O sargento Avelar dos Reis Mota, 54 anos, conhecido como sargento Mota, foi expulso dos quadros da Polícia Militar do Piauí após uma trajetória marcada por abuso de autoridade e uma condenação criminal que expôs a face oposta do discurso de "guerreiro" que ele sustentava nas redes sociais. A decisão, assinada pelo comandante-geral da PM, coronel Scheiwann Lopes, foi publicada no boletim interno da corporação na última segunda-feira (23) e agora aguarda sanção do governador Rafael Fonteles (PT).
Longe das câmeras que o consagraram com bordões truculentos e cenas de "lacração" em operações na periferia, Mota foi condenado a 4 anos, 2 meses e 12 dias de prisão em regime semiaberto por um crime que choca pela frieza e pelo abuso da função pública: o furto de um perfume Malbec durante o horário de serviço, utilizando uma viatura e uma chave falsa para invadir uma residência no bairro Areias, na zona Sul de Teresina.
O 'valente' das redes e a realidade na periferia
Durante anos, o sargento Mota construiu uma imagem de "durão" nas redes sociais, acumulando mais de 350 mil seguidores no Facebook e 249 mil no Instagram. Em vídeos que viralizavam, ele aparecia em abordagens policiais que mais pareciam cenas de um programa de auditório: com bordões de efeito, o policial humilhava moradores de comunidades carentes, exibia pessoas algemadas como troféus e demonstrava total desprezo pelos direitos humanos.
O sargento Mota construiu uma imagem de "durão" nas redes sociais
A truculência, no entanto, parecia ter endereço certo. A conduta violenta e debochada, amplamente documentada por ele mesmo em seus perfis, era reservada exclusivamente aos pobres e moradores da periferia. Não há registros ou relatos de que o sargento agisse com o mesmo ímpeto ou abuso de autoridade em bairros nobres da capital. "Só era valente nas favelas", resumiu um colega de corporação, sob condição de anonimato. A fama lhe rendeu uma tentativa frustrada de entrar para a política: em 2022, candidatou-se a deputado estadual pelo MDB, mas obteve apenas 1.493 votos.
A invasão e o furto
A fachada de "policial exemplar" começou a ruir em 15 de fevereiro de 2023. Naquele dia, Mota estava escalado para patrulhamento no bairro Promorar, mas ordenou que o cabo que dirigia a viatura se deslocasse até o bairro Areias. As imagens das câmeras de segurança, que se tornariam a principal prova contra ele, mostram o sargento fardado utilizando uma chave falsa para invadir uma casa em construção.
Dentro do imóvel, ele furtou um frasco do perfume Malbec. Ao sair, tentou inutilizar as câmeras de segurança. Sem sucesso em danificá-las, cortou os fios de energia da residência. A tentativa de apagar as provas não parou por aí. Dias depois, segundo a denúncia do Ministério Público, novos disparos foram efetuados contra o local onde ficavam as câmeras. Em julho daquele mesmo ano, um policial encapuzado retornou ao local e destruiu o equipamento com um tiro.
O juiz Raimundo José de Macau Furtado, da Vara da Justiça Militar de Teresina, destacou na sentença a "tentativa reiterada de destruir as câmeras de segurança", o que, segundo ele, "evidencia o dolo específico do acusado: ocultar a prática delitiva e impedir a identificação do autor" .
A condenação foi agravada pelo fato de o crime ter sido cometido durante o serviço, caracterizando abuso de poder e violação do dever funcional. A pena foi majorada também pelos antecedentes criminais de Mota, que já havia sido condenado em 2020 por criticar um superior em um áudio de WhatsApp.
A expulsão e a reação da defesa
A expulsão da PM foi motivada por infrações graves, incluindo o uso da condição de militar para obter facilidades pessoais e a apropriação de bens particulares . O comandante-geral da PM, coronel Scheiwann Lopes, foi enfático em sua decisão, classificando a conduta como de "extrema gravidade" e ressaltando a "contradição axiológica intolerável" de um agente de segurança usar sua autoridade para violar garantias constitucionais, como a inviolabilidade do domicílio.
O coronel apontou ainda a premeditação do crime: "A premeditação é evidente e inequívoca, considerando que o acusado compareceu diversas vezes ao local dos fatos em ocasiões anteriores, examinando minuciosamente os sistemas de segurança instalados, as características da fechadura e os horários de menor movimentação".
A conduta violenta e debochada era amplamente documentada por ele mesmo em seus perfis
A defesa do sargento, comandada pelo advogado Otoniel Bisneto, anunciou que vai recorrer da decisão em todas as instâncias. Bisneto alega que houve "perseguição pessoal" contra seu cliente devido à sua exposição nas redes sociais e que a comissão processante havia sugerido, por unanimidade, a aposentadoria compulsória, e não a expulsão .
"O que há é uma perseguição ao sargento por conta de sua exposição nas redes sociais, por ele já ter sido candidato. Há outros casos, inclusive de agressores de mulheres, e o comando sequer abriu processo", argumentou o advogado, que também contesta as provas, afirmando que os vídeos não passaram por perícia técnica.
Próximos Passos
Até que todos os recursos sejam julgados, o sargento Mota permanece na corporação, mas afastado das operações de rua, exercendo funções internas. O processo administrativo que resultou em sua expulsão agora segue para a mesa do governador Rafael Fonteles, que pode sancionar ou rejeitar a decisão da PM.
Além do furto do perfume, Mota também é investigado no âmbito da Operação Jogo Sujo II, da Polícia Civil, que apura crimes de estelionato, divulgação de jogos de azar e lavagem de dinheiro envolvendo influenciadores digitais no estado.
Para os moradores das periferias de Teresina, que por anos viram o sargento Mota ostentar poder e humilhação em vídeos nas redes, a expulsão representa um raro momento de justiça. A imagem do policial que "deitava e rolava" em cima dos mais pobres agora dá lugar à de um condenado por um crime comum, cometido com a farda que deveria proteger.
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