NEGÓCIO IMOBILIÁRIO
Da Redação
13 de agosto de 2026 às 13:50 ▪ Atualizado há 58 minutos
O senador piauiense Ciro Nogueira (PP) comprou com dinheiro vivo, em sociedade com o empresário Carlos Santana e o político José Trabulo Júnior, a posse de um terreno de mais de 800 metros quadrados em Barra Grande, no município de Cajueiro da Praia, no litoral do Piauí. Segundo escritura pública obtida pelo ICL Notícias, o negócio foi concretizado em 25 de janeiro de 2021 e o pagamento foi registrado como feito em “moeda corrente e legal do país”, expressão utilizada no documento para indicar pagamento em dinheiro vivo.

O negócio imobiliário ganhou destaque em uma investigação publicada pelo ICL Notícias sobre a relação entre Ciro Nogueira e Carlos Santana, empresário fundador da Tecnobank. Segundo a reportagem, os dois mantêm uma relação de amizade e também realizaram outros negócios em conjunto ou por meio de empresas ligadas a eles.
A compra do terreno ocorreu cerca de dois anos antes de Ciro Nogueira apresentar, em 3 de fevereiro de 2023, uma emenda à Medida Provisória nº 1.153/2022 que alterou regras relacionadas ao registro de contratos e gravames de veículos. A investigação do ICL Notícias aponta que a mudança legislativa beneficiou empresas registradoras, entre elas a Tecnobank, que tinha Carlos Santana como controlador à época.
A aquisição do imóvel ocorreu em 2021 e a apresentação da emenda aconteceu em 2023.
Compra do terreno em Barra Grande
A propriedade está localizada em uma das áreas turísticas mais valorizadas do litoral piauiense. Barra Grande, em Cajueiro da Praia, é conhecida pelas praias e pela prática de kitesurf e fica a aproximadamente 400 quilômetros de Teresina.
De acordo com a escritura citada pelo ICL Notícias, Ciro Nogueira adquiriu o imóvel em sociedade com Carlos Santana e José Trabulo Júnior, que já havia trabalhado como assessor parlamentar do senador no Senado.

Na época da compra, Trabulo ocupava, por indicação de Ciro Nogueira, um cargo de diretoria na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), segundo a reportagem. Posteriormente, durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva, ele também ocupou cargo na Caixa Econômica Federal.
O documento imobiliário registra que o pagamento pela área foi recebido pela vendedora em “moeda corrente e legal do país”. A expressão é o principal ponto destacado pela investigação sobre a forma de pagamento do imóvel.
A posse do terreno posteriormente se tornou objeto de disputa judicial. O Governo do Piauí alegou ter um acordo com a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) para utilizar uma área de mais de 9 mil metros quadrados na orla de Barra Grande em um projeto de urbanização. Segundo a administração estadual, o imóvel adquirido pelo grupo estaria dentro dessa área.

O caso gerou processos na Justiça do Piauí. Conforme a reportagem do ICL Notícias, decisões judiciais reconheceram, até então, o direito de Ciro Nogueira e Carlos Santana de manter a posse do imóvel, embora a disputa não tenha tido desfecho definitivo.
Dois anos depois, Ciro apresentou emenda que beneficiou empresa de Santana
Em 3 de fevereiro de 2023, primeiro dia de trabalho dos congressistas na nova legislatura, Ciro Nogueira apresentou uma emenda à MP 1.153/2022, medida provisória editada no fim do governo Jair Bolsonaro.

A MP tratava de diferentes assuntos, entre eles regras relacionadas ao Código de Trânsito Brasileiro, à exigência de exame toxicológico para motoristas e ao seguro de cargas.
Segundo o ICL Notícias, Ciro incluiu no texto uma alteração que tornou exclusividade das empresas registradoras a prerrogativa de realizar determinados registros de gravames de veículos. A Tecnobank, empresa que tinha Carlos Santana como proprietário, atuava justamente nesse mercado.
A investigação classificou a inclusão como um “jabuti”, termo usado no Congresso para designar a inserção, em uma proposta legislativa, de matéria sem relação direta com o tema original.
A emenda apresentada por Ciro foi aprovada durante a tramitação da medida provisória e posteriormente incorporada à legislação.
Documentos analisados pelo ICL Notícias também apontaram que uma emenda de conteúdo idêntico foi apresentada na Câmara dos Deputados pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). Segundo a reportagem, os arquivos das duas propostas apresentavam semelhanças, inclusive na justificativa.
Relação entre Ciro Nogueira e Carlos Santana
A relação entre o senador e o empresário não se limita à compra do terreno em Barra Grande.
Em maio de 2023, semanas após a apresentação da emenda, Ciro Nogueira participou com Carlos Santana do LIDE Brazil Investment Forum, em Nova York. Durante o evento, o senador chamou Santana de “meu amigo” ao mencionar uma conversa que havia tido com o empresário.
Além do imóvel no litoral piauiense, outra transação citada pela investigação ocorreu em São Paulo. Em abril de 2025, uma empresa ligada à família de Ciro Nogueira vendeu por R$ 6,5 milhões um apartamento no Jardim Paulista para a Aliqum Participações, empresa administrada por Carlos Santana e familiares, conforme documentos mencionados na reportagem.
O empresário também aparece relacionado a uma empresa proprietária de aeronave utilizada pelo Partido Progressistas. Segundo dados de prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) citados pelo ICL Notícias, o partido pagou mais de R$ 355 mil, entre 2024 e 2025, à empresa Cavok Participações, ligada a Santana.
Empresário confirma amizade e nega influência na legislação
Procurado pelo ICL Notícias, Carlos Santana confirmou a relação de amizade e a realização de negócios com Ciro Nogueira, mas negou ter utilizado a proximidade com o senador para interferir na legislação.
“Mantenho uma relação de amizade com o senador Ciro Nogueira há quase uma década e também já realizei negócios com ele. Todas essas operações foram lícitas, transparentes, formalizadas por meio do sistema bancário e devidamente declaradas aos órgãos competentes, inclusive à Receita Federal”, afirmou.
Santana também declarou que, durante sua gestão na Tecnobank, não se aproveitou de amizades para interferir no ambiente regulatório e que conduziu a empresa de forma republicana.
A Tecnobank, por sua vez, negou que a alteração legislativa tenha proporcionado benefício comercial à companhia. Em nota, afirmou que sua participação no mercado nacional caiu de 29,5%, em 2023, para 27,3%, ao final de 2025, e sustentou que a mudança teria ampliado a concorrência no setor.
A empresa também afirmou que mais de 40 companhias atuam atualmente no mercado e negou qualquer prática anticoncorrencial.
Ciro Nogueira não respondeu à investigação
O ICL Notícias informou que procurou Ciro Nogueira para responder aos questionamentos sobre a relação com Carlos Santana, os negócios imobiliários e a emenda apresentada à MP 1.153/2022, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem. O espaço foi mantido aberto para manifestação.
O caso reúne, portanto, negócios privados, uma sociedade imobiliária no litoral do Piauí e uma alteração legislativa relacionada ao setor em que atuava uma empresa de um dos sócios. A compra do terreno ocorreu em janeiro de 2021, com pagamento registrado em dinheiro na escritura, enquanto a emenda de Ciro Nogueira foi apresentada em fevereiro de 2023 e posteriormente incorporada à legislação.
A existência dessa sequência de fatos, por si só, não comprova que a compra do imóvel tenha relação causal com a apresentação da emenda. A conexão entre os episódios é uma das questões levantadas pela investigação jornalística do ICL Notícias a partir dos documentos e das relações empresariais identificadas.
Fonte: ICL notícias
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