FEIRA DA AGRICULTURA FAMILIAR
Natalia Costa
04 de julho de 2026 às 18:50 ▪ Atualizado há 56 minutos
A rotina das marisqueiras do litoral do Piauí começa antes mesmo do nascer do sol e exige força, coragem e resistência. Mas, apesar de décadas de dedicação ao trabalho no mar, muitas dessas mulheres ainda enfrentam um obstáculo que limita a geração de renda: a falta do selo de inspeção, exigido para comercializar os mariscos em supermercados, restaurantes e outros estabelecimentos.
O tema ganhou destaque durante a III Feira da Agricultura Familiar, Povos Tradicionais e Economia Solidária, realizada no Espaço Rosa dos Ventos, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), em Teresina. Além de exporem seus produtos e compartilharem suas histórias, as marisqueiras aproveitaram o evento para reforçar a necessidade de conquistar a certificação.
Há mais de 20 anos na profissão, a marisqueira Maria José conta que aprendeu o ofício ainda criança, acompanhando a mãe nas atividades
Ela afirma que o trabalho representa muito mais do que sustento financeiro.
"Esse trabalho significa para mim dignidade. Me faz ser uma mulher mais forte, guerreira, porque a vida de ser marisqueira não é tão fácil. O mar traz desafios e também perigos."
Segundo Maria José, arraias, bagres e o peixe conhecido como aniquim fazem parte dos riscos enfrentados diariamente por quem vive da coleta de mariscos.
"Mas nem isso faz eu desistir, porque eu amo ser marisqueira. Tenho orgulho de dizer que sou marisqueira. Além disso, também sou pescadora e faço artesanato."
Apesar da qualidade do produto, Maria José explica que a comercialização ainda é limitada justamente pela ausência da certificação sanitária.
"Quando a gente chega, cozinha o marisco, tira da casca, embala e espera alguém comprar. O nosso marisco ainda não está sendo vendido para fora porque não tem o selo. Esses dias uma moça falou que vai à praia e não come marisco. Eu expliquei que, para chegar aos restaurantes e supermercados, precisa do selo. Sem ele, eles não compram."
A marisqueira afirma que as trabalhadoras já estão mobilizadas para conseguir a certificação.
"A gente tem batido muito nessa tecla, fazendo reuniões e procurando as pessoas que podem nos ajudar. As amigas de Belmonte conseguiram o selo este ano, e eu acredito que logo nós também vamos conseguir."
Segundo ela, a certificação representa uma oportunidade de aumentar a renda das famílias e fortalecer toda a cadeia produtiva do marisco no litoral piauiense.
Além da venda de produtos, as marisqueiras também participam da exposição "Entre Cortos e Territórios – A Vida das Mulheres da Maré", que apresenta ao público o cotidiano dessas trabalhadoras.

O espaço reúne fotografias, objetos utilizados no trabalho, representações da cozinha das famílias e materiais que mostram todo o processo de coleta e beneficiamento dos mariscos.
Maria José também integra o grupo Maré e Sal e participa do projeto Ames, iniciativa voltada ao fortalecimento das mulheres das comunidades pesqueiras.
"A mias acolhe as mulheres porque muitas ainda sofrem violência doméstica. A exposição mostra nossa cozinha, nosso trabalho, nossas histórias e tudo aquilo que faz parte da nossa vida."
Para Maria José, participar da III Feira da Agricultura Familiar representa um importante reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelas marisqueiras.
Além de movimentar a economia da agricultura familiar, a feira também abre espaço para que trabalhadores tradicionais apresentem suas histórias, preservem suas culturas e ampliem a visibilidade de atividades fundamentais para a identidade e o desenvolvimento do Piauí.
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