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Rádio calçada, uma rede social

O fato é que jogar conversa fora sempre foi um meio de reunir as pessoas, uma especie de rede social de contato físico


Praça João Luiz Ferreira

Praça João Luiz Ferreira Foto: Divulgação

O título deste texto remete a um grupo de pessoas que se reuniam em Teresina nos anos 70 e 80. Homens que ficavam conversando, sentados de modo até desconfortável, na mureta que circundava a hoje inexistente Galeria de Arte do Theatro 4 de Setembro. Há quem diga que a Rádio Calçada é de bem antes, do tempo em que havia no mesmo local o Bar Carnaúba.

Vejam, então, como as coisas se transformam. Hoje o lugar é um espaço contíguo ao teatro, com algumas plantas, bancos e uma escultura de Fátima Campos. Um pouco mais adiante existe um pequeno palco no qual, em tempos de normalidade, se apresentavam artistas da cidade. Havia nos dois casos a interação social, sociabilidade desaparecida nos meses que se seguem depois que uma doença grave fez do afastamento a mais eficaz das profilaxias contra ela.

Mas voltando à Rádio Calçada, não é exatamente sobre aquele encontro vespertino, sobretudo, aos domingos que se está a discorrer, mas sobre como na cidade de Teresina as boas rodas de conversa sempre foram uma espécie de instituição da cidade. Sem que se precise citar os nomes, por risco de injustiça em face do esquecimento de alguns, melhor que se mencione mais a tradição que quem a fazia.

O fato é que jogar conversa fora sempre foi um meio de reunir as pessoas, uma especie de rede social de contato físico, tanto fazia ser a Rádio Calcada, como as conversas de aposentados na praça Rio Branco ou a frequência de domingo nas bancas de revista da praça João Luís Ferreira. Notadamente a Banda do Tomás. As pessoas se reuniam para conversas informais, com o propósito de se saberem bem ou mal, de tomarem ciência de temas os mais variados. Mas nada de maledicências ou fofocas, ainda que elas pudessem aqui e ali frequentar a conversa.

É possível que existam em qualquer cidade esse tipo de roda de conversa. Em Teresina elas evidentemente seguem mesmo com o advento de redes sociais ou com o esvaziamento do centro como um espaço de convivência. Hoje, a Rádio Calçada – aqui usada como sinônimo de roda de conversa entre amigos – mudou de lugar. Ela está nos cafés de shoppings centers ou de supermercados. Persiste felizmente como uma boa sociabilidade.

Ocorreu que a pandemia da Covid-19 afastou as pessoas, as distanciou fisicamente. A Rádio Calçada agora pode estar transmutada em grupos de conversas em aplicativos de mensagem. Mas isso não tem graça. Não tem o face-a-face que tanto faz bem numa boa rodada de conversa jogada fora, às vezes irrigada com um bom café ou um refresco, quem sabe um copo de cerveja. Por isso, além de tudo, o fim da pandemia por uma vacina pode nos colocar de volta frente a frente dos amigos para esse saudável jogo de lançar conversa fora.

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