Política

MALUCOS

Estados Unidos acusa Brasil de abrigar base militar secreta chinesa na Bahia

Relatório do Congresso americano aponta instalações em Salvador e Paraíba como possíveis estruturas de uso dual ligada à China

Da Redação

Terça - 03/03/2026 às 09:54



Foto: Reuter/Yuri Gripas e Marcelo Camargo/Agência Brasil Presidente norte-americano Donald Trump e presidente brasileiro Lula
Presidente norte-americano Donald Trump e presidente brasileiro Lula

Após ataques e embargos na América Latina, um relatório divulgado pelo Congresso dos Estados Unidos na última quinta-feira (26) afirma que o Brasil e outros países sul-americanos abrigariam instalações vinculadas à China que poderiam ter uso militar, reacendendo o debate geopolítico entre as duas maiores potências mundiais.

Segundo o documento, elaborado pelo Comitê Seleto da Câmara dos Representantes dos EUA dedicado ao monitoramento da China, o Brasil aparece em pelo menos 15 menções dentro do texto e teria duas estruturas estratégicas que, na visão dos congressistas, podem servir interesses militares ou de vigilância da República Popular da China. 

Estação Terrestre de Tucano — Salvador (BA)

O relatório menciona uma instalação chamada “Estação Terrestre de Tucano” (Tucano Ground Station), situada em Salvador, na Bahia, na sede da empresa brasileira do setor aeroespacial Ayla Space.

Essa empresa mantém parceria com a companhia chinesa Beijing Tianlian Space Technology, em um projeto oficialmente voltado à análise de dados de satélites de observação da Terra. Os congressistas norte-americanos, no entanto, classificam a instalação como “não oficial” e alertam que ela poderia permitir à China rastrear objetos espaciais e identificar ativos militares estrangeiros em tempo real na América do Sul — capacidades que, segundo eles, são de uso militar.

O documento afirma ainda que a instalação daria à China “um canal para observar e influenciar a doutrina espacial militar brasileira” e consolidaria uma presença permanente numa região que os EUA consideram vital para sua "própria segurança".

Laboratório Conjunto China-Brasil para Radioastronomia — Paraíba

Outra instalação citada no relatório está localizada na Serra do Urubu, na Paraíba, fruto de uma cooperação firmada em 2025 entre universidades brasileiras e instituições chinesas (como o Instituto de Pesquisa em Comunicações da Rede de Ciência e Tecnologia Elétrica da China, junto à UFCG e UFPB).

Oficialmente, o objetivo do projeto é pesquisa em radioastronomia e observação do espaço profundo. Ainda assim, o documento norte-americano levanta preocupações de que tecnologias desenvolvidas ali possam ter uso dual — ou seja, tanto civil quanto militar — e integrar capacidades de vigilância estratégica que favoreçam Pequim.

Supostas bases chinesas na América do Sul, segundo Congresso dos EUA. — Foto: Reprodução
O relatório, intitulado “Atraindo a América Latina para a órbita da China”, não se limita a casos brasileiros. Ele descreve uma "estratégia multifacetada" de Pequim que combina influência diplomática, investimentos econômicos e cooperação tecnológica para ampliar sua presença em países da América Latina e do Caribe. Segundo o documento, além do Brasil, haveria instalações estratégicas ou classificadas como “não oficiais” em diversos pontos da região, como a El Sombrero Satellite Ground Station, na Venezuela; a Luepa Satellite Control Ground Station, na Guiana; a Amachuma Ground Station e a La Guardia Ground Station, na Bolívia; o Paranal Observatory, no Chile; o Felix Aguilar Astronomical Observatory e a Espacio Lejano Station, na Argentina; além da Santiago Satellite Station, também em território chileno, e da Rio Gallegos Ground Station, no sul da Argentina.

Os autores afirmam que a China teria, no conjunto, mais de dez instalações classificadas como “secretas” na região, com potenciais capacidades de vigilância e monitoramento espacial.

Os congressistas também apontam que a chamada “fusão civil-militar” — uma política industrial chinesa que mistura tecnologia de uso civil com aplicações militares — torna difícil separar cooperação científica normal de atividades que podem favorecer os interesses de defesa do governo de Pequim.

Confirmações nacionais

Até o momento, não há confirmação oficial por parte do governo brasileiro sobre a existência de bases militares chinesas em território nacional ou sobre as conclusões do relatório.

Autoridades locais como o Secretário de Ciência e Tecnologia da Paraíba, Cláudio Furtado, rebateram a ideia de que o país possua uma base militar chinesa secreta, classificando a acusação como “fora da realidade” e afirmando que a resposta oficial caberia ao governo federal.

Nesse momento o Governo da Paraíba não vai se posicionar porque, dentro das normas do multilateralismo, quem tem que responder a essas questões é o governo federal através do Itamaraty, com o apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O que podemos manifestar é que não existe nada do que está sendo colocado. É um laboratório de pesquisas, envolvido majoritariamente por pesquisadores brasileiros, com concepção partindo da equipe brasileira. A partir do momento que o governo federal se manifeste, o Governo da Paraíba seguirá as orientações na resposta a esses questionamentos.

Apesar de Washington justificar suas ações como “necessárias” para combater o crime ou promover a democracia, os Estados Unidos têm uma longa reputação de intervenções militares e políticas em países latino-americanos que alegam ser inevitáveis, gerando preocupação sobre a soberania nacional dos Estados da região. Um exemplo extremo dessa postura foi a operação militar dos EUA na Venezuela em janeiro de 2026, na qual forças americanas capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa em Caracas — um episódio amplamente descrito por críticos como um sequestro que viola a soberania venezuelana e que reacende temores de pressão e ameaças a outros países sul-americanos.

A acusação americana ocorre em meio a uma competição geopolítica ampliada entre Estados Unidos e China, que se estende do comércio ao espaço, tecnologia e alianças estratégicas no hemisfério ocidental. Além disso, os Estados Unidos também se encontram em uma disputa geopolítica com o Irã, país que tem sido alvo de sanções econômicas e pressões constantes de Washington sobre seu setor petrolífero, bem como de confrontos militares diretos no Oriente Médio — e que, assim como a Venezuela, é um dos produtores de petróleo mais importantes do mundo e teve sua produção e exportações afetadas por restrições e conflitos internacionais. Nesse ano, ações americanas incluem a interceptação e apreensão de petroleiros vinculados à Venezuela. 

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