Política

CRIME ELEITORAL

Denúncias de boca de urna pipocam no Piauí; valores para “boqueiros” chegam a R$ 400

Justiça Eleitoral e Polícia Federal montam esquema especial para coibir compra de votos e arregimentação de eleitores; só nos últimos dias, mais de R$ 1,6 milhão em espécie foi apreendido no interior do estado

Por Luiz Brandão

03 de outubro de 2026 às 06:31

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  • Denúncias de compra de votos e boca de urna surgem no Piauí antes das eleições.
  • Comitês de candidatos possuiriam listas de pessoas recrutadas para boca de urna, com pagamentos entre R$ 200 e R$ 400.
  • Ministério Público Eleitoral, Justiça Eleitoral e Polícia Federal organizam força-tarefa para combater práticas criminosas eleitorais.
  • Prisões foram efetuadas e mais de R$ 1,6 milhão apreendidos no interior do estado, relacionados a compra de votos e boca de urna.
  • O TRE-PI e o Ministério Público Eleitoral receberam mais de 130 denúncias de irregularidades eleitorais.
  • Denúncias incluem abuso de poder, uso de recursos públicos e condutas vedadas.
  • Justiça Eleitoral estabelece comitê de segurança para as eleições, reunindo diversas forças policiais e a Inteligência.
  • Lei prevê detenção e multas para crimes de boca de urna e compra de votos.
  • Eleitores votarão neste domingo para eleger cargos legislativos e executivos.

Reprodução Urna eletrônica é segura. Os crimes ocorrem fora dela
Urna eletrônica é segura. Os crimes ocorrem fora dela



Às vésperas do primeiro turno das eleições deste domingo (4), denúncias de boca de urna e compra de votos estão “pipocando” nas redações dos veículos de comunicação do Piauí. A informação que circula nos bastidores é preocupante: comitês de candidatos estariam abarrotados de listas com nomes de pessoas arregimentadas exclusivamente para “fazer boca de urna” no dia da votação.

Os valores pagos a cada “boqueiro” estariam variando entre R$ 200 e R$ 400, segundo relatos que chegam às redações. A prática, considerada crime contra a democracia, é uma das mais comuns em períodos eleitorais e tem mobilizado uma força-tarefa especial do Ministério Público Eleitoral, da Justiça Eleitoral e da Polícia Federal.

Quem for flagrado fazendo boca de urna ou patrocinando a prática pode ser preso e levado à Polícia Federal sem direito a fiança. Já a compra de votos pode levar à cassação do candidato que for flagrado praticando o crime.

Apreensões milionárias no interior

O cenário no Piauí acendeu o alerta das autoridades. Somente nos últimos dias, as forças de segurança realizaram prisões e apreenderam mais de R$ 1,6 milhão em espécie em cidades do interior do estado. O dinheiro, segundo apurações preliminares, seria utilizado para compra de votos e para financiar a boca de urna no domingo.

Na quinta-feira (1º), a Polícia Federal apreendeu R$ 750 mil em espécie nas proximidades de uma agência bancária em Picos. Três homens que estavam com o dinheiro foram presos em flagrante. Somado aos R$ 897 mil apreendidos nas 24 horas anteriores em Floriano e José de Freitas, o total chega a R$ 1,6 milhão .

O presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI), desembargador José Wilson Ferreira de Araújo Júnior, comentou as apreensões. “Apreensão de valores em véspera de eleição não é novidade. A gente sabe que em eleições pretéritas isso já aconteceu também. De tal forma que vai se investigar qual é a origem desse valor, qual era a sua destinação, e tudo será apurado devidamente pela Justiça Eleitoral”, afirmou.

Mais de 130 denúncias já chegaram ao MP

O procurador Regional Eleitoral no Piauí, Kelston Pinheiro Lages, revelou que o Ministério Público Eleitoral já recebeu mais de 130 denúncias envolvendo suspeitas de irregularidades durante o processo eleitoral.

Entre as denúncias estão suspeitas de abuso de poder político e econômico, uso da máquina pública, condutas vedadas e utilização de recursos públicos para financiamento de portais, sites e pesquisas eleitorais. Há também relatos de programas sociais utilizados para beneficiar candidaturas.

“É nesse sentido que recomendamos aos partidos políticos, aos candidatos, que fiquem atentos àquelas restrições que são impostas pela lei eleitoral. E aí vão proibições desde restrições à propaganda no rádio, na TV, na internet, boca de urna, aliciamento de eleitores”, declarou o procurador .

Esquema especial de fiscalização

Para coibir os crimes eleitorais no domingo, a Justiça Eleitoral montou um esquema especial de segurança. O TRE-PI instituiu o Comitê de Segurança das Eleições Gerais de 2026, que reúne Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícias Civil e Militar, Ministério Público Eleitoral e Agência Brasileira de Inteligência.

O comitê tem como objetivo coordenar as ações de segurança, gerenciar riscos ao processo eleitoral e monitorar candidaturas com possível vinculação a organizações criminosas .

O desembargador José Wilson também fez um apelo aos eleitores piauienses. “A gente sabe que nesta reta final vem a cooptação dos votos, vem o aliciamento. Vamos decidir quem serão nossos representantes pelos próximos quatro anos, então que a população tenha essa consciência”, disse.

Aos candidatos e partidos, o presidente do TRE-PI foi direto: “Muitos candidatos entram em desespero e começam a exagerar na tentativa de convencer o eleitor. Isso caracteriza os abusos de poder político, econômico, captação ilícita de sufrágio. E isso tem uma repercussão pós-eleição, porque depois a gente vê muitos candidatos perdendo o mandato, inclusive porque não observaram a legislação eleitoral” .

O que diz a lei

A boca de urna é considerada crime eleitoral e está proibida no dia da votação. A Lei nº 9.504/1997 estabelece detenção de seis meses a um ano, com possibilidade de substituição por prestação de serviços à comunidade, além de multa que varia de R$ 5.320,50 a R$ 15.961,50.

Já a compra de votos, prevista no artigo 299 do Código Eleitoral, pode resultar em reclusão de até quatro anos, além de multa. A captação ilícita de sufrágio também pode levar à cassação do registro ou do diploma do candidato beneficiado.

Eleições 

Os brasileiros vão às urnas neste domingo (04/10) para eleger deputados federais e estaduais, senadores, governadores e o presidente da República. As seções eleitorais abrem às 8h e fecham às 17h, horário de Brasília.

Fonte: TRE/MPE