Geral

RESGATE SOB PRESSÃO

Caso de internação forçada leva professora a cobrar investigação em clínicas terapêuticas

Ela destaca sua atuação direta na articulação que contribuiu para o resgate do profissional, internado compulsoriamente em uma clínica voltada a dependentes químicos

Gilson Rocha

24 de abril de 2026 às 09:10 ▪ Atualizado há 1 hora

Ver resumo
  • Fabíola Lemos, professora e membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos, divulgou um vídeo nas redes sociais em defesa de um médico que alegou ter sido algemado e internado à força devido à sua orientação sexual.
  • O médico, identificado como M., foi mantido por 40 dias em uma clínica para dependentes químicos em Teresina.
  • A internação teria sido para evitar que sua orientação sexual afetasse a reputação política de seus pais.
  • Fabíola Lemos destacou sua participação no resgate do médico e a mobilização para liberação dele, incluindo ações jurídicas e contribuição de advogados.
  • Ela pediu investigação sobre centros terapêuticos que encarceram pessoas LGBTQIA+ no Piauí, e criticou o uso inadequado de dinheiro público nessas instituições.
  • A professora chamou a atenção para o papel do Ministério Público e órgãos de fiscalização na supervisão dessas práticas.

Professora cobra investigação em centros terapêuticos após denúncia de internação forçada no Piauí
Professora cobra investigação em centros terapêuticos após denúncia de internação forçada no Piauí

A professora e membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos, Fabíola Lemos, divulgou nas redes sociais um vídeo em defesa do médico que denunciou ter sido algemado, agredido e mantido internado à força por 40 dias no Centro de Reabilitação Restaurar, em Teresina, por causa de sua orientação sexual. Na gravação, ela destaca sua atuação direta na articulação que contribuiu para o resgate do profissional, internado compulsoriamente em uma clínica voltada a dependentes químicos.

Ao relatar o caso, Fabíola descreve a rotina e o perfil do médico, identificado pelas iniciais M.: “um jovem que passa o dia trabalhando; na verdade ele tem dois empregos; ele mantém seu sustento com o suor do seu trabalho, assume várias responsabilidades diárias da própria condição da profissão que ele assume, e nos finais de semana, como qualquer típico jovem de classe média, gosta de sair para se divertir. Mas M. é gay e, segundo ele, seus pais sempre tiveram vergonha dele por conta de sua orientação sexual. E como são políticos em um município do interior do estado do Piauí, um estado conservador que tem um eleitorado conservador e muitas vezes homofóbico, M. entende que foi internado para tirar o 'bode da sala'; escondeu o filho que traz em si o estigma de uma orientação sexual pode inclusive prejudicar no rendimento eleitoral”, diz.

A professora afirma ainda que o médico foi retirado de casa de forma violenta. “Ele foi recolhido de forma violenta, abrupta, dentro de sua casa no momento em que estava dormindo e levado para essa clínica e a partir daí uma sucessão de tragédias onde o trauma psicológico passa a ser só um no meio de tantos outros traumas materiais, inclusive, que ele vem tendo agora nos últimos dias”, acrescenta.

Fabíola Lemos ressalta que o desaparecimento do médico de seus empregos e do convívio social acendeu o alerta. Segundo ela, o resgate só foi possível graças a uma mobilização articulada: “teve muita sorte e também porque é cercado de privilégios que muitas outras pessoas que se encontram na mesma situação não desfrutam. M. conseguiu fazer contato com um grande amigo seu que de prontidão começou articular as medidas jurídicas cabíveis junto a uma advogada muito competente e muito corajosa, que diga-se de passagem já está sofrendo ameaças de morte, e esse amigo entrou em contato comigo que também ajudamos a articular movimentos para poder, juntos, fazendo a pressão no momento sem contar o principal, a presença da força policial para entrar clínica e a presença de um jornalismo que fazendo de forma muito competente seu trabalho, acompanhou todo o processo”, esclarece, evidenciando sua participação ativa na operação.

Em tom de denúncia, a professora reforça a necessidade de investigação sobre os centros terapêuticos no Piauí. “Alguns deles estão trabalhando sobre a lógica perversa que encarcera gays, lésbicas e pessoas transexuais, porque tudo isso faz parte de uma máfia articulada entre política, religião e esses centros terapêuticos”, afirmou.

Ela também cobrou a atuação dos órgãos de controle e criticou a forma como o tema das drogas é tratado. “Que o Ministério Público e os órgãos de fiscalização façam sua parte, porque, afinal de contas, estamos falando de dinheiro público que é repassado para essas unidades terapêuticas funcionarem sob uma lógica do século dezenove em pleno século vinte e um”, enfatiza a cientista social.

Fonte: Instagram