O que antes exigia uma década de espera para o agricultor colher o primeiro fruto hoje pode ser conquistado em apenas dois anos. A revolução silenciosa ocorre nos campos experimentais da Embrapa Meio-Norte, em Teresina, onde pesquisadores vêm escrevendo um novo capítulo na história do bacuri (Platonia insignis), fruto nativo da Amazônia e do Cerrado conhecido pelo perfume marcante, casca grossa e sabor que equilibra doçura e acidez.
Por meio de técnicas avançadas de melhoramento genético e seleção de clones, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa, conseguiu não apenas reduzir drasticamente o porte da planta e o tempo de entrada em produção, como agora trabalha em um desafio ainda mais ambicioso: desenvolver um bacuri sem caroço.
A pesquisa, conduzida pela Embrapa Meio-Norte, concentra esforços na domesticação, conservação genética e melhoramento da espécie. Mais de 70 variedades de clones estão em avaliação, com 19 deles já selecionados para alto rendimento e produtividade. O trabalho inclui ainda estudos de manejo, adubação, irrigação e controle ecológico da abelha arapuá, praga que compromete a qualidade dos frutos.
Banco genético preserva futuro da fruticultura nativa
A manutenção de um Banco de Germoplasma pela Embrapa Meio-Norte assegura a preservação da variabilidade genética do bacurizeiro, reunindo espécimes que representam a diversidade natural da espécie no Piauí, Maranhão e demais áreas de ocorrência. O material serve como base para os programas de melhoramento e como garantia contra a erosão genética.
Os experimentos de campo são conduzidos em parceria com produtores rurais, especialmente na região norte do Piauí e em áreas extrativistas. A estratégia visa não apenas o desenvolvimento científico, mas a transferência efetiva de tecnologia para quem vive da fruticultura.
Além da genética, a Embrapa investe no desenvolvimento de maquinário específico para facilitar a extração da polpa, etapa crítica para a agregação de valor e viabilização do cultivo racional do bacuri em escala comercial.
O chefe-geral da Embrapa Meio-Norte, Anísio Ferreira Lima durante visita ao estúdio do portal Piauí Hoje Orgulho da empresa e seus funcionários
Em tom de reconhecimento da importância da empresa, o chefe-geral da Embrapa Meio-Norte, Anísio Ferreira Lima Neto, fala com orgulho sobre o trabalho da equipe. Ele faz questão de mostrar os resultados dos estudos em andamento. "A Embrapa tem excelentes pesquisas e resultados. Mas a empresa sempre sofre com a escassez de recursos. Com mais dinheiro, as pesquisas com o bacuri, por exemplo, estariam muito mais avançadas", afirma.
Bacuri sem caroço: o próximo salto tecnológico
O objetivo atual de produzir um bacuri sem caroço representa um marco para a fruticultura tropical. A ausência de sementes reduziria perdas e aumentaria o rendimento industrial da polpa, beneficiando tanto a agricultura familiar quanto o setor agroindustrial.
Embora ainda em fase de estudos, a pesquisa se apoia no acervo genético já consolidado e na experiência da equipe com o melhoramento de outras espécies. O desenvolvimento de um bacuri sem sementes ampliaria o potencial de mercado da fruta, hoje consumida majoritariamente in natura ou na forma de doces, sorvetes e sucos artesanais.
O "bacuri anão" está sendo cultivado e pesquisado pela Embrapa Meio Norte Pesquisa integrada fortalece agricultura regional
Os trabalhos com o bacuri inserem-se em uma agenda mais ampla da Embrapa Meio-Norte, que há mais de duas décadas estrutura projetos voltados à agricultura familiar e ao desenvolvimento sustentável no Cerrado e áreas de transição do Piauí e Maranhão.
Desde 1998, quando os estudos com bacuri ganharam maior foco institucional, a unidade consolidou-se como referência nacional no melhoramento de feijão-caupi (feijão-de-corda), soja adaptada ao trópico — com a variedade "Tropical" desenvolvida ainda nos anos 1980 — e mandioca.
A atuação da Embrapa no Meio-Norte também é estratégica para o avanço dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), da apicultura com abelhas nativas sem ferrão, da produção de feno e silagem, do manejo de solos no Cerrado e da sanidade de pequenos ruminantes.
Na fruticultura, o trabalho com cajueiro anão precoce convive agora com o protagonismo crescente do bacuri, espécie até recentemente restrita ao extrativismo e hoje no centro de uma política de domesticação e melhoramento genético.
Bacuri é uma fruta muito versátil e pode ser usada para sucos, doces, cremes e outras iguariasCiência brasileira a serviço da sustentabilidade
Os cientistas da Embrapa atuam em múltiplas frentes para conectar conhecimento científico às necessidades do campo. Entre as principais áreas de atuação estão o melhoramento genético e biotecnologia, o desenvolvimento de bioinsumos para redução de fertilizantes químicos — com destaque para a fixação biológica de nitrogênio —, o manejo integrado de pragas com controle biológico e as tecnologias de precisão aplicadas à saúde do solo.
Essas ações colocam a agropecuária brasileira na vanguarda da inovação sustentável, conciliando ganhos de produtividade com conservação ambiental. No caso do bacuri, a pesquisa cumpre ainda um papel estratégico de valorização da sociobiodiversidade e fortalecimento das economias locais.
Com a redução do tempo de produção e a promessa do fruto sem caroço no horizonte, o que antes era colheita incerta de uma década transforma-se em oportunidade concreta para milhares de agricultores familiares. A ciência segue seu curso. Falta agora que o financiamento acompanhe o mesmo ritmo.
Fonte: Embrapa Meio Norte
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