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Israel matou mais jornalistas do que qualquer guerra da história; 2025 bateu recorde

Relatório do Comitê para a Proteção dos Jornalistas aponta 129 mortes no mundo; Exército israelense rejeita acusações e nega ataques à imprensa

Da Redação

Sábado - 28/02/2026 às 14:03



Foto: Majdi Fathi/NurPhoto via Getty Images Jornalistas, amigos e família rezando nos corpos dos jornalistas Sari Mansour e Hassouna Esleem, após eles serem mortos em bombardeio israelense
Jornalistas, amigos e família rezando nos corpos dos jornalistas Sari Mansour e Hassouna Esleem, após eles serem mortos em bombardeio israelense

O ano de 2025 foi o mais letal para jornalistas desde o início do monitoramento global realizado pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), organização com sede em Nova York que acompanha violações contra a imprensa desde 1992. Segundo relatório divulgado nesta semana, 129 profissionais de imprensa foram mortos no exercício da profissão ao longo do ano.

De acordo com o levantamento, cerca de dois terços dessas mortes — 86 casos — foram atribuídas a ações militares de Israel, principalmente no contexto do genocídio na Faixa de Gaza. É o terceiro ano consecutivo em que o país aparece como o que mais registra mortes de jornalistas.

A ação israelense é apontada como a mais letal já documentada para a categoria. Desde o início da guerra, em outubro de 2023, ao menos 257 jornalistas morreram, sendo 249 em ações atribuídas a Israel, segundo o CPJ. A maioria era de profissionais palestinos que atuavam em Gaza.

O governo israelense, por meio das Forças de Defesa de Israel (IDF), afirmou em nota que “rejeita veementemente” as conclusões do relatório. Segundo o comunicado, o Exército não tem como alvo jornalistas ou seus familiares e atua exclusivamente contra objetivos militares, seguindo o direito internacional. O governo também classificou como falsas as alegações de ataques intencionais contra civis em razão da atividade profissional.

A diretora regional do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) para o Oriente Médio e Norte da África, Sara Qudah, afirmou que a impunidade tem se consolidado como regra nos casos envolvendo a morte de profissionais da imprensa.

A impunidade está se tornando um padrão e uma norma. Israel consegue atacar e matar jornalistas com total impunidade, sem investigação e sem responsabilização. Aqueles que mataram esses jornalistas e aqueles que ordenaram os assassinatos desses jornalistas devem ser responsabilizados e processados.

Drones e aumento de ataques direcionados

Um dos pontos destacados pelo relatório é o crescimento do uso de drones em ataques que resultaram na morte de jornalistas. Em 2025, o CPJ contabilizou 39 ocorrências classificadas pela organização como “homicídio”.— número significativamente superior aos dois episódios documentados em 2023.

Desse total, 28 ocorreram em Gaza e foram atribuídos ao Exército israelense. Outros cinco foram registrados no Sudão, envolvendo as Forças de Apoio Rápido, e quatro na Ucrânia, atribuídos à Rússia.

O CPJ também concluiu que 47 jornalistas mortos em 2025 foram deliberadamente assassinados em razão de seu trabalho. Pela legislação humanitária internacional, jornalistas são considerados civis e não devem ser alvo de ataques. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), os assassinatos seletivos de jornalistas são crimes de guerra.

Após Israel com 86 casos, o Sudão aparece como o segundo país com mais mortes de jornalistas em 2025, com nove casos. O México ocupa a terceira posição, com seis registros, seguido pela Rússia (quatro) e Filipinas (três).

Mais de 75% das mortes registradas em 2025 ocorreram em contextos de conflito armado, como Gaza, Sudão e Ucrânia.

Mahmud Hams/AFP via Getty ImagesAcusações de impunidade

Após um bombardeio ao hospital Nasser, em agosto, que resultou na morte dos jornalistas Mariam Dagga, Hussam al-Masri, Mohammed Salama, Moaz Abu Taha e Ahmed Abu Aziz — profissionais que trabalhavam para veículos internacionais — o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, descreveu o caso como um “incidente trágico”. Na época, as Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmaram lamentar eventuais danos a pessoas que não participavam diretamente dos confrontos.

O CPJ, no entanto, afirma que observa um padrão de impunidade. A organização defende que os casos sejam analisados por instâncias internacionais, incluindo o Tribunal Penal Internacional.

Em 2023, 77 jornalistas foram mortos na guerra entre Israel e Gaza, 72 dos quais eram palestinos mortos em ataques israelenses. Em 2024, Israel matou 82 jornalistas em Gaza e três no Líbano, segundo o CPJ. Israel também alegou, em alguns episódios, que determinados jornalistas mortos mantinham "vínculos" com o Hamasacusações negadas por veículos de imprensa e organizações de direitos humanos. 

A ofensiva de Israel em Gaza matou mais de 70.000 pessoas desde 2023, a maioria mulheres e crianças, segundo o Ministério da Saúde de Gaza; os ataques israelenses em Gaza continuam.

Impacto mais amplo

Para a diretora-executiva do CPJ, Jodie Ginsberg, ataques contra jornalistas são um sinal de alerta para outras violações de direitos fundamentais.

Os ataques contra a imprensa são um indicador precoce de ataques a outras liberdades, e muito mais precisa ser feito para prevenir esses assassinatos e punir os perpetradores. Todos corremos risco quando jornalistas são mortos por noticiarem os fatos.

O relatório inclui não apenas repórteres, mas também trabalhadores da mídia, como intérpretes, motoristas e produtores que atuam na cobertura jornalística.

As mortes continuaram em 2026. Em janeiro, três jornalistas morreram após um ataque israelense ao sul da Cidade de Gaza, segundo relatos locais. As IDF informaram que a ação teve como alvo indivíduos que operavam um drone supostamente ligado ao Hamas, mas não esclareceram se sabiam tratar-se de profissionais de imprensa.

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) afirma que, com grande parte das provas da época agora destruídas, o número real de jornalistas palestinos em Gaza que foram alvos deliberados de Israel pode nunca ser conhecido.

Abed Zagout/Anadolu via Getty Images

Fonte: Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ)

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