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Enterrou esgoto, perdeu eleição

Isso se deve ao que se convenciona chamar de incivilidade.


Investimento em saneamento ambiental

Investimento em saneamento ambiental Foto: Divulgação

Por que no Brasil tem demorado tanto a superação da miséria? Há estruturas de iniquidade social por muitos consideradas “naturais”, irremovíveis. Naturalização que é uma mola mestra da ideologia liberal que se impõe.

E por que quase ninguém move um dedo sequer para erradicar um dos sinais de maior evidência da miséria, os dejetos de toda espécie emporcalhando ruas, rios e os arredores das cidades com seus lixões? É menosprezo elitista? É. E mais alguma coisa.

Isso se deve ao que se convenciona chamar de incivilidade. Diga-se logo: administrador que se mete a investir prioritariamente nessa política pública pode se despedir dos próximos mandatos. Mais ou menos o que acontecerá com os administradores que priorizam a educação e a própria saúde, que, aliás, e a propósito, um bom sistema de esgotos melhora em grande escala. Agora, faça prédio bonito, enfeite praças, construa “elefantes brancos”, contrate bandas para zoar, aí, com certeza, galgará novos mandatos.

Com essa constatação, os chamados “políticos”, em sua quase totalidade, vão cuidar é nada de enterrar cano de esgoto e higienizar o espaço de circulação coletiva, incrementar educação pública qualificada pro povão, fazer obra que não encha olhos do eleitorado. Empresário nenhum vai tratar os rejeitos de seu processo industrial.  

É preciso especular se isso vai continuar ainda por muito tempo.

Sim, não há sinais claros indicando noutro sentido. O analfabetismo político está acentuado.

Ainda que alto o número de pessoas vivendo em ajuntamentos urbanos, não parece esse viver citadino se traduza em educação coletiva contra a sujeira e daí o que seria uma tomada de posição da liderança social e política encarregada da administração pública e da liderança dos negócios privados.

Os processos educativos formais praticados nas escolas não são capazes de alavancar uma outra percepção popular sobre o assunto? Não foram até hoje. A estrutura mental que move a vida social é mais forte e de mudança mais lenta. Exemplo em cima da realidade: não há gerenciamento eficaz dos espaços de higienização, os chamados “banheiros” – do Jardim de Infância às Universidades –, pois tarefa que se faz no limite da sofreguidão. 

A percepção do que é sujo e dá nojo no meio e nos modos em que se movimentam as pessoas sobre a face da terra e até fora do espaço não terrestre, não é coisa de idêntica conotação, diferenciando-se, e muito, segundo as segmentações sociais de classe, costumes e tradições, além de distinções demográficas culturais marcadas como nações.

Um vaqueiro ou um lavrador de roças, lá de Passagem Franca, por exemplo, andando pelas trilhas lastradas de folhas mortas a caminho do riacho, não tem nojo delas. Mas certos citadinos poderiam por ali nunca pisarem... Comer ovo goro é impensável em nosso mesmo sertão; já nas Filipinas dizem que é prato especialíssimo. Assim galinha de despacho. O que se tem por convenção de higiene pessoal varia segundo certos costumes.

Outra consideração haverá de se ter como referente quando se trata de atitudes orientadas pelo conhecimento científico. Define-se o que é sujo e pecaminoso conforme o que causa doenças e o que não causa.    

Parece bobagem mas é a pura verdade: qualquer prefeito que chame o povo à praça e pergunte o que deveria ser priorizada, a remodelação embelezadora da dita praça ou a rede de esgotos, a maioria dirá que é a praça. É desse jeito no Brasil mediano. Raras as exceções.

Ainda que em centros mais avantajados, de informações e de outros meios de esclarecimento, a exemplo de Teresina, é espantoso o menosprezo popular pela cidade limpa, saudável. Sim, a sujismundice é “natural”. Já o dissemos aqui neste espaço: o que Teresina joga de sujeira dentro dos seus dois rios não está escrito. E poucos descrevem. Imagine se não fosse do rio Parnaíba a captação da água para o consumo de quase todos os moradores daqui.

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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