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Joaquina, rosa afra das passagens

Trata-se, na calendarização do catolicismo, do memorial da visita dos magos a Jesus na manjedoura, em Belém


Apresentação reisado

Apresentação reisado Foto: Secult

Nos sertões da antiga América Portuguesa, a Festa de Reis é acontecimento cheio de beleza e expressão de vida comunitária. No caso, a vivência comum ao nível e às instâncias das tradições da fé cristã.

Trata-se, na calendarização do catolicismo, do memorial da visita dos magos a Jesus na manjedoura, em Belém. No calendário da Igreja de Roma marca o dia 6 de janeiro, encerra o tempo natalino e se celebra a Epifania do Senhor.

A recordação festiva da visita dos Reis Magos que chega à América como projeção da cultura e religiosidade popular ibérica, consiste numa espécie de peregrinação nas horas da noite alta às casas da vizinhança, anunciando a novidade do Deus-menino.

Esse recordar os Magos, nos recônditos do Maranhão, onde nasci, em geral, ocorre como iniciativa de um promesseiro que, em paga da promessa por graça alcançada, festeja os Santos Reis – Belchior, Gaspar e Baltazar.

No exemplo de outras festas de santo que por lá ocorrem, o referido promesseiro ou encarregado, organiza um pequeno cortejo a peregrinar, na maneira dita, recolhendo a “esmola” de casa em casa. É uma chegança, um quase-brincar, dizem estudiosos.

Não se trata de um cortejo simples, o que faz essa espécie de folia de reis: o grupo inclui tocadores, algum trovador popular para fazer a cantiga de chegada etc. E como se fora um auto, tem careta, faz-se a representação de bichos, tipo boi, Jaraguá, seriema...

É da tradição pura o dono da casa visitada ser convocado a abrir a porta à chegada da trupe. Aviso discreto, já reservou a oferta: lá no meu sertão, tapioca, puba, café em grão, farinha, azeite de coco, ovos, arroz, galináceos... A trupe inclui um jumento com jacás para levar o arrecadado.

Lá em Passagem Franca da minha infância, a cada ano, vários eram os grupos que apareciam “tirando reis com viola”. A mais conhecida de todas essas cheganças era a da Joaquina, uma trabalhadora aguerrida, moradora do povoado Santo Antonio dos Madeira.

Talvez tenha ficado a folia da Joaquina a mais arraigadamente fixada na memória de mais de uma geração ali nascida e crescida, pela figura dela, uma católica afro, cujo maior sinal de sua condição existencial era andar de branco nesses dias de seu preceito e de sinais vivos da religiosidade que praticava.

Também porque Joaquina celebrava outros santos, a exemplo de Santo Antonio, São Francisco, e devotada ao Divino Espírito Santo. Isto é, tirava esmola e fazia festa, dos invernos às “secas”. De repente, aparecia a Joaquina, à porta, segurando a imagem-retrato do santo na altura do peito, rogando: “esmolinha para santo Antonio!”

No dia de Reis, muitos do povo se dirigiam à casa de palha da Joaquina, no Santo Antonio, légua e meia da cidade, para, de cinco da manhã às 10, tomar café com bolo; das 10 às cinco da tarde, comer arroz com galinha. Essa a comida típica, havida das esmolas, agora ofertada pela dona da festa.  

Quanta lembrança das festas de Joaquina, a “eterna noiva” – como diziam – por se vestir de branco e colocar flores brancas nos cabelos. Com forte preconceito, de gente “branca”, chegava-se a dizer que era uma “doida”, uma cachaceira... Ela gostava de uma bebidinha; sim, na terra da melhor pinga, quem não...!?

No tempo “dos Festejos de Janeiro”, abundância de mimos, o burgo engalanado e mais contente, Joaquina era incontida. As pessoas já lhe davam vestidos brancos, compridos.

Passagem Franca tinha, e tem, a maioria da população trabalhadora, lavradores e vaqueiros, com a estirpe da indioafrodescendência e a Joaquina raiou como sinal vivo de africanidade. Seu gosto em vestir-se de branco não era “loucura” e sim uma afirmação sincrética mais que simbólica.

Dia de Reis lembra a sociedade brasileira naquilo que ela dispõe como tradição a reverenciar, cultivar. Tomar café com bolo e comer arroz com galinha, que caracterizam o encontro do dia 6, é uma espécie de comunhão e partilha do pão celebrativo, assim como o adjunto é compartilhamento de labor produtivo.

Vivam as Joaquinas dos Reis, devotadas e devotados, com viola, rabeca e maracá. Briosos cantadores e puxadores: do Manu aos Caetanos, do Sinda a seu Domingos.   

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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