Política

POR QUE SERÁ?

Com o avanço dos direitos femininos, mulheres votam mais na esquerda e homens na direita

Pesquisa indica aumento da polarização de gênero no voto e aponta diferenças nas percepções políticas entre homens e mulheres

Da Redação

Quinta - 12/03/2026 às 12:55



Foto: Adriano Machado/REUTERS A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e a primeira-dama, Janja.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e a primeira-dama, Janja.

O avanço das pautas de igualdade de gênero e a maior participação feminina na vida pública estão redesenhando o comportamento político no Brasil e no mundo. Pesquisas recentes indicam que mulheres, especialmente as mais jovens, tendem a adotar posições mais progressistas, enquanto homens se aproximam mais de pautas conservadoras.

Levantamento divulgado pela Fundação Friedrich Ebert Stiftung (FES Brasil) mostra que mulheres jovens brasileiras apresentam posicionamentos políticos mais progressistas do que os homens da mesma faixa etária. O estudo entrevistou 2.024 pessoas entre 15 e 35 anos, por meio de painéis online, e identificou diferenças significativas nas prioridades políticas entre os gêneros.

Entre as mulheres ouvidas, 65% apontaram como prioridade políticas públicas nas áreas de saúde, educação e combate à pobreza, temas associados a agendas sociais e de ampliação de direitos. 

Embora os jovens entrevistados compartilhem preocupações semelhantes sobre desigualdade e condições de vida no país, as mulheres demonstraram maior inclinação a pautas relacionadas a direitos sociais e proteção do Estado.

Diferenças aparecem na posição política

Os dados da pesquisa mostram que a juventude brasileira não se identifica majoritariamente com posições ideológicas rígidas. Entre os entrevistados, 44% afirmaram se posicionar politicamente ao centro, enquanto 38% se identificaram com a direita e 18% com a esquerda.

Ainda assim, as mulheres aparecem mais próximas do campo progressista: 20% delas se posicionam à esquerda, quatro pontos percentuais acima dos homens, que registraram 16% nessa mesma posição.

Segundo o diretor de projetos da FES Brasil, Willian Habermann, a diferença entre homens e mulheres não ocorre apenas no Brasil. Pesquisas em outros países da América Latina e da Europa também indicam que jovens do sexo masculino demonstram maior inclinação a posições conservadoras.

A gente observa isto na grande maioria dos 14 países em que fez a pesquisa. No caso do Brasil, isso aparece em relação ao posicionamento sobre o aborto, ao posicionamento político e, também, em relação aos problemas sociopolíticos do Brasil. As moças tendem a colocar problemas relativos à pobreza, de acesso a direitos e a emprego com mais força que os rapazes.

Fenômeno ocorre em vários países

Para o cientista político Felipe Nunes, sócio-fundador do instituto de pesquisas Quaest, essa divisão política entre homens e mulheres é observada em diversas democracias.

Em análise divulgada pela BBC, Nunes afirma que os dados mostram uma tendência crescente de mulheres se aproximarem de pautas progressistas, enquanto homens caminham para posições mais conservadoras. Segundo ele, o fenômeno está ligado às transformações sociais das últimas décadas.

O Brasil das brasileiras é bem mais progressista. Isso vem acontecendo há algum tempo. De lá para cá, ficou cada vez mais evidente a diferença no voto de homens e de mulheres. Os homens, cada vez mais votando à direita. As mulheres, cada vez mais votando à esquerda. As mulheres hoje são o grande motor das transformações de valores no Brasil. São elas que sofrem, em alguma medida, com a discriminação, o machismo, o preconceito. Ao que parece, quanto mais protagonismo elas ganham, mais força elas têm no processo político, mais os homens se ressentem e acabam puxando um grau de conservadorismo maior.

Essa diferença não significa necessariamente que homens e mulheres defendam projetos políticos opostos em todos os temas, mas revela mudanças na forma como cada grupo percebe questões como igualdade, direitos sociais e papel do Estado.

Juventude entre valores progressistas e desconfiança política

Apesar das diferenças ideológicas, a pesquisa também mostra convergências entre jovens brasileiros. A maioria dos entrevistados demonstra apoio a valores ligados a direitos e diversidade:

  • 66% apoiam a liberdade de orientação sexual e identidade de gênero

  • 58% aceitam o casamento entre pessoas do mesmo sexo

  • 59% defendem acesso a cuidados de saúde para pessoas trans

  • 86% defendem a prioridade de oferta de educação e saúde pelo Estado;

  • 85% destacam a proteção ao meio ambiente;
  • 75% defendem o direito da autonomia dos povos indígenas e as comunidades étnicas sobre seus territórios;
  • 71% defendem a questão da regulamentação das plataformas digitais; 
  • 60% acreditam que deve haver um imposto adicional para os ricos, a fim de redistribuir a riqueza.

Ao mesmo tempo, o levantamento aponta um cenário de desconfiança em relação às instituições políticas. 

A maioria da juventude brasileira (66%) considera a democracia a melhor forma de governo. Ainda assim, 49% acreditam que uma democracia poderia funcionar sem partidos políticos, o que revela tensões entre valores democráticos e tendências mais autoritárias.

A pesquisa também aponta que 58% dos entrevistados afirmam preferir um líder forte, capaz de resolver problemas com mais eficiência do que partidos ou instituições. Por outro lado, apenas 29% disseram preferir abertamente um governo autoritário.

Mudanças sociais ajudam a explicar o fenômeno

Nas últimas décadas, o aumento da escolaridade feminina, a maior participação no mercado de trabalho e o fortalecimento de movimentos por igualdade de gênero ampliaram a presença das mulheres em debates sobre direitos e políticas públicas.

Esse protagonismo, segundo analistas, tende a aproximar parte do eleitorado feminino de agendas associadas à ampliação de direitos sociais e civis — pautas historicamente defendidas por partidos progressistas.

Ao mesmo tempo, a reação conservadora de setores da sociedade também influencia o comportamento político de parte dos homens, contribuindo para a diferença crescente entre os dois grupos no cenário eleitoral.

Fonte: Agência Brasil e BBC News Brasil

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