Enquanto o Brasil enfrenta uma epidemia de obesidade, com índices que mais que dobraram nas últimas duas décadas, o Piauí se destaca no cenário nacional por figurar entre os estados com menor prevalência da doença. Quem explica os dados é o endocrinologista André Gonçalves, que analisou os números do Vigitel, principal estudo epidemiológico organizado pelo Ministério da Saúde em parceria com o IBGE. Segundo o médico, a taxa de obesidade no estado gira em torno de 20%, consideravelmente abaixo da média nacional, que já alcança 24% a 25% da população adulta. Quando se considera o sobrepeso associado à obesidade, o Brasil supera a marca de 60% da população, conforme revelou a mais recente edição da pesquisa, divulgada em janeiro deste ano.
O endocrinologista ressalta que o Piauí tem alguns motivos para ocupar essa posição, mas faz questão de contextualizar o cenário regional. "Uma coisa que vale a pena observar é que, dentre os estados que têm a menor prevalência de obesidade, encontram-se outros estados do Nordeste também. Por exemplo, o estado do Maranhão tem uma taxa menor ainda, de 18%. O estado de Alagoas tem dados parecidos com os do Piauí", compara André Gonçalves, sugerindo que isso pode ter correlação com fatores socioeconômicos.
Mais de 60% da população brasileira tem sobrepeso associado à obedidade.
O médico recorre aos dados do Vigitel para embasar sua análise. "Os dados também sugerem que a obesidade é uma doença mais prevalente em classe de renda intermediária e alta, onde há um acesso maior a alimentos calóricos, ultraprocessados", afirma. "No Piauí a gente ainda tem uma renda familiar muito baixa, tem mais desigualdade social, então o acesso a esse tipo de produto industrializado é menor, o que acaba, por outro lado, reduzindo esse risco de obesidade."
Outro fator apontado pelo especialista é o perfil populacional do estado. "O estado ainda é majoritariamente rural, pelo menos 50% da população ainda fica fora das áreas urbanas principais, então a economia ainda é baseada em agricultura, trabalho manual. Isso gera um gasto energético maior, o que também mitiga um pouco os efeitos da obesidade. A prevalência de sedentarismo acaba sendo menor de forma forçada, vamos dizer assim", observa.
A combinação de trabalho manual e consumo de alimentos saudáveis pode explicar menor taxa de obesidade no Piauí
A dieta tradicional piauiense também merece destaque na avaliação do endocrinologista. "Outra coisa que acontece no Piauí é a nossa dieta tradicional, que inclui muitos alimentos menos calóricos, como, por exemplo, macaxeira, feijão, carboidratos mais simples, em detrimento de alimentos com conteúdo calórico maior. Isso pode estar mitigando também um pouco esse ganho de peso da nossa população aqui", explica André Gonçalves. Um estudo do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP reforça essa tese. O levantamento mostrar que o consumo de ultraprocessados é menor justamente em municípios com menor poder aquisitivo: enquanto em Florianópolis o índice chega a 30,5%, em Aroeiras do Itaim, no Piauí, não passa de 5,7%.
Alerta importante
Mesmo com os dados positivos, o médico faz um alerta importante. Ele prevê que, à medida que a renda da população melhora, o acesso a alimentos industrializados tende a ser cada vez maior e há risco de que o Estado registre, nos próximos anos, um aumento da obesidade. "A prevalência da obesidade no Piauí também aumentou, seguindo a tendência natural do país como um todo. À medida que a expectativa de vida da população começa a aumentar, a obesidade, por ser uma doença também com prevalência maior em adultos e em pacientes mais velhos".
População precisa ser orientada sobre hábitos saudáveis para que evitar aumento da obesidade
Diante desse cenário, o endocrinologista defende medidas preventivas urgentes. "A população precisa ser orientada quanto a hábitos saudáveis para que essa prevalência de obesidade não aumente naturalmente", orienta. "O fato da população começar a ter mais acesso a esse tipo de alimento não significa que ela deva priorizá-lo. Então,como isso é uma tendência natural da população, o acesso cada vez maior a esse tipo de alimentação, campanhas educativas são importantes para que as pessoas entendam os riscos inerentes a esse tipo de consumo"
O médico sugere ainda ações práticas na rede pública de saúde. "Outra coisa é o estímulo de atividade física regular, de manutenção do peso através de campanhas, principalmente nas unidades básicas de saúde, orientando a população sobre estratégias de prevenção de doenças associadas. Isso tudo pode ajudar nessa redução da prevalência de obesidade", recomenda.
André Gonçalves defende aumento de impostos para alimentos ultrapocessados
André Gonçalves aponta também uma alternativa que poderia ser adotada em termos de política pública. "Uma estratégia interessante é o aumento de impostos direcionados para alimentos mais calóricos", propõe. "Por exemplo, impostos aumentados para alimentos ricos em açúcares, em gorduras saturadas, ultraprocessados, que gerariam um aumento do custo para esse tipo de alimento, podendo desestimular esse consumo. É o que acontece, por exemplo, com o consumo de cigarro, de bebida alcoólica, que tem uma carga tributária mais alta para se desencorajar o consumo desse tipo de alimento."
Mais conteúdo sobre:
#epidemia #obesidade #estudo epidemiológico #Ministério da Saúde #IBGE #endocrinologista #André Gonçalves #Piauí