TRÂNSITO
Por Luiz Brandão
11 de junho de 2026 às 13:16 ▪ Atualizado há 1 hora
Em Teresina foi retomado um velho e indigesto cenário para os condutores de veículos da capital: os radares estão mais afiados do que nunca, enquanto a orientação no trânsito praticamente desapareceu. O que os motoristas e motociclistas da cidade denunciam é a consolidação de uma verdadeira "indústria da multa", onde o objetivo parece ser apenas arrecadar, sem qualquer contrapartida educativa por parte da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (Strans).
Dados históricos mostram que a insatisfação não é de agora. Ao longo dos anos a Strans vem instalando radares por toda a cidade com a justificativa de reduzir acidentes. No entanto, o sentimento atual é de que a fiscalização eletrônica se tornou excessiva e predatória. A partir de 2020, novos pontos de radar foram adicionados em vias como a Avenida Raul Lopes, e a estratégia de usar radares se intensificou, atingindo corredores como a Miguel Rosa.
A lógica da arrecadação
A reportagem apurou que a concentração de equipamentos em curtos trechos desafia a lógica. Na Avenida Raul Lopes, um dos cartões-postais da cidade que já chegou a receber milhares de pessoas em eventos, os motoristas enfrentam uma verdadeira "pista de taxação". Em um intervalo de menos de 2 quilômetros, existem dois radares de velocidade monitorando quem ultrapassa os 60 km/h.
A situação se repete em um eixo vital para a cidade, que liga a Ponte JK à Ponte da Primavera. A Ponte Juscelino Kubitschek, estrutura central que conecta o Centro à zona leste de Teresina, é rodeada por vias de alta fiscalização. Entre a Ponte da Frei Serafim e a Ponte da Primavera, há pelo menos três radares em menos de 3 km.
Em outubro de 2024, pais de alunos protestaram contra um radar instalado na subida da Avenida Frei Serafim, logo após a saída da Ponte JK. Na ocasião, os condutores relataram que o equipamento causava congestionamentos e servia para "arrecadar mais dinheiro, ao invés de conscientizar".
A justificativa oficial para a instalação dos equipamentos sempre foi a redução de acidentes em "áreas de pista livre" ou de grande circulação. No entanto, a percepção popular é que a fiscalização eletrônica se espalhou também para locais de pouca movimentação, onde não há risco objetivo à coletividade, apenas o risco de o bolso do motorista ser penalizado.
Agente só aparece para multar
O ponto central da revolta popular é o descaso com a educação. Enquanto a "indústria da multa" corre solta com seus aparelhos, as ruas de Teresina estão abandonadas pelos agentes humanos da Strans. Nas portas das "escolas dos ricos" as filas duplas são constantes, o que gera congestionamento e revolta e não há nenhuma fiscalização.
Motoristas de aplicativos, motoboys (Uber) e trabalhadores em geral, os mais prejudicados pela lógica da tarifa sobre a jornada de trabalho, reclamam que não encontram patrulha da Strans orientando o trânsito ou facilitando a vida em momentos de crise. É só na multa.
Em locais de grande incidência de acidentes ou durante os frequentes engarrafamentos que paralisam a cidade, a falta de um agente para organizar o fluxo é gritante. "A prefeitura está esperta para multar, mas para orientar e educar o trânsito, isso não existe. A Prefeitura não existe para esse sentido", é o desabafo unânime entre os condutores.
Ministério Público e Câmara são acionados
Diante do descontentamento generalizado, a sociedade clama por uma intervenção do Ministério Público e da Câmara de Vereadores. A suspeita é de que a arrecadação com multas tenha se tornado uma fonte de receita secundária para o município, sem que haja a devida contrapartida em serviços.
A cidade não vê campanhas efetivas de educação de trânsito por parte da Strans. Não há um programa institucional forte que ensine pedestres e motoristas antes que a multa chegue. A sensação é de que o cidadão é tratado como um "número" no sistema de fiscalização, e não como parte do trânsito que precisa ser orientado.
Protestos contra a indústria da multa já marcaram a história de Teresina em outras ocasiões, e o sentimento atual é de que o problema não só persiste como se agravou. Enquanto o dinheiro das autuações entra nos cofres públicos, os motoristas seguem reféns de um sistema que multa fácil, mas falha miseravelmente na hora de educar e orientar.
Luiz Brandão é jornalista formado pela Universidade Federal do Piauí. Está na profissão há 40 anos. Já trabalhou em rádios, TVs e jornais. Foi repórter das rádios Difusora, Poty e das TVs Timon, Antares e Meio Norte. Também foi repórter dos jornais O Dia, Jornal da Manhã, O Estado, Diário do Povo e Correio do Piauí. Foi editor chefe dos jornais Correio do Piauí, O Estado e Diário do Povo. Também foi colunista do Jornal Meio Norte. Atualmente é diretor de jornalismo e colunista do portal www.piauihoje.com.
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