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SEMANA DA MULHER

Mulher-Maravilha: mais forte que Superman e ícone mundial do feminismo

Alvo de críticas conservadoras, mudanças editoriais e censura, a personagem foi adotada por feministas e transformada em símbolo de resistência

Da Redação

Quarta - 04/03/2026 às 12:47



Foto: Reprodução Dc Comics / Panini Mulher-Maravilha Hiketeia, HQ com roteiro de Greg Rucka e arte de J.G. Jones
Mulher-Maravilha Hiketeia, HQ com roteiro de Greg Rucka e arte de J.G. Jones

Criada em 1941 pelo psicólogo e escritor William Moulton Marston, com o incentivo fundamental de sua esposa, a advogada Elizabeth Holloway Marston, a Mulher-Maravilha surgiu como um verdadeiro projeto político. Em meio à Segunda Guerra Mundial, a heroína foi concebida como uma contraposição feminina ao domínio dos super-heróis masculinos nos quadrinhos. Forte, autônoma e guiada por ideais de justiça e paz, Diana de Themyscira representava — desde o início — a capacidade das mulheres de liderar, enfrentar conflitos e ocupar posições de poder na sociedade.

Durante as décadas de 1940 e 1950, no entanto, os quadrinhos passaram por um período de forte vigilância moral nos Estados Unidos. Em 1954, foi criado o "Comics Code Authority", órgão de autocensura que impôs regras rígidas às publicações. A pressão conservadora atingiu diversas narrativas — e a Mulher-Maravilha não escapou.

A fase sem poderes e o apagamento simbólico

No final dos anos 1960, em meio a uma reformulação editorial da DC Comics, a personagem sofreu uma mudança radical: perdeu seus poderes, abandonou o traje clássico e passou a viver como uma mulher “comum”, dona de uma boutique e dependente do treinamento de um mentor masculino.

Mais do que isso, as histórias passaram a enfatizar conflitos românticos e o desejo de casamento. A antiga guerreira amazona foi retratada de forma mais frágil, emocionalmente dependente e distante do símbolo de autonomia que havia representado por décadas.

Uma das primeiras comics da Mulher-Maravilha

Tradução do quadrinho acima:

Lutem como antes --
Nós mostraremos àqueles homens malignos que as mulheres lutam pela paz com mais determinação do que os homens lutam para satisfazer sua própria ganância!

A reação feminista

O período coincidia com o fortalecimento da chamada segunda onda do feminismo, movimento que ganhou força nos anos 1960 e 1970, com pautas como igualdade no mercado de trabalho, direitos reprodutivos e questionamento dos papéis tradicionais de gênero.

Em 1972, a ativista e jornalista Gloria Steinem colocou a Mulher-Maravilha na capa da primeira edição da "Ms. Magazine" (Revista Sra.); a primeira publicação nacional a pautar abertamente temas como direitos femininos, assédio sexual, igualdade salarial e violência doméstica. A publicação criticava diretamente a descaracterização da heroína e defendia a restauração de seus poderes. 

A edição também estampou na capa o slogan “Wonder Woman for President” (“Mulher-Maravilha para Presidente”)gerando mais repercussão entre leitores e críticos; isso ajudou a consolidar o lugar da heroína como um ícone do feminismo da segunda onda. O pré-lançamento, esgotou em apenas oito dias.

Para Steinem e outras feministas, retirar a força da personagem era um reflexo simbólico do que acontecia com as mulheres na sociedade: quando conquistavam autonomia, enfrentavam tentativas de silenciamento ou domesticação. Naquele momento, a personagem passou a ser usada em manifestações, cartazes e materiais de campanha pró-ERA (Emenda dos Direitos Iguais ou em inglês, Equal Rights Amendment), sua associação direta com a luta por igualdade reforçou a representação feminina na política da época.

A pressão deu resultado. Pouco tempo depois, a DC restaurou os poderes e a identidade original da heroína. Diana voltou a ser a amazona guerreira, símbolo de força e independênciaInjustice: Gods Among Us Year 4 #8
Uma das mais fortes dos quadrinhos

A Mulher-Maravilha também se firmou como uma das personagens mais poderosas da DC Comics, frequentemente se equiparando ou superando colegas heróicos masculinos em confrontos marcantes nas páginas dos quadrinhos. Em algumas histórias, como em Justice League #11 da fase Novos 52, Superman/Mulher-Maravilha #17 e Mulher-Maravilha #219 (2005), Diana derrota o Superman em um confronto intenso — não apenas igualando sua força física, mas prevalecendo graças à sua habilidade de combate e determinação estratégica, algo que Clark Kent não subestima. Em outras sagas, como Mulher-Maravilha (Vol 2) #212 ela enfrenta toda a Liga da Justiça, incluindo o próprio Superman, Batman e o Flash, enquanto está completamente cega. A heroína vence cada um de seus companheiros de equipe para demonstrar a Batman que, mesmo temporariamente sem visão, continua plenamente capaz de integrar e contribuir para a Liga da Justiça. 

Nomeação como embaixadora honorária da ONU (2016)

Décadas depois, em 2016, a Organização das Nações Unidas (ONU) nomeou a personagem como Embaixadora Honorária para o Empoderamento de Mulheres e Meninas — um reconhecimento simbólico da força cultural acumulada pela personagem ao longo de décadas.

A iniciativa integrou a campanha global da ONU em favor da igualdade de gênero e buscou dialogar especialmente com o público jovem, utilizando uma figura já consolidada no imaginário popular como referência feminina. A escolha também reforçou o alcance internacional da heroína, transformando um ícone da cultura pop em instrumento de conscientização sobre direitos e combate à violência. 

Muito além dos quadrinhos

Durante a expansão dos estudos de gênero nas universidades norte-americanas, a Mulher-Maravilha passou a ser analisada como objeto de estudo em disciplinas sobre cultura pop e feminismo. Professores e pesquisadoras discutiam como a personagem refletia as tensões entre emancipação e conservadorismo na sociedade.

Pesquisas históricas indicam que muitas mulheres que atuaram no jornalismo, na política e na academia nas décadas de 1970 e 1980 relataram ter sido impactadas pela personagem na infância. Ela funcionava como um modelo alternativo ao ideal doméstico feminino dominante nos anos 1950. 

Lynda Carter, primeira mulher-maravilha da televisão. Foto: Bebeto Matthews / NYT

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