Em um discurso que mistura otimismo tático com um sóbrio realismo político, o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), traçou publicamente o que considera o caminho indispensável para o sucesso eleitoral e de governo da esquerda em 2026. Foi no 6⁰ Seminário de Formação Política do PT, domingo (24), no auditório do Sebrae, em Teresina.
Aliado de longa data do presidente Lula, Fonteles não tem dúvidas em declarar o favoritismo do chefe do Executivo Federal para a disputa presidencial que se avizinha. No entanto, seu recado principal, destinado ao PT e a todas as forças políticas aliadas, é um alerta estratégico: não adianta quase nada vencer a corrida pelo Planalto se a base de sustentação no Congresso Nacional for frágil.
“É muito importante a eleição do presidente Lula, mas é mais importante ainda a eleição dos que vão ajudar o presidente a governar”, ressaltou Fonteles, referindo-se diretamente às eleições para o Senado Federal e a Câmara dos Deputados.
Para o governador, a união de esforços nas esferas estadual e federal deve ter como objetivo central “eleger o maior número possível de deputados federais e senadores”. Este, em sua visão, é o elemento fundamental para “facilitar o desempenho” de um eventual quarto mandato de Lula, garantindo a governabilidade necessária para implementar agendas e barrar obstruções.
A fala de Fonteles não surge em um vácuo. Ela reflete uma lição aprendida a duras penas nos últimos ciclos políticos. O primeiro mandato de Lula (2003-2006) e os governos petistas subsequentes contaram com bases parlamentares amplas e negociadas, enquanto a gestão de Dilma Rousseff enfrentou crises agudas a partir do esfacelamento de sua base de apoio.
O atual governo Lula, eleito em 2022, tem enfrentado dificuldades para aprovar projetos-chave no Congresso, onde a oposição detém um núcleo de poder significativo, especialmente no Senado. Dados de 2024 mostram que o governo tem buscado construir maiorias momentâneas, votação a votação, num processo lento e desgastante.
Portanto, o alerta do governador do Piauí vai além do chavão eleitoral. É um reconhecimento pragmático de que a vitória presidencial, embora crucial, é apenas a primeira etapa de uma batalha mais longa. Fonteles está consciente de que a eleição “não será fácil” para Lula, em um cenário que deve ser marcado por polarização e disputa acirrada por cada voto. Mas ele eleva o debate: a verdadeira dificuldade, e o risco para um quarto mandato bem-sucedido, reside justamente na composição do próximo Congresso.
A estratégia defendida por Fonteles implica uma mudança de foco na máquina partidária e de campanha. Em vez de concentrar todos os recursos e holofotes na corrida presidencial, é preciso investir pesado em candidaturas estaduais e distritais viáveis para o Legislativo.
É, na prática, uma convocação para que prefeitos, governadores e lideranças locais do campo aliado assumam a responsabilidade de construir legados fortes no Parlamento. A qualidade e a quantidade dos eleitos para a Câmara e, sobretudo, para o Senado serão o verdadeiro termômetro do sucesso da coalizão.
Em suma, Rafael Fonteles faz uma defesa apaixonada da reeleição de Lula, mas a condiciona a um projeto de poder mais amplo e duradouro. Seu “alerta à militância” é um chamado ao realismo político: para garantir que um eventual quarto mandato seja de fato transformador e estável, é preciso começar a construir suas fundações hoje, nos estados, candidatura a candidatura.
A presidência se ganha no voto direto, mas se governa com o Congresso. E é neste segundo front que, segundo o governador, a batalha decisiva de 2026 será travada.
Luiz Brandão
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