Mundo

PROSTESTOS NA ÍNDIA

Policiais indianos durante protestos contra a revisão das listas eleitorais em Nova Délhi

Manifestações contra a revisão das listas de eleitores provocaram detenções em massa, bloqueios de ruas e suspensão da internet em Nova Délhi. Oposição acusa governo de Narendra Modi de favorecer seu partido; autoridades eleitorais negam irregularidades.

Da Redação

11 de outubro de 2026 às 06:16 ▪ Atualizado há 52 minutos

Ver resumo
  • Mais de 2 mil manifestantes foram detidos em Nova Délhi durante protestos contra a exclusão de 130 milhões de registros eleitorais.
  • Os protestos, liderados por movimentos juvenis e partidos de oposição, exigem a renúncia do presidente da Comissão Eleitoral indiana, Gyanesh Kumar.
  • O governo mobilizou forças de segurança, bloqueou ruas e suspendeu a internet em certas áreas.
  • As exclusões atingem registros duplicados, de falecidos e de pessoas que mudaram de endereço, segundo as autoridades.
  • A oposição acusa o governo de retirar eleitores de minorias e grupos vulneráveis e questiona a independência da Comissão Eleitoral.
  • A ONU demonstrou preocupação com as detenções em massa e pediu respeito aos direitos de reunião pacífica.
  • Manifestantes prometem continuar os protestos, alegando que milhões podem ser impedidos de votar.
  • A crise destaca a importância da transparência e da confiança nas instituições eleitorais, especialmente antes das eleições estaduais de 2027.

Reuters Policiais reprimem manifestações em Nova Délhi, na Índia, contra a revisão das listas eleitorais, no sábado (10)
Policiais reprimem manifestações em Nova Délhi, na Índia, contra a revisão das listas eleitorais, no sábado (10)

A polícia da Índia deteve mais de 2 mil manifestantes em Nova Délhi, no sábado (10), durante protestos contra a retirada de aproximadamente 130 milhões de registros das listas eleitorais do país. As manifestações, lideradas por movimentos juvenis e apoiadas por partidos de oposição, contestam a revisão do cadastro de eleitores e exigem a renúncia do presidente da Comissão Eleitoral indiana, Gyanesh Kumar.

O governo mobilizou milhares de policiais e agentes paramilitares para impedir a concentração de manifestantes na região central da capital. Ruas foram bloqueadas, estações de metrô e mercados tiveram o funcionamento interrompido, e o acesso à internet móvel foi suspenso temporariamente em determinadas áreas. A crise ocorre em um momento de crescente contestação às autoridades eleitorais e ao governo do primeiro-ministro Narendra Modi, cujo partido, o Bharatiya Janata Party (BJP), é acusado pela oposição de se beneficiar da exclusão de eleitores.

A Comissão Eleitoral e o BJP negam manipulação política. Segundo as autoridades, a revisão pretende retirar registros duplicados, de pessoas falecidas, de cidadãos que mudaram de endereço ou de eleitores que não puderam ser localizados. 

Polícia detém milhares na Índia após exclusão de 130 milhões de registros eleitorais

A Índia enfrenta uma onda de manifestações contra mudanças no cadastro eleitoral que resultaram na retirada de aproximadamente 130 milhões de registros das listas de votação. A mobilização também atingiu outras cidades. Em Mumbai, centro financeiro do país. Os manifestantes afirmam que o procedimento pode impedir milhões de cidadãos de exercer o direito ao voto, especialmente integrantes de minorias e grupos socialmente vulneráveis. As autoridades eleitorais rejeitam as acusações e sustentam que a atualização das listas é necessária para eliminar registros irregulares.

Polícia bloqueia ruas e impede concentração de manifestantes

A principal manifestação estava prevista para a região de Jantar Mantar, tradicional espaço de protestos no centro de Nova Délhi. Antes da chegada dos participantes, forças de segurança instalaram barreiras, bloquearam vias e impediram o acesso à área. Milhares de policiais e agentes paramilitares foram mobilizados. Apesar das restrições, pequenos grupos conseguiram realizar manifestações em diferentes pontos da cidade. Durante a operação, manifestantes foram levados em ônibus policiais. 

Movimento juvenil lidera manifestações

Um dos principais organizadores dos protestos é o movimento Cockroach Janta Party (CJP), que surgiu como iniciativa satírica nas redes sociais e passou a atuar na mobilização política de jovens. O grupo exige a renúncia de Gyanesh Kumar e mudanças nos procedimentos de revisão do cadastro eleitoral. Seu fundador, Abhijeet Dipke, e outros dirigentes foram detidos no sábado, após desembarcarem em Nova Délhi. O movimento declarou que pretende continuar as manifestações até que suas reivindicações sejam atendidas. A participação de estudantes e jovens nas mobilizações também está relacionada a protestos anteriores contra problemas na aplicação de exames e no sistema educacional indiano.

Por que 130 milhões de registros foram retirados?

A controvérsia começou com um procedimento denominado Revisão Intensiva Especial, conhecido pela sigla SIR, utilizado para verificar e atualizar as listas eleitorais. Segundo dados da Comissão Eleitoral, aproximadamente 130 milhões de registros foram retirados durante a verificação. Desse total, cerca de 63 milhões estavam associados a pessoas que mudaram de endereço, 30 milhões correspondiam a eleitores que não puderam ser localizados e 28 milhões estavam relacionados a pessoas falecidas. A diferença restante envolve outras categorias administrativas. A Comissão Eleitoral afirma que cidadãos com direito ao voto eventualmente excluídos por engano podem solicitar novo cadastramento.

Entretanto, partidos de oposição e organizações da sociedade civil questionam a transparência do processo e a capacidade dos cidadãos afetados de regularizar a situação a tempo das eleições.  A exclusão administrativa pode ser contestada, embora o processo de regularização também seja alvo de críticas.

Oposição acusa governo Modi de interferência eleitoral

Partidos de oposição afirmam que a revisão pode afetar desproporcionalmente eleitores de minorias religiosas e grupos que tradicionalmente não apoiam o partido governista. O principal partido da oposição, o Congresso Nacional Indiano, também questiona a independência da Comissão Eleitoral. Seu líder, Rahul Gandhi, participou de manifestações anteriores e foi temporariamente detido durante protestos realizados na semana passada.

A oposição sustenta que as exclusões podem ter influenciado eleições estaduais recentes e comprometer a participação dos eleitores em disputas futuras. O governo de Narendra Modi e o BJP negam favorecimento político. Representantes do partido afirmam que a revisão é legítima e acusam adversários de tentar desacreditar o sistema eleitoral. Até o momento, as acusações de manipulação deliberada permanecem contestadas.

ONU manifesta preocupação com detenções

O Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas manifestou preocupação com as detenções em massa e pediu que as autoridades indianas respeitem o direito de reunião pacífica. A organização também defendeu o diálogo para enfrentar as preocupações relacionadas ao processo eleitoral. O governo indiano rejeitou a manifestação internacional, classificando-a como interferência indevida em assuntos internos. Representantes da Índia afirmaram que o direito de manifestação é assegurado pela Constituição, mas está sujeito a restrições legais relacionadas à ordem pública.

Manifestantes voltam às ruas neste domingo

Neste domingo (11), Nova Délhi permaneceu sob forte vigilância policial diante da possibilidade de novas manifestações. A Justiça determinou a libertação de Abhijeet Dipke e de outros dois dirigentes do movimento, mediante condições relacionadas à manutenção da ordem pública. O influenciador Dhruv Rathee, também detido durante os protestos, foi libertado com restrições à participação em novas manifestações. Segundo a polícia, a maioria das pessoas detidas no sábado foi liberada ainda durante a noite. Os organizadores, entretanto, afirmam que continuarão mobilizados para exigir mudanças no processo eleitoral.

Crise coloca direito ao voto no centro do debate

A Índia é considerada a maior democracia eleitoral do mundo em número de eleitores. A retirada de milhões de registros de suas listas eleitorais provoca um debate sobre os limites da fiscalização cadastral e a necessidade de assegurar que cidadãos habilitados não sejam impedidos de votar. De um lado, as autoridades defendem a atualização dos cadastros como instrumento para evitar irregularidades. De outro, movimentos sociais e partidos de oposição exigem transparência, garantias de acesso e mecanismos eficazes de contestação. O conflito expõe a importância da confiança nas instituições eleitorais e da proteção ao direito de participação política. A continuidade dos protestos e a resposta das autoridades deverão determinar os próximos capítulos da crise, que ocorre antes de importantes eleições estaduais previstas para 2027.

Fonte: Reuters