Política

ELEIÇÕES 2026

Ciro Nogueira está com medo de perder eleição no Piauí, revela matéria da Folha de SP

Ex-ministro de Bolsonaro teria pedido ajuda ao presidente Lula em troca de afastar PP de Flávio Bolsonaro na disputa ao Planalto

Da Redação

Sexta - 06/02/2026 às 15:43



Foto: Redes sociais Ciro Nogueira não demonstrou entusiasmo com Flávio Bolsonaro
Ciro Nogueira não demonstrou entusiasmo com Flávio Bolsonaro

Uma ampla reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (06) revela um encontro reservado entre o senador e ex-ministro da Casa Civil Ciro Nogueira (PP) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizado no final do ano passado na Granja do Torto, residência oficial da Presidência. Mas a revelação mais importante da matéria é a motivação do encontro: o medo de Ciro Nogueira de ser derrotado na sua tentativa de reeleição para o Senado pelo Piauí em outubro deste ano.

De acordo com a publicação, a reunião foi testemunhada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e teria sido solicitada pelo próprio Ciro. O objetivo era pedir ajuda eleitoral a Lula. Em troca, Ciro Nogueira teria prometido trabalhar para afastar o PP da candidatura de Flávio Bolsonaro a presidência da República. A matéria da Folha é assinada pelos jornalista Augusto Tenório, Caio Spechoto e pela jornalista Catia Seabra 

Razão de ser

O receio do senador não é sem razão e reflete um cenário eleitoral estadual desfavorável, como vêm indicando algumas pesquisas de intenção de voto. No Piauí, a chapa governista liderada pelo PT já está definida e consolidada, formando uma forte aliançaeleitoral. O governador Rafael Fonteles (PT) é candidato à reeleição, tendo como vice o também petista Washington Bandeira.

Para as duas vagas em disputa no Senado Federal, a base aliada ao governo Lula no Piauí lançará o senador Marcelo Castro (MDB), e o deputado federal Júlio César (PSD). A força dessa chapa, somada à popularidade do governador, representa um obstáculo considerável à ambição de Ciro Nogueira de permanecer no Senado.

A reportagem da Folha e análises políticas recentes apontam que uma das evidências concretas dessa tentativa de aproximação com o Palácio do Planalto é a mudança no discurso público de Ciro Nogueira. O senador, que foi um dos pilares do governo Bolsonaro, praticamente deixou de atacar o presidente Lula e sua gestão nos últimos meses, adotando um perfil mais moderado e, por vezes, até colaborativo em votações no Congresso, em contraste com a linha de oposição ferrenha de parte de seu partido, o PP.

A manobra ilustra a complexidade das alianças no presidencialismo de coalizão brasileiro, onde figuras de oposição podem buscar entendimentos pontuais para garantir sobrevivência política em seus redutos estaduais. A eleição para o Senado no Piauí em 2026 promete ser um dos embates mais acirrados e simbólicos do pleito, testando a força do bolsonarismo local frente à máquina governista petista.

A seguir, a íntegra da matéria da Folha de São Paulo:

"Ciro Nogueira encontrou Lula e ofereceu afastar PP de Flávio Bolsonaro por acordo no Piauí

Senador e ex-ministro de Bolsonaro busca afastar risco de não se reeleger em estado lulista; ele nega a reunião, confirmada por 5 pessoas

Encontro foi sigiloso, em 23 de dezembro, e teve o presidente da Câmara, Hugo Motta, como intermediário

Chefe da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro (PL), o presidente do PP, Ciro Nogueira (PI), foi recebido pelo presidente Lula (PT) na antevéspera do Natal. O encontro ocorreu na Granja do Torto, a pedido do senador, no dia 23 de dezembro e contou com a participação do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Descrita pelos participantes como cordial, a conversa, não registrada na agenda do petista, teve o objetivo de reaproximar Nogueira de Lula, sob o patrocínio de Motta. Segundo relatos, o chefe do PP procurou o presidente em busca de um acordo para renovar seu mandato de senador pelo Piauí, estado governado pelo PT.

De acordo com políticos que estão dos dois lados da negociação, Nogueira articula a formação de um pacto segundo o qual Lula apoiaria enfaticamente apenas um candidato para o Senado, o também senador Marcelo Castro (MDB). Isso facilitaria a reeleição do presidente do PP, uma vez que haverá duas vagas em disputa em outubro deste ano.

Ao confirmar o encontro, um aliado de Nogueira disse que ele quer que o governo e o PT não atrapalhem sua candidatura, acenando, em troca, com uma neutralidade do PP na disputa presidencial. Por essa proposta, o partido não se aliaria formalmente ao pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na disputa contra Lula.

O PP anunciou a formação de uma federação partidária com o União Brasil, chamada União Progressista. As duas legendas, juntas, constituiriam a maior bancada da Câmara dos Deputados e seriam obrigadas a agir em conjunto na eleição nacional. Ciro Nogueira é um dos principais líderes dessa associação de partidos, que ainda não foi definitivamente reconhecida pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Confirmada por cinco pessoas, a reunião entre o presidente e o senador serviu para reduzir tensões entre os dois, que, ao final, trocaram juras de afeição. Ao falar sobre a possibilidade de um acordo com o senador no Piauí, um aliado de Lula –simpático à articulação– disse que o presidente gosta de Nogueira.

Na conversa, o senador fez questão de ressaltar a boa relação com Motta, referindo-se ao presidente da Câmara como uma espécie de filho seu.

De acordo com relatos, Ciro Nogueira também destacou que manteve lealdade a Bolsonaro até o fim, mas mencionou ter sido um dos primeiros a reconhecer a vitória de Lula em 2022 —enquanto o bolsonarismo relutava em admitir a derrota. Essa parte da conversa foi entendida como um sinal de que o senador pode ser leal ao petista em um eventual novo mandato. 

Na avaliação de aliados com quem Lula conversou, o presidente dá sinais de simpatia à proposta de Nogueira.

Nesse encontro, o senador mostrou preocupação com a possibilidade de vazamento da conversa —tanto que, procurado pela Folha, negou ter falado com Lula. Mesmo aliados do presidente do PP confirmaram que ele tem estreitado conversas com vistas à campanha eleitoral.

O senador ficou identificado com o bolsonarismo nos últimos anos, e o fato de ter se encontrado com o atual presidente deverá causar desgaste junto a esse público e a políticos de direita.

Um realinhamento entre Lula e Ciro Nogueira enfrentaria forte rejeição no PT do Piauí. Por isso, o governador Rafael Fonteles (PT), que concorrerá à reeleição, e o ministro Wellington Dias (Desenvolvimento Social) ainda não teriam sido informados do encontro.

Dizendo desconhecer essa conversa, o presidente estadual do PT do Piauí, Fábio Novo, recorda que Nogueira se elegeu duas vezes com aval de Lula, tendo traído esse acordo depois. "Não temos o direito de errar uma terceira vez", disse. Líderes nacionais do partido também não gostariam de ajudar Ciro Nogueira.

Além disso, a chapa costurada pelo PT no estado tem o deputado Júlio César (PSD) como pré-candidato ao Senado. E uma ruptura poderia contrariar o presidente do PSD, Gilberto Kassab, com quem Lula também precisa manter boa relação.

O Piauí é um estado majoritariamente lulista. Na eleição de 2022, o petista recebeu 76,8% dos votos válidos na disputa contra Bolsonaro no segundo turno. Dessa forma, caciques da política piauiense consideram que candidatos que concorram com apoio oficial do Planalto têm uma grande chance de serem eleitos.

Ainda assim, até aliados de Lula reconhecem que o ex-ministro de Bolsonaro tem apoio de muitos prefeitos piauienses –inclusive alguns do PT–, o que lhe dá força eleitoral. O de Cajueiro da Praia (PI), o petista Felipe Ribeiro, por exemplo, declarou apoio ao parlamentar.

Nogueira está em seu segundo mandato como senador. Em 2018 ele foi eleito com apoio de Lula e do PT, fazendo campanha com Fernando Haddad, que venceu Bolsonaro no Piauí com 77,1% dos votos válidos no segundo turno. O senador foi eleito com 29,8% dos votos, sendo o mais votado, com o emedebista Marcelo Castro na segunda vaga, com 27,1%.

Após a derrota de Haddad, porém, Nogueira se aproximou do governo Bolsonaro. A aliança o levou à Casa Civil em julho de 2021. O senador passou a conduzir o PP rumo ao bolsonarismo, mesmo após o ex-chefe ficar sem mandato, rompendo com a tradição do centrão de alinhamento com quem está no poder.

Sem Bolsonaro, Nogueira se tornou entusiasta da candidatura do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) à Presidência. Como o ex-colega de governo Bolsonaro decidiu permanecer em São Paulo, o presidente do PP agora avalia como lidar com o candidato ungido pelo ex-chefe, Flávio Bolsonaro.

Aliados do PP indicam que Ciro sonhou em ser vice de Tarcísio e foi cotado para a vice de Flávio, mas agora tal desejo esfriou. A sigla, que tem uma ala lulista, incluindo um ministro, pode não apoiar formalmente o filho de Bolsonaro e liberar os filiados para aderirem a qualquer campanha nacional".

Fonte: Folha de São Paulo

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