O brilho dos desfiles das campeãs na Sambódromo da Marquês de Sapucaí ganhou um momento inesperado e emocionante na noite desse sábado (22) quando o cantor João Gomes interrompeu sua apresentação para prestar homenagem a uma mulher que, segundo ele, era “a maior celebridade daquela noite”. Ela não estava no palco, mas na plateia. Tratava-se da cientista Tatiana Lobo Coelho Sampaio, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Sob aplausos do público, a pesquisadora encostou no palco e abraçou o cantor. Aos 59 anos, Tatiana se tornou um dos nomes mais comentados do país após o avanço de sua pesquisa com a polilaminina, substância desenvolvida ao longo de quase três décadas de estudos.
O composto é uma versão sintetizada em laboratório da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo humano. Aplicada diretamente na área lesionada da medula espinhal, a polilaminina atua como um “andaime biológico”, estimulando a reconexão dos nervos.
Em testes preliminares realizados com oito pacientes paraplégicos e tetraplégicos, seis apresentaram melhora significativa nos movimentos. Um dos casos mais emblemáticos foi o do analista Bruno Drummond de Freitas, 31 anos, que recuperou boa parte dos movimentos dos braços e pernas após um acidente de trânsito, em 2018.
Em janeiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início dos ensaios clínicos oficiais, etapa considerada um marco histórico para a ciência brasileira. O projeto também recebeu aval do Ministério da Saúde para integrar o conjunto de tratamentos do Sistema Único de Saúde (SUS), caso os resultados continuem positivos.
Tatiana se reuniu ainda com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para discutir a importância de dar celeridade ao processo de aprovação e ampliar o apoio institucional à pesquisa.
Quem é Tatiana Sampaio?
Chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, Tatiana é formada pela própria universidade, onde concluiu graduação, mestrado e doutorado, e leciona desde 1995.
Há mais de 20 anos, durante um estágio de pós-doutorado nos Estados Unidos, ela iniciou a jornada que culminaria na criação da polilaminina. Ao estudar os princípios que regem a associação entre proteínas, encontrou a laminina armazenada em um laboratório. Ao investigar mais profundamente suas propriedades, percebeu que ali poderia existir um caminho promissor para auxiliar na regeneração do sistema nervoso após traumas.
Desde que a pesquisa foi oficialmente apresentada ao mundo, em setembro de 2025, Tatiana passou a representar o projeto publicamente, buscando investimentos e apoio para ampliar os estudos.
Sua trajetória já é considerada uma das mais relevantes da medicina nacional nas últimas décadas, sendo apontada como a mais próxima de uma indicação brasileira ao Prêmio Nobel de Medicina desde Carlos Chagas, em 1909.