Quem conheceu Brasília no final dos anos 1970 e visita hoje a cela no presídio militar da Papudinha, onde o ex-presidente Jair Bolsonaro cumprirá pena, se depara com uma imagem que evoca as origens da capital. A estrutura, descrita por fontes como um compartimento simples, remete diretamente aos longos barracos de madeira que abrigaram os operários – os "candangos" – que ergueram a cidade a partir final dos anos 1950 e que permaneceram como moradias precárias no Núcleo Bandeirante por décadas.
Essas primeiras habitações eram construções estreitas, com paredes compartilhadas para economizar, sujeitas às intensas correntes de vento e ao frio do Planalto Central. A cela que agora abriga Bolsonaro, conforme relatos, apresenta uma estética similar: um espaço austero e básico, distante de qualquer luxo.
A arquitetura de Brasília, um marco do modernismo brasileiro idealizado por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, sempre carregou um discurso de futuro e desenvolvimento. No entanto, sua história também é feita dos contrastes entre os palácios de concreto e as vilas operárias de madeira. O próprio Catetinho, primeira sede do governo na nova capital, é um grande barracão de madeira, hoje tombado como museu.
O local escolhido para a prisão do ex-presidente não é aleatório. A Papudinha é um presídio militar no Distrito Federal, usado para a custódia de pessoas vinculadas às Forças Armadas. Bolsonaro, um ex-capitão do Exército cuja identidade política sempre esteve atrelada a valores militaristas, críticos ao comunismo e em defesa do regime de 1964, cumpre pena por condenações relacionadas a abuso de poder político e jurídico em tentativas de permanecer no cargo após as eleições de 2022, atos que foram amplamente caracterizados por autoridades judiciais como tentativas de golpe de Estado. A ironia histórica se torna evidente: um ex-presidente de perfil ideológico militarista e anticomunista cumpre pena em uma instalação militar em uma cela que lembra a precariedade da cidade em sua origem.
A situação atual do ex-presidente é monitorada pela Polícia Penal do DF. Informações oficiais indicam que ele está sob custódia em cela individual, com acesso a direitos básicos, após condenações pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e pelo Supremo Tribunal Federal -STF. A defesa do ex-presidente tem recorrido das decisões.
Assim, a cela na Papudinha se transforma em um símbolo carregado de significados: é um retorno às origens materiais humildes de Brasília e, ao mesmo tempo, um marco na aplicação da lei sobre um ex-chefe de Estado, fechando um ciclo político conturbado cujos métodos foram rejeitados pelas instituições democráticas.
Luiz Brandão
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