REPRESENTAÇÃO FEMININA
Natalia Costa
10 de agosto de 2026 às 11:13 ▪ Atualizado há 1 hora
Em um país onde as mulheres são maioria da população e também representam mais da metade do eleitorado, a eleição de 2026 chega, até o momento, com apenas uma mulher oficialmente confirmada na disputa pela Presidência da República: Samara Martins, da Unidade Popular (UP). Aos 38 anos, a dentista do Sistema Único de Saúde (SUS) lidera uma chapa formada exclusivamente por mulheres, com Raquel Brício como candidata a vice-presidente. A candidatura foi oficializada pelo partido em julho.
O contraste ajuda a dimensionar o tamanho da sub-representação feminina na política brasileira. De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tinha cerca de 104,5 milhões de mulheres, correspondentes a 51,5% da população, contra 98,5 milhões de homens. São aproximadamente 6 milhões de mulheres a mais.
No eleitorado, a diferença é ainda maior. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que, em janeiro de 2026, as mulheres representavam quase 53% dos 156,2 milhões de eleitores brasileiros, somando mais de 82,5 milhões de eleitoras.
Apesar disso, a participação feminina nos espaços de decisão permanece distante da proporção da sociedade.
Mulheres são maioria da população, mas minoria no Congresso
Nas eleições gerais de 2022, as mulheres representaram 34% das candidaturas, mas corresponderam a apenas 18% do total de pessoas eleitas. Naquele pleito, 91 mulheres foram eleitas para a Câmara dos Deputados, equivalente a 17,7% das 513 cadeiras. No Senado, apenas quatro mulheres foram eleitas entre as 27 vagas em disputa, o equivalente a 14,8%.
A fotografia do Congresso continua revelando essa diferença. Em fevereiro de 2026, o Senado informou que as mulheres ocupavam 19,7% das cadeiras da Casa, enquanto representam 51,5% da população brasileira.
No Executivo federal, a presença feminina também é menor que a masculina. O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2026, produzido pelo Ministério das Mulheres, aponta que, em outubro de 2025, havia 10 mulheres entre 38 ministras e ministros de Estado, incluindo secretarias com status de ministério. Elas representavam 26% do total.
Os números ajudam a contextualizar uma das principais bandeiras apresentadas por Samara: ampliar a participação das mulheres nos espaços de poder.
“As mulheres estão à frente do partido”
A candidata Samara Martins afirma que a composição da chapa da UP é uma forma de colocar o protagonismo feminino no centro da disputa eleitoral.
“As mulheres estão à frente do partido”, afirma Samara Martins ao STB News.
A candidata defende mudanças na legislação para ampliar a presença de mulheres e pessoas negras nos espaços de decisão. Entre as propostas apresentadas por ela estão a criminalização da misoginia, a responsabilização das plataformas digitais pela divulgação de conteúdos de ódio contra mulheres e a inclusão da educação sobre igualdade de gênero nas escolas.
A chapa também é um marco dentro da própria trajetória eleitoral de Samara. Em 2022, ela disputou a Vice-Presidência da República ao lado de Léo Péricles, presidente nacional da UP. Agora, pela primeira vez, encabeça uma candidatura presidencial.
Dentista do SUS, mãe de dois filhos e com trajetória construída em movimentos sociais e estudantis, Samara foi diretora de Mulheres da União Nacional dos Estudantes (UNE) e integrou a Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas da Grande Belo Horizonte (AMES-BH).
Desigualdade política vai além da Presidência
O cenário brasileiro não se resume à ausência de mulheres na corrida presidencial. Dados do próprio TSE mostram que, entre 2016 e 2022, as mulheres representaram, em média, 52% do eleitorado, 33% das candidaturas e apenas 15% das pessoas eleitas. Nas eleições gerais de 2022, especificamente, elas chegaram a 18% dos eleitos.
Nas eleições municipais de 2024, o TSE registrou 456.310 candidaturas, das quais cerca de 155 mil eram de mulheres, o equivalente a 33%. Ao final do pleito, 733 mulheres foram eleitas prefeitas e 12.380 conquistaram vagas de vereadoras em todo o país.
O próprio sistema eleitoral estabelece atualmente uma reserva mínima de 30% das candidaturas de cada gênero nas disputas proporcionais, como para deputados e vereadores. Em 2026, um projeto em análise na Câmara dos Deputados propõe substituir essa cota fixa por um percentual vinculado à proporção de mulheres na população, que hoje seria de 51,5% segundo o Censo 2022.
Feminicídio e participação política
É nesse contexto que Samara coloca o combate à violência contra as mulheres entre as prioridades de sua candidatura. Para ela, a desigualdade de gênero não se manifesta apenas na ocupação de cargos públicos, mas também na violência, na participação social e no acesso a direitos.
A candidata defende a criminalização da misoginia e políticas de enfrentamento ao feminicídio, além de medidas voltadas à educação e ao combate ao discurso de ódio no ambiente digital.
A pauta também aparece entre as ações do atual governo federal. Em 2026, o Ministério das Mulheres mantém iniciativas de enfrentamento à violência contra as mulheres e coordena ações relacionadas ao Pacto Brasil contra o Feminicídio.
Economia, saúde e segurança
Além da agenda de gênero, Samara apresenta propostas para diferentes áreas. Na economia, defende a industrialização brasileira, maior soberania econômica e a suspensão do pagamento da dívida pública para ampliar investimentos em setores como saúde e educação.
Na política externa, critica o que considera uma relação de submissão aos interesses econômicos dos Estados Unidos e defende maior cooperação entre países.
Para a segurança pública, a candidata propõe priorizar políticas sociais, com investimentos em educação, saúde, moradia e geração de oportunidades. Ela é contrária à redução da maioridade penal e afirma que o encarceramento e o endurecimento das leis não resolveram o problema da insegurança.
Na saúde, defende o fortalecimento do SUS e afirma que o principal problema do sistema é o subfinanciamento. A candidata se posiciona contra a privatização e propõe uma reforma sanitária voltada à ampliação do acesso aos serviços públicos.
A candidatura de Samara Martins, portanto, chega à eleição de 2026 marcada não apenas pelo fato de ser, até o momento, a única mulher na disputa pelo Palácio do Planalto, mas também por colocar em evidência uma questão que atravessa diferentes níveis da política brasileira: como uma população formada majoritariamente por mulheres ainda elege e mantém tão poucas mulheres nos principais espaços de poder?
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