Nascido em Barras, no Norte do Piauí, o artista plástico e arteterapeuta Michael Jakson Amorim carrega um nome que, inevitavelmente, chama atenção. Mais do que uma coincidência curiosa, a identidade tornou-se parte central de sua trajetória — um elemento que, ao mesmo tempo, abriu portas e exigiu dele o desafio de construir uma marca própria.
“Esse nome, para mim, sempre foi uma honra, uma responsabilidade e uma inspiração”, afirma o artista. Escolhido por sua mãe, o nome antecede a dimensão que viria a ganhar em sua trajetória — à época, segundo Michael, ela não imaginava o impacto que essa escolha teria em sua história.
Influenciado pelo perfeccionismo e pela capacidade de reinvenção do astro pop, ele transformou o que poderia ser apenas uma coincidência em um elemento central de sua identidade artística. Apesar dos desafios enfrentados, especialmente na adolescência e no ambiente digital, decidiu ressignificar o nome.
Foi assim que surgiu a assinatura MJ Intuiando. A expressão mantém as iniciais, mas incorpora um termo de origem nordestina que remete a “entulhar”, “agregar”, “adaptar” — conceitos que, segundo ele, dialogam diretamente com seu processo criativo e sua visão de mundo. “É um nome que faz jus ao meu estilo de vida, ao meu trabalho e à minha essência como um todo”, explica.
Michael Jakson, artista, professor e arteterapeuta piauiense. Foto: Arquivo pessoal
Formação e construção artística
Formado pela Universidade Federal do Piauí, Michael trilhou o caminho da licenciatura e encontrou na educação um campo de expansão da sua arte. Professor de História da Arte, ele destaca que sua formação foi essencial não apenas tecnicamente, mas também na compreensão do próprio sistema artístico.
Foi muito bom pela convivência com pessoas com ideias distintas, pensamentos bem diferentes dos meus, fases da vida também, os valores, as realidades divergentes.
Segundo ele, o ambiente universitário proporcionou um “choque de realidade” ao revelar que a arte vai além da obra em si, envolvendo contextos sociais, políticos e históricos. A convivência com diferentes perspectivas também foi determinante para o seu amadurecimento pessoal e profissional.
Criatividade sem regras e experimentação com café
Para o artista, o processo criativo é o ponto mais fascinante do fazer artístico. Ele descreve a criação como a materialização de pensamentos — um espaço onde tudo é possível antes de encontrar as limitações do mundo concreto.
Uma das marcas de sua produção é o uso do café como pigmento. A técnica, embora já explorada por outros artistas, ganhou em suas mãos uma abordagem própria, com variações tonais e um brilho que remete à aquarela. Sua primeira exposição, foi construída a partir dessa experimentação, abordando o universo feminino sob perspectivas de força, beleza e natureza.
A criatividade é o ponto que mais me atrai. Imaginar, viajar, materializar algo, é basicamente dar um formato, dar um valor a um pensamento, através de uma linguagem, de um suporte. E no mundo das ideias, tudo é possível. Tudo é permitido e tudo está ao seu alcance, sem nenhum tipo de burocracia, obstáculo ou condição especial.
Michael também rompe com a ideia de que a inspiração segue uma lógica previsível. Para ele, boas ideias podem surgir nos momentos mais inesperados — no trânsito, no banho ou durante uma aula.
MJ Intuiando com suas obras de café vendidas. Foto: Arquivo Pessoal
Arte como ferramenta de cuidado
Se a pintura é expressão, a arteterapia é propósito. O artista define essa área como “a cereja do bolo” de sua trajetória. Atuando na prevenção, reabilitação e acompanhamento de pacientes — inclusive no Centro Integrado de Reabilitação (CEIR) — ele utiliza o fazer artístico como instrumento terapêutico.
Ser arteterapeuta é colocar a arte a serviço das pessoas
A prática, segundo ele, contribui para aspectos como autoestima, comunicação e cognição, além de atuar diretamente na saúde mental. Foi nesse campo que encontrou uma das formas mais significativas de impacto social. A arteterapia, explica, consiste no uso do fazer artístico com propriedades terapêuticas e medicinais — uma área relativamente recente, mas em expansão.
Segundo o artista, sua entrada nesse universo aconteceu de forma inesperada, mas rapidamente se transformou em identificação imediata. Ele descreve a atuação como gratificante, marcada por uma abordagem lúdica, dinâmica e enriquecedora. MJ afirma ter encontrado na arteterapia o melhor caminho para aplicar sua produção artística de forma prática, ajudando a mitigar problemas e contribuir diretamente para o cuidado com a saúde mental.
Entre talento e esforço: a construção de uma trajetória
Diferente de muitos discursos comuns no universo artístico, Michael não se considera um “talento nato”. Para ele, sua evolução está diretamente ligada à dedicação e paixão pelo processo.
Desde a infância, quando começou a desenhar, até a consolidação como artista, professor e terapeuta, sua trajetória é marcada por tentativas, erros e aprendizados. Ele resume esse percurso como um equilíbrio entre perdas e conquistas, sempre guiado pela vontade de evoluir.
MJ em ensaio fotográfico. Foto: Arquivo Pessoal
Desafios e críticas ao cenário cultural
Ao falar sobre o cenário artístico piauiense, o artista reconhece a existência de profissionais talentosos, mas aponta problemas estruturais que dificultam o desenvolvimento da área. Entre eles, destaca a falta de valorização da arte local e problemas nas políticas de gestão cultural.
A ancestralidade e a cultura local sempre tem presença garantida na produção de todo artista.
Segundo Michael, muitas vezes oportunidades são limitadas por interesses políticos e falta de qualificação em cargos estratégicos, o que impede que novos artistas tenham espaço para expor seus trabalhos. Ainda assim, ele segue “nadando contra a corrente”, persistindo na construção de sua carreira.
As políticas públicas, muitas vezes têm um grande desafeto para com os artistas, agindo como um matadouro. Onde rotineiro que alguns cargos da arte e da cultura, sejam ocupados por pessoas sem a menor competência, qualificação e experiência para lidar com isso; além de fechar portas ao invés de abrir.
Arte, conexão e futuro
Conciliar as funções de artista plástico, professor e arteterapeuta é, atualmente, seu maior desafio. Cada área exige dedicação específica, mas, ao mesmo tempo, se complementa.
Seu objetivo vai além da produção artística: ele quer emocionar, criar identificação e impactar pessoas. Entre os planos futuros estão a realização de exposições fora do estado e do país, além do lançamento de um livro sobre História da Arte.
“Continue intuindo”
Ao refletir sobre sua própria jornada, Michael define sua trajetória com a palavra que compõe sua identidade artística: “entuiar”, no sentido de agregar, transformar e seguir em movimento.
Seu mantra resume sua filosofia de vida:
Não importa o que aconteça, continue intuindo.
Mais do que uma frase, a ideia atravessa toda a trajetória do artista e ajuda a compreender a forma como ele enxerga o próprio percurso. Ao longo dos anos, entre a sala de aula, o ateliê e a atuação na área da saúde, sua caminhada foi sendo construída a partir de escolhas que exigiram persistência e capacidade de se reinventar, mesmo diante de dificuldades estruturais e desafios pessoais.
É nesse ponto que sua produção ganha um caráter mais amplo, que ultrapassa a tela e alcança o cotidiano das pessoas com quem ele dialoga.
Para acompanhar mais de perto seu trabalho, processos criativos e projetos pode acessar seu perfil no Instagram, onde compartilha produções, bastidores e reflexões sobre arte e vida: @intuiando.
(*) Isabel Fonseca é estagiária de Jornalismo sob supervisão dos jornalistas Gilson Rocha e Malu Barreto.
Jesus e Maria. Técnica de café por MJ Intuiando. Foto: Arquivo Pessoal
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