“A igreja precisa se renovar e lutar mais pelos pobres, com ações.” A declaração do padre Ladislau João da Silva resume a posição que ele defende ao comentar a polêmica em torno do painel Calvário de Cristo hoje, que está coberto por uma cortina desde 1983 na Matriz da Boa Esperança, em Esperantina, no Norte do Piauí. Para ele, a controvérsia em torno da obra revela um debate mais profundo: qual deve ser o papel da Igreja na sociedade atual.
O painel foi encomendado em 1983 ao artista João Batista Bezerra. Parte do clero local e fiéis considera que a obra carrega conteúdo ideológico. Padre Ladislau discorda. Afirma que a pintura nasceu de debates com comunidades de base e buscava retratar o sofrimento de Cristo associado à realidade social da época.
Padre levanta o debate sobre qual deve ser o papel da Igreja na sociedade atual
A obra retrata cenas como casas incendiadas, crianças com fome, trabalhadores migrando e repressão policial. Para o padre, a intenção nunca foi partidária, mas pastoral. “Precisamos colocar à vista a dor do povo. É muito fácil proclamar um Cristo que sofreu no passado. O que a gente quer dizer é que Cristo sofre hoje, através da dor dos pobres”, afirma.
A polêmica, na avaliação dele, reflete duas visões distintas de Igreja. “Existe uma visão mais alienadora, que só vê o outro mundo, e outra que vê o outro mundo e este mundo também. Nós não podemos ser Igreja sem considerar os direitos humanos”, declara.
Padre Ladislau atuou por 23 anos em Esperantina e teve como referência as conferências de Medellín e Puebla, encontros do episcopado latino-americano que reforçaram a opção preferencial pelos pobres, princípio também presente em documentos do Concílio Vaticano II. Esses marcos orientaram, nas décadas seguintes, a atuação das comunidades eclesiais de base em várias regiões do Brasil.
Para ele, parte da crise atual da Igreja Católica passa pelo afastamento desse modelo. “Estamos mais preocupados com curas e menos com justiça social”, afirma. Ele critica práticas que, segundo diz, oferecem conforto espiritual imediato, mas não enfrentam as causas dos problemas sociais. “É muito fácil falar palavras bonitas e não tratar a causa.”
O padre também defende que a Igreja precisa ampliar a escuta e o acolhimento. “As pessoas sofrem com problemas pessoais, familiares, sociais. Precisam ser ouvidas. Mas isso não exclui a responsabilidade com a comunidade.” Ele cita a carta de São Tiago: “A fé sem obras é morta.”
Painel aguarda decisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional sobre reconhecimento federal
Perfil dos fiéis
O debate ocorre em um momento de mudança no perfil religioso do país. Dados do Censo 2022, divulgados pelo IBGE, mostram que os católicos representam 49,6% da população brasileira, enquanto os evangélicos somam 31,6%. Para padre Ladislau, a Igreja Católica precisa refletir sobre sua atuação diante desse cenário. “Não é só uma questão de perder fiéis. É uma questão de identidade.”
O painel foi tombado em nível estadual e aguarda decisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional sobre reconhecimento federal. O Iphan é o órgão responsável pela preservação do patrimônio cultural brasileiro e avalia critérios históricos, artísticos e culturais nos processos de tombamento.
Enquanto a análise segue em tramitação, a obra permanece coberta. Para o padre, no entanto, o principal não é a pintura em si, mas o que ela representa. “O debate que está acontecendo mostra que a igreja precisa decidir que caminho quer seguir. Uma fé só vertical, ou uma fé que também transforma a realidade.”
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