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"JUÍZES NÃO SÃO DEUSES"

STF acaba "prêmio" a juízes acusados de crimes; decisão divide opinião no Judiciário

Enquanto servidores celebram medida como vitória contra a impunidade, juizes alertam para riscos de violação de direitos previdenciários

Por Luíz Brandão e Isabel Fonseca (*)

Segunda - 23/03/2026 às 15:01



Foto: Redes sociais Flávio Dino prega modalidade no serviço público
Flávio Dino prega modalidade no serviço público

A decisão liminar do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou o fim da aposentadoria compulsória com salário integral como punição máxima para magistrados acusados de infrações graves, reacendeu o debate sobre moralidade e privilégios no serviço público, principalmente no Poder Judiciário. 

Enquanto sindicatos dos servidores do Judiciário comemoram a medida como um avanço no combate à desigualdade e ao fim do “tratamento diferenciado” entre servidores e juízes, a Associação Nacional dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) manifestou cautela, alertando para possíveis violações ao princípio da contributividade previdenciária e à segurança jurídica. 

A decisão de Flávio Dino também determina a reavaliação de pelo menos 40 casos de magistrados punidos desde 2019 e coloca em lados opostos as categorias que atuam no Judiciário e promete impactar os rumos da responsabilização disciplinar no país. No Piauí, pelos três casos devem ser atingidos pela decisão do ministro do STF.

O Portal Piauí Hoje dirigentes de entidades representativas do Judiciário sobre a decisão do ministro Flávio Dino, que determinou, em 16 de março de 2026, o fim da aposentadoria compulsória com salário integral como penalidade máxima para juízes e magistrados que cometem infrações graves.

A decisão do ministro estabelece que, a partir de agora, a punição prevista para casos graves será a perda do cargo, eliminando o entendimento anterior de que a aposentadoria funcionava como uma "sanção". O magistrado argumenta que a aposentadoria não pode ser usada como punição administrativa devido à sua natureza previdenciária, especialmente após a Reforma da Previdência de 2019 .

A medida também determina que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) reavalie situações em que essa penalidade foi aplicada, com impacto potencial sobre ao menos 40 magistrados punidos a partir de 2019 .

O que dizem as entidades

O posicionamento das entidades consultadas reflete a divisão de opiniões entre servidores e magistrados sobre o tema.

Madalena Nunes, do Sintrajufe-PI :"Juízes não são deuses"Sintrajufe-PI: "Juízes não são deuses"

Em nota enviada ao Portal Piauí Hoje, Maria Madalena Nunes, uma das diretoras do Sindicado de Trabalhadores no Judiciário Federal do Piauí (Sintrajufe-PI), avaliou a decisão como extremamente positiva e destacou seu impacto no combate a privilégios dentro do serviço público.

"Aposentadoria é um direito e não pode ser usada como artifício para falsa punição. Cometer um crime e ser aposentado representa uma discrepância legal em benefício de poucos, a exemplo de juízes e promotores, quando, ao cometerem crimes, ao invés de serem punidos, são agraciados pela aposentadoria compulsória", afirmou a diretora.

Segundo a entidade, a decisão é "de extrema importância para estabelecer parâmetros entre direitos e privilégios". A diretora do Sintrajufe-PI avalia que o modelo anterior distorcia o sentido da punição no serviço público ao transformar uma sanção em benefício.

"Felizmente, a corte suprema, na pessoa do ministro Flávio Dino, nos devolve o alento de que juízes, ministros etc. não são deuses", declarou Madalena Nunes.

O sindicato também destacou que a medida contribui para resgatar princípios constitucionais como moralidade, responsabilidade, efetividade e controle da administração pública, defendendo mudanças mais amplas no modelo disciplinar da magistratura .

Ajufe: "Cautela e tratamento da questão previdenciária"

Já o presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), Caio Marinho, adotou tom de cautela ao comentar a decisão do ministro Flávio Dino, em nota enviada ao Portal Piauí Hoje.

Marinho explicou que o ordenamento jurídico brasileiro já prevê a possibilidade de perda do cargo após a aplicação de sanção pelo CNJ, mas apontou uma mudança recente no procedimento. "O que se observava era a ausência de iniciativa para o ajuizamento de ações judiciais, que é o instrumento adequado, após medidas administrativas. Esse cenário foi corrigido. Hoje, o CNJ comunica formalmente ao Ministério Público e à Advocacia-Geral da União, ou às procuradorias estaduais quando se trata de magistrados estaduais, sempre que há decisão de aposentadoria compulsória", explicou.

Sobre o argumento de Dino de que a aposentadoria não deveria ser usada como sanção administrativa por sua natureza previdenciária, o presidente da Ajufe reconhece que há sim um "caráter contributivo da previdência dos magistrados", mas defende que é preciso agir com cautela.

"Ao longo de décadas de carreira, juízes realizam contribuições elevadas ao regime próprio de previdência. A simples substituição da aposentadoria compulsória pela perda do cargo, sem o devido tratamento da questão previdenciária, poderia levar à retenção pelo Estado de valores recolhidos durante toda a vida funcional, sem a correspondente contraprestação", ressaltou Caio Marinho.

Para o magistrado, essa situação "poderia representar questionamentos constitucionais relacionados ao direito previdenciário adquirido, à vedação ao confisco e ao princípio da contributividade".

Caio Marinho, presidente da Ajufe Os crimes e os impactos da decisão

Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) indicam que 126 magistrados foram punidos com aposentadoria compulsória nos últimos 20 anos. Desses, ao menos 40 foram punidos após a Reforma da Previdência de 2019 e, segundo o entendimento de Flávio Dino, deveriam ter perdido o cargo.

Entre os casos de maior repercussão estão magistrados acusados de venda de sentenças, corrupção, assédio sexual, violência doméstica, favorecimento de familiares e até "rachadinha", prática que consiste na cobrança de parte do salário de servidores de gabinete.

O ministro Flávio Dino, em sua decisão, foi enfático: "Em face da mudança constitucional e à luz do princípio da moralidade, infrações graves de magistrados devem ser punidas com a perda do cargo".

O debate: privilégios e moralização

A decisão do ministro reacendeu discussões dentro da magistratura sobre os limites das sanções disciplinares e os caminhos legais para responsabilização de juízes. Especialistas ouvidos pela imprensa consideram a tese consistente do ponto de vista jurídico .

O jurista Max Telesca afirmou que, embora a reforma previdenciária tenha vedado a aposentadoria compulsória como punição, isso ainda é previsto na Lei Orgânica da Magistratura (Loman). Para ele, trata-se de um precedente que pode ser confirmado coletivamente por outros ministros e se tornar uma jurisprudência do STF.

"Pela primeira vez, uma alta autoridade do Poder Judiciário se pronuncia em desfavor de uma aberração, uma anomalia consistente na entrega de um prêmio, em lugar de uma punição grave", declarou Telesca .

O advogado Fábio Souto, especialista em tribunais superiores, defendeu que o Judiciário se adapte rapidamente: "O que se espera é que o Poder Judiciário compreenda que a aposentadoria compulsória se trata de um privilégio, contrário aos princípios da moralidade pública" .

Por outro lado, a Associação Nacional dos Magistrados Estaduais (Anamages) publicou nota de repúdio à decisão, afirmando que "ninguém, nem mesmo o ministro Flávio Dino, está autorizado a substituir o Congresso Nacional na criação de sanções legais" .

Próximos passos

A decisão de Flávio Dino é monocrática e não tem efeito automático para extinguir a aposentadoria compulsória como punição para todos os magistrados do país, pois não foi dada em processos com característica vinculante, como Recurso Extraordinário com Repercussão Geral ou Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI).

O ministro sugeriu ao presidente do CNJ e do STF, ministro Edson Fachin, que reavalie todo o sistema disciplinar da magistratura, "caso considerar cabível" .

O jurista Max Telesca explica as consequências da decisão de Flávio DinoPEC Flávio Dino 

Na quarta-feira da semana passada (18/03), a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado adiou para 8 de abril a análise de uma PEC que acaba com a aposentadoria compulsória como punição para magistrados, militares e membros do Ministério Público.

A proposta, de autoria do então senador Flávio Dino, hoje ministro do STF, está na pauta da CCJ e tem relatoria favorável da senadora Eliziane Gama (PSD-MA). Se aprovada na comissão, a PEC seguirá para votação no Plenário do Senado.

(*) Luiz Brandão é jornalista e editor do portal Piauí Hoje

(*) Isabel Fonseca é estagiária de jornalismo sob supervisão do jornalistas Gilson Rocha e Malu Barreto 

Fonte: STF/Ajufe/Sintrajufe-PI

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