Durante atividades realizadas ao longo do mês de março, mulheres do movimento das quebradeiras de coco babaçu voltaram a denunciar a violência de gênero que atinge comunidades rurais no Piauí. O tema foi abordado nesta terça-feira (10) pela mestranda em Antropologia e integrante do movimento, Sandra Silva Cardoso, durante a aula inaugural e o lançamento do livro "As Narrativas e Memórias do Cuidado: as quebradeiras de coco babaçu e as mães palmeiras", das pesquisadoras Adriana Ressiore e Laira Splinter.
Sandra, que faz parte de comunidades de quebradeiras no território dos Cocais, explicou que o mês de março — marcado pelo Dia Internacional da Mulher — é utilizado pelas trabalhadoras como um período de mobilização e de reivindicação por direitos.
A gente diz que comemora, mas na verdade não é uma comemoração. A gente usa o mês de março para fazer as nossas reivindicações, porque o feminicídio tem se alastrado, inclusive no nosso território.
A pesquisadora e autora Adriana Ressiore destacou que a violência contra mulheres do movimento tem sido uma das preocupações mais recorrentes relatadas pelas quebradeiras durante encontros e debates.
O que elas ressaltaram mais foi a questão da violência contra a mulher e o feminicídio, que infelizmente ainda está crescendo e é um problema muito sério. Muitas quebradeiras já foram assassinadas nas suas próprias casas ou no campo, indo quebrar coco. Essa é uma pauta que a gente precisa sempre reforçar e tentar, de alguma forma, enfrentar.
Foto: Piaui Hoje/ Isabel Fonseca
Segundo Adriana, embora as quebradeiras estejam organizadas e mobilizadas para enfrentar a violência, a luta precisa de maior apoio da sociedade e das instituições públicas. Para ela, as trabalhadoras têm buscado denunciar os casos e fortalecer a proteção coletiva, mas não conseguem lidar com o problema sozinhas.
Sandra também relatou que, apesar das mobilizações e das denúncias feitas pelas mulheres, ainda há pouca resposta do poder público. Segundo ela, as quebradeiras têm buscado se organizar e agir, participando de manifestações, procurando delegacias e realizando protestos para denunciar os casos de violência, mas afirmam não ver políticas ou ações concretas voltadas para apoiar as comunidades.
Ela afirma que o sentimento de insegurança atravessa todas as mulheres das comunidades.
Isso nos deixa muito tristes, porque são as nossas companheiras e a gente não sabe. Somos mulheres, qualquer uma de nós, e estamos sendo alvo desse feminicídio.
Além da denúncia da violência, as quebradeiras também defendem a preservação dos babaçuais, que garantem sustento econômico e identidade cultural às comunidades.
O movimento das quebradeiras de coco babaçu é considerado um dos maiores movimentos de mulheres da América Latina e reúne trabalhadoras rurais que dependem do extrativismo do babaçu para sobreviver.
Durante a aula inaugural, foi lembrada a fala de Dona Neném (Francisca), liderança histórica citada no livro lançado no evento. Para ela, a relação entre as comunidades e o babaçu vai além da dimensão econômica.
É uma mãe, porque o mesmo respeito que uma mãe tem de cuidado com o filho, a palmeira tem de cuidado com a gente. Somos os filhos dela porque dependemos dela.
Mestranda Sandra Silva e professora Élida Cardoso
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