“Homem só escuta homem.” A frase, deixada por uma seguidora nas redes sociais, foi o ponto de partida para uma mobilização que vem chamando atenção no Piauí. O cientista político, jornalista e criador de conteúdo Dário Castro, conhecido como Rabisco, decidiu transformar a provocação em ação prática: todos os domingos, ele caminha usando uma camiseta branca onde marca, com cruzes vermelhas, o número de mulheres assassinadas na semana no Brasil.
A iniciativa foi destaque em entrevista ao podcast Conexão Cultura, apresentado por Gilson Calland. Segundo Dario, a ideia surgiu depois que os dados de 2025 apontaram um novo recorde de feminicídios no país. Ele citou números que mostram a gravidade do problema: uma média de quatro mulheres mortas por dia por razões de gênero e crescimento expressivo nos últimos anos. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública confirmam que o Brasil segue registrando mais de mil feminicídios por ano, mantendo-se entre os países com maiores índices absolutos de assassinatos de mulheres.
Influenciador digital Dário Castro e Gilson Calland
“Não é sobre culpar homens. É sobre responsabilidade”, afirmou. Para ele, o machismo é estrutural e atravessa a formação masculina desde a infância. “Todo homem foi criado dentro de uma lógica machista. A gente precisa olhar para dentro e entender qual é o nosso papel nisso.”
Com mais de 45 mil seguidores e média superior a um milhão de visualizações mensais no Instagram, Rabisco usa o humor como instrumento de crítica social. Ele explica que a ironia e o sarcasmo ajudam a provocar reflexão, especialmente entre homens que, muitas vezes, rejeitam discursos mais diretos.
Ele relatou que passou a produzir vídeos com mais frequência há cerca de um ano, o que impulsionou o crescimento do perfil. Parte do conteúdo questiona padrões de masculinidade, piadas machistas e comportamentos considerados “normais”, mas que reforçam desigualdades.
Durante a entrevista, ele lembrou que o problema não começa no ato extremo do feminicídio, mas nas pequenas violências diárias. Comentários em grupos de WhatsApp, piadas depreciativas, controle sobre a vida da parceira e a naturalização do ciúme são, segundo ele, peças de um sistema que desumaniza a mulher antes mesmo da agressão física.
Influenciador ressalta que, antes do feminicídio, pode-se notar pequenas violências diárias
Na conversa, Dario apresentou uma reflexão que costuma levar a palestras em escolas e universidades. Para ele, há três elementos que ajudam a entender por que homens matam mulheres: a visão binária de gênero, a atribuição de papéis rígidos a homens e mulheres e a identidade social construída a partir desses padrões. “O problema começa quando essa balança é viciada e pesa sempre para um lado”, afirmou, referindo-se à desigualdade histórica entre os gêneros.
Reações e resistência
A campanha de Dario tem recebido apoio, mas também resistência. Ele relatou episódios de hostilidade durante as caminhadas e nas redes sociais. Em um dos casos, ao exibir uma placa com o número de mulheres mortas no ano, ouviu de um homem a frase: “Tem mulher que só vai na porrada”. Para ele, esse tipo de reação revela o quanto o problema ainda é tratado com naturalidade por parte da sociedade.
Mesmo assim, ele afirma que continuará. “Se a gente conseguir mudar a cabeça de um homem, já valeu a pena”, disse ao final da entrevista. O debate também passou por outros temas, como homofobia, racismo e violência política de gênero. Para os participantes, todas essas questões estão interligadas por uma lógica de desumanização que precisa ser enfrentada coletivamente.
A provocação que deu origem à campanha permanece como alerta: se homem só escuta homem, então é preciso que mais homens estejam dispostos a falar, ouvir e, principalmente, mudar.
A entrevista completa você acompanha no canal do Portal Piauí Hoje no Youtube, clicando abaixo:
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