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PF investiga sumiço de R$ 130 milhões em fundo ligado à revitalização do Cais Mauá

Recursos de fundos de previdência foram aplicados no FIP Cais Mauá, mas o projeto não avançou; investigação envolve Banco Master, CVM e Banco Central

Da Redação

Domingo - 18/01/2026 às 14:26



Foto: Divulgação Reag Investimentos
Reag Investimentos

Investigadores federais apuram o desaparecimento de cerca de R$ 130 milhões do Fundo de Investimento em Participações (FIP) Cais Mauá, aporte feito por fundos de previdência de servidores públicos no projeto de revitalização do histórico complexo portuário gaúcho. A maior parte dos recursos não chegou a ser aplicada em obras e foi consumida em despesas operacionais e operações financeiras sem resultados visíveis.

O fundo foi criado para financiar parte das obras de revitalização do Cais Mauá, em Porto Alegre, e previa investimentos de cerca de R$ 350 milhões na construção de torres e espaços comerciais às margens do Guaíba. No entanto, o projeto nunca saiu do papel.

Segundo apuração, dos R$ 130 milhões aportados, cerca de R$ 40 milhões foram consumidos em “despesas operacionais”, mesmo sem o início de obras no cais.

Investigação e prisão

Em janeiro de 2026, a Polícia Federal prendeu João Carlos Mansur, fundador da REAG Investimentos (empresa responsável pela gestão do fundo e ligada ao Banco Master). As autoridades consideram que recursos captados para o FIP Cais Mauá foram usados de forma irregular enquanto a gestora estava à frente do fundo.

A investigação faz parte de um conjunto de operações que apuram irregularidades no mercado financeiro envolvendo o Banco Master, a REAG e outras entidades financeiras. Fontes oficiais apontam que a Polícia Federal investigou diversas pessoas e empresas ligadas a esses esquemas em uma operação que atingiu pelo menos 101 alvos, entre pessoas físicas e jurídicas, com quebras de sigilo bancário e fiscal autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal.

Investigações tiveram origem em operação da PF iniciada em 2018

As apurações sobre o fundo ligado ao projeto do Cais Mauá dialogam com investigações mais amplas da Polícia Federal, iniciadas ainda em 2018, no âmbito da Operação Gatekeepers. A operação investigou irregularidades na aplicação de recursos de fundos de previdência de servidores públicos (RPPS) em diversos estados do país, com suspeitas de gestão temerária e desvios de recursos.

Segundo a Polícia Federal, a Gatekeepers revelou um padrão de investimentos de alto risco, com prejuízos que, ao longo dos anos, somaram centenas de milhões de reais a regimes próprios de previdência. Parte dessas apurações deu origem a novos inquéritos e operações posteriores, que passaram a analisar fundos específicos, entre eles o FIP Cais Mauá, administrado pela REAG Investimentos.

As investigações seguem em curso em diferentes frentes, envolvendo a atuação de gestoras, intermediários financeiros e administradores de fundos, sob acompanhamento de órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Banco Central.

Burocracia, confusão documental e prejuízo

Os investidores do fundo — que incluíam fundos de previdência como o IPE do Rio Grande do Sul — relataram dificuldades para resgatar os valores aplicados, enfrentando burocracia e documentação considerada confusa ou inconsistente.

Com a investigação em andamento, o fundo foi oficialmente encerrado com patrimônio líquido zerado, e os investidores tiveram de arcar com a perda total dos recursos aplicados.

Absolvição pela CVM e medidas do Banco Central

Em dezembro de 2025, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) decidiu absolver dez acusados no caso do FIP Cais Mauá, alegando ausência de dolo na administração do fundo e classificando o episódio como “insucesso empresarial agravado pela rescisão do contrato estadual”.

Apesar disso, no início de 15 de janeiro de 2026 o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da REAG — que passou a se chamar CBSF — e de sua corretora, bloqueando bens de controladores e ex-administradores. A medida foi tomada em meio às apurações sobre fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master e indicações de “sérias violações” das normas do sistema financeiro nacional.

O caso fez surgir outras investigações ligadas ao banco e aos fundos administrados por Mansur, com indícios de uso de estratégias financeiras complexas e operações de alto risco para inflar patrimônio de instituições e fundos.

Para o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o esquema investigado pode representar a “maior fraude bancária” já registrada no país, com prejuízos estimados em R$ 12,2 bilhões. Segundo Haddad, o valor inclui operações irregulares e tentativas frustradas de venda de carteiras ao Banco de Brasília (BRB).

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