O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, nesta quarta-feira (28), a neutralidade do Canal do Panamá e criticou a interferência de potências estrangeiras na América Latina. O discurso foi feito durante a abertura do Fórum Econômico América Latina–Caribe, realizado na capital panamenha, e incluiu um recado indireto ao ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com quem Lula tem encontro previsto para março.
Logo no início da fala, Lula afirmou que a região enfrenta um dos períodos mais delicados em termos de cooperação regional. Segundo ele, a América Latina voltou a se fragmentar por permitir que disputas ideológicas externas influenciem as relações entre os países.
Para o presidente, o avanço do extremismo político e a disseminação de informações manipuladas prejudicam o diálogo entre as nações. Lula também criticou a ineficácia de encontros multilaterais recentes e a ausência de líderes regionais em cúpulas importantes, o que, segundo ele, contribuiu para a paralisação da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), apesar dos esforços do presidente colombiano, Gustavo Petro.
As ameaças do extremismo político e da manipulação da informação se incorporam ao nosso cotidiano. Passamos de reunião em reunião, repletas de ideias e iniciativas que nunca saem do papel. Nossas Cúpulas se tornaram rituais vazios, dos quais se ausentam os principais líderes regionais. Como resultado, a única organização que engloba a totalidade dos países da América Latina e Caribe, a CELAC, está paralisada, apesar dos esforços do nosso querido presidente [da Colômbia, Gustavo] Petro.
Durante o discurso, Lula destacou que o cenário global tem sido marcado pelo enfraquecimento da ordem liberal, pelo retorno do protecionismo e por práticas unilaterais que dificultam a integração regional. Sem citar nomes diretamente, o presidente fez referência à postura histórica dos Estados Unidos em relação à América Latina, frequentemente tratada como área de influência exclusiva de Washington.
O chefe do Executivo brasileiro afirmou que a União Europeia pode servir de inspiração para a integração regional, embora tenha ressaltado as diferenças históricas, culturais e econômicas entre os blocos. Ele também alertou para o impacto da proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo, sobretudo diante do ressurgimento de tendências hegemônicas.
Lula criticou ainda a retomada da Doutrina Monroe, formulada no século XIX, que estabelecia a América Latina como zona de influência dos Estados Unidos, e condenou qualquer tentativa de interferência no Canal do Panamá.
“O Brasil defende a neutralidade do Canal do Panamá, que vem sendo administrado de forma eficiente, segura e sem discriminação há quase 30 anos”, afirmou o presidente, reforçando que a integração regional depende de mais investimentos e cooperação entre os países.
Ao encerrar o discurso, Lula citou o ex-presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt e a política de boa vizinhança, baseada na diplomacia em vez da intervenção militar. Ele também lembrou as chamadas quatro liberdades fundamentais defendidas por Roosevelt: liberdade de expressão, liberdade religiosa, liberdade contra a miséria e liberdade contra o medo.
Para Lula, esses princípios seguem atuais e devem orientar a atuação internacional do continente. “Na América Latina, a única guerra que precisamos travar é contra a fome e a desigualdade”, concluiu.