A filosofia pode ser utilizada para questionar estruturas de poder e compreender por que determinados grupos permanecem historicamente invisibilizados. É a partir dessa perspectiva que a professora e pós-doutoranda em Filosofia Elivanda de Oliveira Silva desenvolve estudos sobre as chamadas filosofias dissidentes, tema discutido durante o podcast Mulher Mais, do Portal Piauí Hoje.
Segundo a pesquisadora, as filosofias dissidentes são formas de pensamento que não aceitam a realidade simplesmente como ela está estabelecida. Elas questionam normas e estruturas consideradas hegemônicas e partem, muitas vezes, das experiências de grupos que tiveram suas histórias, culturas e formas de pensar colocadas à margem.
“Quando nós falamos em filosofias dissidentes, são modos de pensar que não aceitam a realidade tal qual ela é, ela está posta.”
Nesse campo estão, por exemplo, filosofias feministas, antirracistas e anticapacitistas. A proposta é incorporar ao debate filosófico sujeitos historicamente excluídos, como mulheres, pessoas negras, pessoas com deficiência e povos indígenas.
Para Elivanda, esse olhar permite analisar as relações de poder não apenas a partir das estruturas dominantes, mas também a partir da crítica produzida por quem vivencia processos de exclusão.
Lélia Gonzalez e a crítica à invisibilidade
Entre as pensadoras que passaram a fazer parte das pesquisas da professora está Lélia Gonzalez. A autora brasileira é apontada por Elivanda como fundamental para compreender a formação social e política do Brasil, especialmente questões relacionadas ao racismo, sexismo e às relações entre raça, gênero e classe.
A pesquisadora destaca que Lélia Gonzalez ainda não ocupa o mesmo espaço nos currículos tradicionais de Filosofia que conquistou em áreas como Ciências Sociais e Educação.
Elivanda também chama atenção para a contribuição da autora para discussões relacionadas à interseccionalidade. Segundo ela, pensadoras estrangeiras como Patricia Hill Collins e Angela Davis fazem referências ao trabalho de Lélia Gonzalez, enquanto a produção da brasileira ainda enfrenta resistência para ser incorporada de forma mais ampla ao campo filosófico.
A própria trajetória acadêmica da professora também foi marcada pela busca por autoras que tiveram suas contribuições pouco reconhecidas. Durante sua formação, ela se dedicou ao pensamento de Hannah Arendt e, posteriormente, ampliou suas pesquisas para outras perspectivas filosóficas.
Filosofia, democracia e participação política
Os estudos sobre filosofias dissidentes também se relacionam com outra área de pesquisa de Elivanda: a democracia e o espaço público.
A partir do pensamento de Hannah Arendt, a professora defende que a política não deve ser compreendida apenas como o período eleitoral ou como atuação partidária. Para ela, a política também está relacionada à participação dos cidadãos na vida pública e à convivência entre diferentes grupos da sociedade.
“A política é o espaço do convívio do diferente”, afirmou, citando a reflexão de Arendt sobre a pluralidade como condição da vida política.
Nesse sentido, a democracia precisa considerar a participação de diferentes segmentos sociais. A pesquisadora questiona modelos políticos que, em sua avaliação, priorizam interesses econômicos em detrimento da participação popular e da garantia de direitos.
Avanço da extrema direita
Durante a entrevista, Elivanda também analisou o crescimento de movimentos identificados por ela como de extrema direita em diferentes países. A professora relacionou esse fenômeno ao afastamento da população da participação política e à fragilização dos espaços de debate público.
Para ela, quando a política passa a ser compreendida principalmente como uma esfera de gestão econômica, diminui-se a percepção de que os cidadãos também são agentes capazes de participar da construção da vida pública.
A pesquisadora afirmou ainda que grupos de extrema direita podem apresentar críticas às instituições e ao sistema político enquanto participam das próprias estruturas convencionais de poder.
Nesse cenário, as filosofias dissidentes, segundo Elivanda, podem contribuir para uma análise crítica das estruturas políticas e sociais.
“Essa crítica exige uma reflexão profunda das estruturas do poder e dos seus atores”, destacou.
Da dificuldade de acesso à universidade à pesquisa
A relação da professora com a educação pública também ajuda a compreender a trajetória que a levou à pesquisa acadêmica.
Nascida no Ceará e integrante de uma família da classe trabalhadora, Elivanda contou que estudou em escolas públicas e precisou prestar vestibular sete vezes até conseguir ingressar na universidade, nos anos 2000.
Depois de conquistar uma vaga, o desafio passou a ser permanecer na instituição. Trabalhadora, ela conciliava o emprego com os estudos e relatou ter enfrentado dificuldades financeiras, inclusive para pagar o transporte até a universidade.
A situação mudou quando passou a morar em uma residência universitária da Universidade Federal do Ceará (UFC). Com acesso à moradia e a bolsas, pôde participar de atividades acadêmicas, estudar idiomas e se dedicar à pesquisa.
Anos depois, em 2015, Elivanda se mudou para o Piauí após o marido, o professor Fábio Abreu, ser aprovado em concurso para a Universidade Federal do Piauí (UFPI). Desde então, construiu sua trajetória acadêmica no estado.
Hoje, a professora e pós-doutora em Filosofia mantém pesquisas voltadas à democracia, ao espaço público e às correntes de pensamento que questionam estruturas de exclusão.
Para Elivanda, a filosofia tem justamente a função de estimular esse exercício de reflexão.
“A filosofia é importante porque ela é exercício do pensamento. Ela a todo momento nos convida a pensar os problemas que nos circundam.”
A pesquisadora defende que o estudo das Humanidades, incluindo Filosofia, é fundamental para que as pessoas compreendam o contexto em que vivem, reflitam sobre os acontecimentos ao seu redor e participem do debate público.
Assista ao podcast completo: