Saúde

COVID-19

"Cavamos a cova do nosso pai"; sobreviventes da Covid relembram perdas e dor sem despedida

Histórias de despedidas impossíveis e perdas familiares mostram como a Covid-19 continua presente na memória de quem enfrentou a pandemia no Nordeste

Por Isabel Fonseca (*)

Quinta - 12/03/2026 às 07:41



Foto: Álbum da família José Teixeira e Etnéa Teixeira: casal teve Covid-19; José não resistiu a gravidade da doença
José Teixeira e Etnéa Teixeira: casal teve Covid-19; José não resistiu a gravidade da doença

Histórias de luto e superação seis anos após o inicio da pandemia da Covid-19 revelam como a doença marcou famílias no Piauí. Desde 2020, o estado registrou mais de 441 mil casos da doença, deixando cicatrizes na vida de quem enfrentou a perda de parentes e o medo constante do vírus.

Dados atualizados do painel epidemiológico da Secretaria de Estado da Saúde (Sesapi) mostram que o Piauí contabilizou 441.846 casos positivos e 8.472 mortes por Covid-19 desde 2020, além de mais de 590 mil notificações inconclusivas e 292 mil casos descartados. Apesar de a situação atual ser mais controlada, os números indicam que o vírus ainda circula e continua sendo monitorado pelas autoridades sanitárias.

Em 2025, o estado registrou 2.971 casos positivos e 23 mortes pela doença. Embora os números sejam muito menores do que os registrados nos anos mais críticos, especialistas alertam que o vírus continua circulando. Por isso, autoridades de saúde reforçam a importância de manter a vacinação atualizada e procurar atendimento médico ao apresentar sintomas respiratórios, como: febre, tosse, dor de garganta, cansaço ou fadiga, dor de cabeça, congestão ou coriza nasal, falta de ar ou dificuldade para respirar.

O caos no início da pandemia

Entre as pessoas que viveram a pandemia de forma intensa está Libiny de Paula dos Santos Fonseca. Ela contraiu a doença nos primeiros meses da crise sanitária, quando ainda havia muitas incertezas e não existia vacina disponível.

Libiny lembra que os primeiros sintomas foram semelhantes aos relatados por muitos pacientes naquele período: febre, cansaço intenso, irritação na garganta, perda de apetite e perda do olfato. Mais difícil do que os efeitos físicos, porém, foi o impacto emocional. Segundo ela, vários membros da família adoeceram ao mesmo tempo. Mesmo debilitada, precisou reunir forças para cuidar da casa, do marido, da filha e da sogra idosa da família.

O momento mais traumático veio com a morte do pai, José Teixeira, diagnosticado com Covid-19 no início da pandemia. Por causa das restrições sanitárias e do grande número de mortes naquele período, a família não conseguiu realizar uma despedida tradicional.

Foi caixão fechado. Além de saber que meu pai tinha falecido, não conseguimos vê-lo depois da morte. Eu tive que identificá-lo por uma foto mostrada pelo médico, porque meus irmãos não tiveram coragem.

Ao relembrar o período mais crítico da pandemia, ela afirma que as memórias ainda são marcadas por muita dor. A angústia de buscar informações sobre o estado de saúde do pai, somada à impossibilidade de ter contato direto com ele durante a internação, tornou a experiência ainda mais difícil. 

Para ela, a falta de acesso aos familiares hospitalizados representou a perda de um direito tanto para quem aguardava notícias quanto para os próprios pacientes, que também ficavam sem saber o que acontecia fora do hospital. A situação, afirma, teve um impacto psicológico profundo e afetou a saúde mental de muitas pessoas.

A dor da perda ainda se misturou ao desespero diante da falta de estrutura naquele momento crítico da pandemia. No dia do sepultamento, a família precisou lidar com uma situação que, segundo Libiny, tornou o processo de luto ainda mais difícil.

Nós, os filhos, tivemos que cavar a cova do nosso próprio pai. Não havia coveiro e ele tinha que ser enterrado as pressas.

Ao refletir sobre os impactos deixados pela pandemia, ela também destacou o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) e no enfrentamento da crise sanitária. Para ela, o período evidenciou a importância de investir continuamente na área da saúde e mostrou como a existência de uma estrutura pública já consolidada fez diferença no atendimento à população brasileira.

A pandemia foi uma prova também para ver o quanto precisa se investir na saúde. Claro que o SUS é uma bênção, foi uma bênção, um privilégio que muitas nações não tiveram. O fato de ele já estar instalado, de não precisar ser criado em meio à crise para gerar ainda mais gastos, e já estar ali pronto para atender o povo, foi uma bênção.

Ao falar sobre os aprendizados deixados pela pandemia, Libiny ressaltou a importância de valorizar os cuidados com a saúde, mesmo em situações que parecem pequenas. Segundo ela, muitas pessoas acabam negligenciando sinais ou cuidados básicos, o que pode agravar problemas e sobrecarregar o sistema de saúde.

A família de Patrícia Carvalho foi devastada. A mãe Regina, e o irmão Samuel, morreram de Covid 19 A dor de perder dois familiares

A pandemia também mudou radicalmente a vida da publicitária Patrícia Carvalho. Ela relembrou que no início de 2020, não imaginava que o vírus teria consequências tão devastadoras e que a percepção da gravidade só veio quando os casos começaram a crescer rapidamente e as cidades passaram a adotar medidas de isolamento. 

Na ocasião, ela estava na academia, em um sábado, quando assistiu na televisão a uma reportagem sobre o aumento de infecções e as primeiras mortes causadas pela doença. A partir daquele momento, diz ter percebido a dimensão do problema que a pandemia representaria no mundo. Cerca de três dias depois, tudo foi fechado e a quarentena começou de fato.

Após alguns meses, a Covid-19 chegou à sua família. Patrícia contraiu a doença com sintomas leves e conseguiu se recuperar em casa, isolada no quarto.

O cenário se agravou quando o irmão Samuel, de 34 anos, começou a apresentar sintomas mais fortes e precisou ser hospitalizado. Sete dias depois, a mãe, Regina, 62 anos, também foi internada em outro hospital.

Achávamos que ele voltaria para casa como aconteceu comigo, mas foram dias terríveis de angústia.

Por causa das restrições sanitárias da época, a família não podia acompanhar os pacientes na UTI. As informações sobre o estado de saúde chegavam apenas por telefone, através de boletins médicos diários.

A primeira perda foi a do irmão. Três dias depois, veio a notícia da morte da mãe.

Patrícia afirma que receber a notícia da morte de um ente querido é um trauma e que, até hoje, ainda parece inacreditável a ideia de não tê-los mais fisicamente. A piauiense também relata que a equipe do hospital onde o irmão estava internado sabia que a mãe dela também estava hospitalizada em estado grave e, por isso, teve o cuidado de comunicar primeiro outro familiar antes de dar a notícia diretamente a ela.

Recebi a notícia do falecido do meu irmão pelo médico do plantão do hospital que ele estava internado. Com toda a certeza, saber do falecimento dele foi a pior dor que já senti. A notícia do falecimento da minha mãe veio três dias depois. Eu e meu pai com os corações já devastados.

Ao relembrar o período, ela avalia que a pandemia foi um momento delicado que colocou à prova a consciência e a humanidade das pessoas. Segundo ela, enquanto alguns demonstraram preocupação com o coletivo, outros ignoraram a gravidade da situação. Ainda assim, considera que a sociedade viveu uma experiência social marcante, da qual foi possível tirar aprendizados, embora da forma mais difícil.

Patricia afirmou ainda que é fundamental que as pessoas lembrem que a Ciência prevalece e que a pandemia também ensinou, no campo humano e espiritual, a importância da resiliência, da solidariedade e do cuidado com o próximo, além da necessidade de respeitar medidas sanitárias. 

Como mensagem final para quem também perdeu familiares no período, ela destaca a importância de encontrar força para lidar com uma perda tão dolorosa, agravada pelo fato de que muitos não puderam sequer cuidar ou estar próximos de seus entes queridos, tornando a distância ainda mais difícil de suportar.

Foi um período delicado que testou a consciência e humanidade das pessoas, vimos uns se preocupando com o coletivo e outros não dando a mínima. Tivemos uma experiência social onde aprendemos coisas, porém da pior forma possível.

Brasil foi um dos países com mais mortes por Covid-19

Durante os anos mais críticos da pandemia, o Brasil figurou entre os países mais afetados do mundo pela Covid-19. Em números absolutos, o país ocupou a segunda posição no ranking global de mortes, além de registrar o terceiro maior número de casos confirmados. Ao mesmo tempo, foi o quarto país que mais aplicou doses de vacinas contra a doença. Quando considerados os dados proporcionais à população, o Brasil aparece na 8ª posição em óbitos, 28ª em casos e 59ª em doses administradas, evidenciando o impacto da pandemia no país e os desafios enfrentados no combate ao vírus.

Especialistas apontam que a gravidade da crise sanitária no país foi agravada por conflitos políticos e pela demora na adoção de medidas coordenadas de enfrentamento à pandemia. O então presidente Jair Bolsonaro chegou a minimizar publicamente a gravidade da doença, classificando a Covid-19 como uma “gripezinha” ou “resfriadinho” em declarações feitas em 2020, além de criticar medidas de distanciamento social adotadas por estados e municípios.

No Brasil, as regiões Sudeste e Nordeste concentraram grande parte dos óbitos devido à alta densidade populacional e à pressão sobre os sistemas de saúde durante os picos da pandemia. Capitais nordestinas como Fortaleza estiveram entre as mais afetadas da região, registrando altos índices de mortalidade em diferentes momentos.

(*) Isabel Fonseca é estagiária de jornalismo sob supervisão da jornalista Malu Barreto

Fonte: WorldoMeter e Sesapi

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