Criminosos estão utilizando ferramentas de inteligência artificial para transformar fotografias comuns em imagens falsas de nudez e, posteriormente, ameaçar as vítimas. O alerta foi divulgado pelo delegado Herdeson Bernardo, da Polícia Civil do Piauí, diante do avanço do chamado “golpe da nudez”.
Na prática, os golpistas retiram fotografias publicadas em perfis abertos nas redes sociais, especialmente imagens de corpo inteiro. Com o auxílio de programas de inteligência artificial, eles alteram a foto para simular que a pessoa está sem roupa ou em uma situação sexual.
Embora o conteúdo seja falso, as montagens podem parecer convincentes. Depois de produzir a imagem, os criminosos entram em contato com a vítima e ameaçam enviar o material para familiares, amigos, colegas de trabalho ou seguidores, caso não recebam determinada quantia em dinheiro.
Criminosos usam medo e constrangimento
A estratégia está baseada no impacto emocional provocado pela montagem. Mesmo sabendo que nunca produziu aquela fotografia, a vítima pode entrar em pânico diante da possibilidade de o material falso ser divulgado e interpretado como verdadeiro.
Os criminosos costumam pressionar para que o pagamento seja realizado rapidamente, geralmente por Pix. Também podem enviar capturas de tela com os nomes de familiares e amigos da vítima, obtidos no próprio perfil social, para tornar a ameaça mais convincente.
O alerta divulgado pelo delegado Herdeson Bernardo, da Polícia Civil do Piauí, nas redes sociais,eson Bernardo ressalta que a imagem é um produto de manipulação digital e não representa uma situação real. A orientação é não pagar qualquer quantia nem negociar com os golpistas.
A Polícia Federal também orienta as vítimas de crimes digitais a preservar mensagens, e-mails e capturas de tela. Apagar o conteúdo antes de fazer o registro pode dificultar a identificação do responsável.
Após reunir as provas, a vítima deve registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil. Quando possível, é recomendável levar o aparelho utilizado para receber as ameaças e não modificar os arquivos originais.
Não faça pagamento
A transferência do dinheiro não garante que a montagem será apagada. Ao perceber que a vítima está disposta a pagar, o criminoso pode exigir novos valores e ampliar as ameaças.
Também não é aconselhável encaminhar documentos pessoais, senhas ou novas fotografias. Os golpistas podem usar esse material para criar outras montagens, invadir contas ou praticar fraudes em nome da vítima.
Quem já realizou uma transferência deve procurar imediatamente o banco e solicitar a abertura do Mecanismo Especial de Devolução do Pix. O procedimento não assegura a recuperação do valor, mas permite que a instituição financeira analise a operação e tente bloquear recursos ainda disponíveis na conta de destino.
Como reduzir o risco
A Polícia Civil recomenda cautela ao publicar fotografias em perfis abertos. Imagens em alta resolução e de corpo inteiro fornecem mais elementos para ferramentas de manipulação digital.
Algumas medidas podem diminuir a exposição:
Manter o perfil restrito a pessoas conhecidas;
Revisar periodicamente a lista de seguidores;
Evitar aceitar solicitações de desconhecidos;
Ocultar telefone, endereço e local de trabalho;
Ativar a autenticação em dois fatores;
Não utilizar a mesma senha em diferentes serviços;
Limitar quem pode visualizar fotos e marcações;
Desconfiar de mensagens que exijam pagamento imediato.
Esses cuidados reduzem os riscos, mas não transferem a responsabilidade para a vítima. A culpa pela produção ou divulgação da montagem é exclusivamente de quem manipula e utiliza indevidamente a imagem.
Ferramenta ajuda a impedir compartilhamento
Pessoas maiores de 18 anos podem recorrer ao StopNCII.org, serviço gratuito criado para auxiliar vítimas de divulgação não consentida de imagens íntimas.
A ferramenta produz uma espécie de impressão digital do arquivo, conhecida como hash, diretamente no aparelho da vítima. A fotografia não é enviada nem armazenada pelo serviço. Somente essa identificação digital é compartilhada com as plataformas participantes para ajudar a localizar e impedir novas publicações do mesmo conteúdo.
A ferramenta não substitui o boletim de ocorrência nem assegura a remoção de todas as cópias existentes na internet. A vítima também deve denunciar a postagem diretamente à rede social em que ela foi publicada.
Montagem deve ser identificada como falsa
Ao procurar ajuda, a vítima deve esclarecer que o conteúdo foi produzido por inteligência artificial. Não é necessário divulgar novamente a imagem para provar que ela é falsa. O compartilhamento repetido, ainda que acompanhado de explicações, pode aumentar a exposição e dificultar sua remoção. Familiares e amigos que receberem esse tipo de montagem também não devem encaminhá-la. O correto é preservar o link, denunciar o perfil responsável e avisar a vítima de forma reservada.