MANIPULAÇÃO
Por Luiz Brandão
10 de julho de 2026 às 15:36 ▪ Atualizado há 1 hora
A imprensa comercial brasileira tem uma gramática própria quando o assunto é o governo Lula. Nela, a conjunção coordenativa adversativa "mas" ganhou status de ferramenta editorial, usada com precisão cirúrgica para transformar qualquer dado positivo em pretexto para críticas. A divulgação dos números da inflação de junho de 2026 escancara mais uma vez essa prática, que já se tornou tradição na cobertura jornalística do País.
Os dados do IBGE são objetivos: o IPCA-15, prévia da inflação oficial, desacelerou para 0,41% em junho, após ter marcado 0,62% em maio. O resultado veio abaixo das projeções do mercado financeiro, que esperava alta de 0,44%. Em 12 meses, o índice acumulado chegou a 4,8%. Apesar de ainda pressionado por alimentos e energia elétrica, o número representa uma clara desaceleração e um alívio no bolso do consumidor.
Mas, como era previsível, a velha mídia tratou de encontrar o "porém". E não foi difícil. O site UOL, por exemplo, estampou em sua manchete de economia: "Inflação desacelera em junho mas segue acima da meta do Banco Central". O "mas" ali cumpre seu papel gramatical de oposição, mas também seu papel político: anular o feito positivo, jogando o leitor imediatamente para o território da preocupação. A informação de que a inflação recuou fica subordinada ao alerta de que ainda não é suficiente.

Na mesma toada, o telejornal Hoje, da TV Globo, apresentou a manchete: "Inflação recua, fica em 0,16% em junho, mas energia elétrica e aluguéis tiveram maior alta". Novamente, a conjunção adversativa é o gancho para desviar o foco da conquista e destacar os pontos negativos, como se a notícia de que a inflação desacelerou fosse secundária diante do fato de que a energia elétrica subiu 2,04%.
O site Infomoney, especializado em economia, seguiu o mesmo roteiro. Começou dizendo que a "inflação sobe 0,16% em junho" para só depois mencionar que o índice ficou "abaixo do esperado pelo mercado". A inversão é sutil, mas poderosa: o fato de o índice ter desacelerado fica em segundo plano, como se a alta da inflação fosse o destaque principal.
Esse padrão não é novo e é assunto mais antigo. A perseguição a Lula e ao PT pela grande imprensa começou muito antes do primeiro mandato, no final da década de 1970 e início dos anos 1980, quando o sindicalista começou a despontar como liderança nacional.

Naquela época, os jornais já tratavam o movimento operário com desconfiança, e a cobertura das greves do ABC já trazia os primeiros indícios do que viria a ser uma relação marcada por antagonismo. A historiadora e jornalista Beatriz Kushnir, em seus estudos sobre a imprensa brasileira, documenta como os grandes veículos sempre atuaram como fiéis da balança do poder, alinhando-se aos governos e às elites quando lhes interessava.
O que mudou hoje? Talvez apenas a sofisticação da técnica. O que antes era explícito, hoje se veste de linguagem técnica e imparcialidade. A conjunção "mas" virou a marca registrada desse jornalismo de viés, uma forma de agenda setting que tenta pautar a percepção do público sobre o governo.
A técnica é clara: quando não se pode esconder um dado positivo, usa-se a "linguagem neutra" para relativizá-lo, sempre acompanhada de um contraponto que sugere que a conquista é frágil ou insuficiente. A inflação e o desemprego são dois pontos sensíveis na disputa eleitoral, e a velha mídia sabe disso.

A comunicação governamental, por sua vez, parece ainda não ter encontrado uma forma eficaz de contrapor essa narrativa. A tentativa de pautar a imprensa com dados positivos frequentemente esbarra na resistência dos veículos, que insistem em tratar as conquistas como exceção.
Ao leitor menos atento, fica a impressão de que o governo não faz nada certo. Ao leitor mais crítico, fica a certeza de que a velha mídia está mais uma vez usando sua caneta como arma política, tentando influenciar o resultado das eleições e impedir o avanço de políticas que beneficiam a maioria da população.
A gramática do contra é uma das faces mais perversas do jornalismo brasileiro. E enquanto a imprensa comercial insistir em usar a conjunção "mas" como artifício político, a democracia e a informação de qualidade continuarão sendo as principais vítimas dessa guerra discursiva.

Fonte: IBGE/sites de notícias
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