal. “Os animais não têm voz e ninguém fala por eles. Poucas pessoas falam. Então eu digo, vou falar por eles”, afirmou.
Literatura também ensina sobre responsabilidade
Para Virgínia, o contato das crianças com histórias que apresentam animais em situações de abandono ou vulnerabilidade pode abrir espaço para conversas importantes dentro de casa e na escola.
Um dos exemplos surgiu quando uma mãe procurou a escritora porque os filhos queriam ter um gato, mas não compreendiam a responsabilidade envolvida na decisão.
“Então esse livro ele traz pra família essa reflexão. Vamos conversar com a criança, vamos entender que o animal não é um brinquedo. Sim. Que o animal precisa de cuidados, que o animal dá gastos, né? Precisa ser castrado, ser vacinado, precisa de um lugar, precisa da ração, da ração. Então ele é um membro da família.”
A mensagem, porém, não termina na relação entre crianças e animais. A escritora acredita que valores como empatia e respeito podem ser ampliados para diferentes relações sociais.
“O livro trata da empatia, do respeito. E essa empatia, esse respeito não precisa ser só pelos animais, né? Então ele dá abertura a reflexões”, destacou.
É justamente nesse ponto que a literatura infantil ganha uma dimensão educativa. Ao aprender a reconhecer as necessidades de outro ser, a criança também pode desenvolver a capacidade de respeitar pessoas diferentes dela, incluindo idosos, mulheres, pessoas com deficiência e pessoas neurodivergentes, além de compreender a importância da diversidade e da convivência respeitosa.
‘O Caminho para a Quitanda’ amplia as reflexões
O segundo livro de Virgínia, O Caminho para a Quitanda, também utiliza a literatura para provocar reflexões. Segundo a autora, a obra aborda temas relacionados à felicidade e pode ser trabalhada tanto pelas famílias quanto pelas escolas.
A escritora defende que os livros sejam utilizados como instrumentos para conversar com as crianças sobre sentimentos, relações e comportamentos.
“Os meus livros trazem uma reflexão necessária, né, sobre o respeito, que o animal merece o respeito, que o ser humano merece o respeito sobre a empatia”, afirmou.
A proposta é fazer com que a literatura não seja apenas uma atividade de leitura, mas uma oportunidade de diálogo. A criança pode conhecer uma história sobre um animal abandonado, por exemplo, e, a partir dela, conversar sobre responsabilidade, cuidado, solidariedade e respeito.
Escritora também quer inspirar outras mulheres
A trajetória de Virgínia na literatura começou depois dos 50 anos e acabou se tornando também uma inspiração para outras mulheres que desejam escrever.
Depois da publicação de Bichos Molhados, ela recebeu convites para participar de programas de televisão, podcasts e eventos culturais. Também foi homenageada em Timon e passou a integrar iniciativas relacionadas à proteção animal.
“Eu tenho sido uma inspiração para outras pessoas”, contou.
Para ela, começar uma nova atividade depois dos 40 ou 50 anos não significa estar no fim de uma trajetória, mas pode representar justamente o início de uma nova fase.
“Principalmente uma mulher 50 mais, uma mulher depois dos 50, as pessoas começam a dizer assim: ‘É só ladeira abaixo’. Já ouviram esse dito? E aí você chegou, você chegou bem preconceituosa, só ladeira abaixo. Chegou, você chegou num ponto muito interessante que nos faz também refletir essa questão, porque a escrita, não só a escrita, mas qualquer coisa que uma mulher decide fazer, que seja para o bem dela e para a saúde dela, não importa a idade.”
Próximo livro será um romance
Apesar do sucesso dos livros infantis, Virgínia não abandonou o projeto que iniciou antes de Bichos Molhados. O romance, que já tinha cerca de 120 páginas quando foi interrompido, continua nos planos da escritora.
A história de Carminha e Zé do Sol é ambientada na década de 1960 e, segundo Virgínia, é baseada em fatos reais. A previsão é que o romance seja publicado em 2027.
Enquanto isso, a escritora segue utilizando a literatura infantil como uma ferramenta para falar sobre aquilo que considera urgente: o cuidado com os animais e a construção de uma sociedade mais empática.
No fim, a história de Bob, o gato que chegou molhado e interrompeu um romance, acabou dando origem a algo maior. A partir de duas obras voltadas ao público infantil, Virgínia Rocha encontrou uma maneira de ensinar que cuidar de outro ser exige responsabilidade — e que aprender a respeitar pode começar ainda nas primeiras páginas de um livro.