QUEDA ELEITORAL
Por Natalia Costa
06 de outubro de 2026 às 11:45 ▪ Atualizado há 34 minutos
O senador Ciro Nogueira (PP) não conseguiu renovar o mandato pelo Piauí nas eleições de 2026, mas a derrota nas urnas não ocorreu por perda nominal de votos. Pelo contrário: ele recebeu 904.961 votos, contra 897.959 votos obtidos em 2018, quando foi reeleito para o Senado. Foram 7.002 votos a mais, crescimento de aproximadamente 0,78%.
A comparação muda quando considerada a proporção dos votos válidos. Em 2018, Ciro teve 29,92% dos votos válidos para o Senado. Em 2026, caiu para 24,68%. A diferença foi de 5,24 pontos percentuais, o que representa uma redução de aproximadamente 17,5% em sua participação proporcional na votação.
Ciro fica atrás de Marcelo Castro e Júlio César
Na eleição deste domingo (4), Ciro terminou em terceiro lugar. O senador Marcelo Castro (MDB) foi o mais votado, com 1.307.833 votos, seguido pelo deputado federal Júlio César (PSD), que recebeu 989.146 votos. Ciro ficou com 904.961 votos e, dessa forma, perdeu uma das duas vagas em disputa no Piauí.
A derrota encerra uma sequência de quatro legislaturas consecutivas no Senado. Ciro havia sido eleito pela primeira vez em 2010, com 695.875 votos, e depois conquistou a reeleição em 2018, quando alcançou sua maior votação nominal para o cargo.
Caso Banco Master marcou reta final da disputa
A campanha de 2026 também foi atravessada pelas investigações envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro. Em maio, Ciro foi alvo de mandados de busca e apreensão da Polícia Federal na quinta fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
Segundo a PF, havia indícios de que Ciro teria recebido vantagens indevidas de Vorcaro e atuado em benefício de interesses ligados ao banco. A investigação apontou pagamentos mensais que poderiam variar entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, além do custeio de viagens e outras despesas. A PF também investigou uma emenda apresentada pelo senador para ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.
Ciro e sua defesa negaram irregularidades. Os advogados afirmaram que o senador não teve participação em atividades ilícitas e classificaram como precipitadas as medidas baseadas, segundo eles, em mensagens de terceiros.
De Lula e Dilma a Bolsonaro e Flávio
A trajetória política de Ciro também é marcada por diferentes alianças. Ele próprio já reconheceu que foi aliado de Lula no passado. Em 2016, durante a crise que antecedeu o impeachment de Dilma Rousseff, Ciro era um dos principais articuladores do PP e chegou a defender a permanência do partido na base do governo, mas posteriormente anunciou voto favorável ao impeachment.
No governo Michel Temer, Ciro passou a atuar como aliado do presidente e participou de articulações da base governista no Congresso.
Já no governo Jair Bolsonaro, Ciro assumiu a Casa Civil, entre 2021 e 2022, tornando-se um dos principais articuladores políticos da gestão. Em 2026, depois de perder a reeleição, declarou apoio total e irrestrito a Flávio Bolsonaro no segundo turno contra Lula.
As sucessivas mudanças de posicionamento renderam a Ciro, ao longo dos anos, críticas de adversários que o classificam como um político de alianças circunstanciais. Agora, a primeira derrota em uma disputa pelo Senado desde 2010 coloca fim a um ciclo de 16 anos de Ciro Nogueira na Câmara Alta.
Quem é Ciro Nogueira
Nascido em Teresina, em 21 de novembro de 1968, Ciro Nogueira Lima Filho é advogado, empresário e político. Formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), ele cresceu em uma família tradicional da política piauiense. Seu pai, Ciro Nogueira Lima, também foi deputado federal pelo Piauí, e outros familiares ocuparam cargos políticos no estado e em outros estados.
Ciro iniciou a carreira eleitoral pelo antigo PFL, atual União Brasil, e foi eleito deputado federal pela primeira vez em 1994, assumindo o mandato em 1995. Permaneceu na Câmara dos Deputados por quatro legislaturas consecutivas, até 2011. Durante esse período, ocupou cargos na Mesa Diretora da Casa, incluindo a Segunda Vice-Presidência e funções de secretário. Em 2004, deixou o PFL e passou a integrar o Progressistas (PP).
Em 2010, foi eleito senador pelo Piauí para seu primeiro mandato no Senado, iniciado em 2011. Em 2013, assumiu a presidência nacional do PP, posição que ajudou a ampliar sua influência dentro do chamado Centrão em Brasília. Em 2018, foi reeleito para o Senado.
Além da política, Ciro atua no setor empresarial. Entre as empresas ligadas a ele aparecem a Ciro Nogueira Comércio de Motocicletas Ltda., a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis Ltda. e a Fazendas Reunidas Nogueira Lima, ligada a atividades agropecuárias e imobiliárias. Registros empresariais e reportagens também apontam participações dele ou da família em outras empresas ao longo dos anos.
A atuação empresarial também entrou no radar de reportagens recentes. Em 2026, a Folha revelou que empresas ligadas a Ciro possuem imóveis de alto valor e que a estrutura empresarial da família inclui negócios imobiliários e agropecuários. O senador afirmou que os imóveis foram adquiridos com recursos de suas empresas e negou relação dessas operações com o caso Banco Master.
Depois de deixar o governo Bolsonaro, Ciro continuou como uma das principais lideranças do PP no Congresso. Em 2025, chegou a buscar aproximação com Lula e, segundo reportagem da Folha, tentou construir uma alternativa política que pudesse favorecer sua reeleição ao Senado. A estratégia não prosperou. Após perder a disputa de 2026, Ciro declarou apoio total e irrestrito a Flávio Bolsonaro no segundo turno presidencial, reafirmando sua permanência no campo bolsonarista.
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