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FEMINICIDIO

Janeiro Branco e os filhos do feminicídio: a saúde mental que nasce do luto

Por Yasmin Lyra Sousa (*)

Sexta - 16/01/2026 às 16:19



Foto: Redes sociais Crianças sofrem ausência das mães assassinadas
Crianças sofrem ausência das mães assassinadas

Janeiro Branco é apresentado todos os anos como um convite ao cuidado com a saúde mental, ao autocuidado e à escuta sensível. No entanto, falar de saúde mental no Brasil sem falar de violência de gênero é, na prática, pactuar com um silêncio estrutural. A saúde mental não existe fora da história, da política, da classe, da raça e do gênero. Ela é atravessada por tudo aquilo que estrutura a vida social. Por isso, este texto nasce da recusa em tratar o sofrimento psíquico como um fenômeno individual e isolado. Ele nasce para falar de uma dor específica, profunda e sistematicamente negligenciada: a dor dos filhos e filhas do feminicídio.

Quando uma mulher é assassinada por ser mulher, não é apenas uma vida que se perde. O feminicídio não mata somente a mulher: ele reorganiza brutalmente o mundo ao redor. Ele interrompe infâncias, rompe laços, cria silêncios e inaugura lutos precoces. Crianças acordam no dia seguinte sem mãe. Em muitos casos, acordam também sem pai — seja porque ele foi o autor do crime, seja porque desapareceu, foi preso ou se matou. O feminicídio cria órfãos, mas o Estado insiste em tratá-los como efeito colateral, nunca como centro da política pública.

Os dados são duros, mas necessários. O Brasil está entre os países que mais registram feminicídios no mundo. A cada ano, milhares de mulheres são mortas em contextos de violência doméstica e familiar. Especialistas apontam que, para cada mulher assassinada, ao menos uma criança fica órfã. Muitas vezes são duas, três ou mais. Isso significa milhares de crianças crescendo com uma ausência que não é natural, mas produzida por uma estrutura social que normaliza o controle, a posse e a violência contra as mulheres.

Essas crianças não aparecem nas campanhas de Janeiro Branco. Seus nomes raramente são ditos. Suas histórias surgem apenas em notas de rodapé de reportagens ou em processos judiciais. Mas elas existem — e resistem — em um cotidiano atravessado por trauma, insegurança, estigmatização e abandono institucional. Muitas desenvolvem ansiedade, depressão, dificuldades escolares, comportamentos regressivos, medo constante e culpa. Outras aprendem cedo demais a silenciar a própria dor para sobreviver.

Simone de Beauvoir nos ensinou que não se nasce mulher, torna-se. Essa afirmação revela que a condição feminina é socialmente construída em um sistema que distribui desigualdades e violências. O feminicídio é a expressão extrema desse sistema. Ele não é um desvio individual, mas o resultado lógico de uma cultura patriarcal que ensina homens a controlar e mulheres a suportar. Os filhos do feminicídio herdam as consequências desse processo. Eles não são apenas órfãos de mães; são herdeiros de uma violência social que continua operando após a morte.

Chimamanda Ngozi Adichie alerta para o perigo da história única. Quando falamos dos filhos do feminicídio apenas como vítimas passivas, corremos o risco de apagá-los novamente. Essas crianças também constroem estratégias de sobrevivência, criam vínculos, resistem, sonham. No entanto, reconhecer sua força não pode servir de desculpa para a negligência do Estado. Pelo contrário: exige políticas públicas contínuas, intersetoriais e comprometidas com o cuidado integral.

Heleieth Saffioti nos ajuda a compreender que o feminicídio está inserido em um sistema patriarcal articulado ao capitalismo e ao racismo. No Brasil, as principais vítimas do feminicídio são mulheres negras e pobres. Consequentemente, os filhos e filhas do feminicídio também são majoritariamente negros e pobres. Isso significa menos acesso à terapia, menos redes de apoio, maior exposição à violência policial, à insegurança alimentar e à institucionalização. O luto dessas crianças é atravessado pelo racismo estrutural e pela desigualdade de classe.

histórias que insistem em existir apesar do silêncio. Crianças que desenham a mãe todos os dias para não esquecê-la. Meninos que se recusam a falar o nome do pai porque foi ele quem matou a mulher que lhes deu a vida. Irmãos separados pelo sistema de acolhimento porque ninguém conseguiu ou quis ficar com todos. Avós que envelhecem de repente, sobrecarregadas pelo cuidado e pelo próprio luto. Essas histórias não são exceções: são sintomas de uma sociedade que falha repetidamente.

Janeiro Branco precisa ser mais do que uma campanha simbólica. Precisa ser um chamado político. Saúde mental não pode ser privilégio de quem pode pagar. Ela precisa ser tratada como direito social, especialmente para crianças marcadas por violências extremas. Isso exige investimento público, formação continuada de profissionais, articulação entre saúde, assistência social, educação e justiça. Exige também memória.

A memória é uma forma de justiça. Essas crianças têm direito à memória de suas mães. Não à memória sensacionalista, mas à memória digna. Dizer seus nomes. Contar suas histórias. Reconhecer que foram vítimas de uma sociedade que falhou em protegê-las. Esquecer é repetir.

Ser radical, aqui, não é ser violento. É ser responsável. É ir à raiz do problema. É recusar soluções superficiais para dores profundas. É afirmar que enquanto uma única criança carregar sozinha o peso de um feminicídio, não haverá saúde mental plena, nem Janeiro Branco suficiente.

(*) Yasmin Lyra Sousa (foto acima) é estudante de ciências sociais na UESPI e estagiária na Secretaria Estadual das Mulheres

Redação

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