Educação

DIA DA MULHER

Cientistas da UFPI mostram a força das mulheres na ciência com impacto social

Reportagem apresenta histórias de quatro pesquisadoras que atuam em diferentes áreas do conhecimento e ajudam a fortalecer a ciência no Piauí

Dulce Luz

Domingo - 08/03/2026 às 08:00



Foto: Pesquisadoras da UFPI desenvolvem estudos com impacto direto na sociedade
Pesquisadoras da UFPI desenvolvem estudos com impacto direto na sociedade

No Piauí, a presença feminina na produção científica tem ganhado cada vez mais destaque, especialmente nas universidades públicas. Na Universidade Federal do Piauí (UFPI), pesquisadoras atuam em diferentes áreas do conhecimento e desenvolvem estudos que contribuem para a agricultura, a sustentabilidade ambiental e a inovação tecnológica. Muitas dessas pesquisas dialogam diretamente com desafios regionais e com setores estratégicos da economia do estado.

Na Semana da Mulher, o Portal Piauí Hoje conversou com quatro pesquisadoras da universidade que desenvolvem estudos com impacto direto na sociedade e mostram como a ciência produzida no estado está conectada ao desenvolvimento regional.

Luciana Barboza: pesquisa para enfrentar pragas na agricultura

Professora no Campus Professora Cinobelina Elvas, em Bom Jesus, a pesquisadora coordena o grupo EPMIP – Experimentação e Pesquisa em Manejo Integrado de Insetos e desenvolve estudos voltados ao controle sustentável de pragas agrícolas. Suas pesquisas buscam compreender como insetos que atacam culturas importantes, como soja e milho, interagem com as plantas e como essas espécies desenvolvem resistência a inseticidas.

“Nosso objetivo é entender os mecanismos que permitem que algumas pragas sobrevivam aos métodos de controle e, a partir disso, desenvolver estratégias mais sustentáveis para a agricultura”, explica. A partir dessas análises, o trabalho da cientista contribui para reduzir prejuízos na produção agrícola e ampliar o uso de práticas que diminuam os impactos ambientais.

Luciana e seu grupo de pesquisa em campo

Os estudos conduzidos pelo grupo também investigam os mecanismos de defesa das plantas quando são atacadas por pragas, incluindo alterações fisiológicas e a liberação de compostos químicos que podem ajudar a repelir insetos ou atrair inimigos naturais, como parasitoides. Essas informações são fundamentais para fortalecer o Manejo Integrado de Pragas, abordagem recomendada por instituições de pesquisa agrícola por combinar diferentes métodos de controle e reduzir a dependência de produtos químicos. “Quando entendemos melhor a relação entre planta, inseto e ambiente, conseguimos identificar cultivares mais tolerantes e orientar práticas de manejo mais eficientes no campo”, destaca.

Outra linha de pesquisa desenvolvida pela cientista envolve a produção sustentável de proteína a partir de insetos, utilizando resíduos agroindustriais para gerar alimento de alto valor nutricional para animais e biofertilizantes orgânicos. O trabalho está alinhado aos princípios da economia circular e apresenta potencial para reduzir desperdícios e criar novas alternativas de produção no campo. Além da pesquisa, a professora também coordena ações de extensão que aproximam a ciência da sociedade, levando conhecimento sobre biodiversidade, sustentabilidade e a importância dos insetos para estudantes da educação básica. “A ciência só cumpre plenamente seu papel quando ultrapassa os muros da universidade e dialoga com a sociedade”, afirma.

Elaine Aparecida da Silva: engenharia e sustentabilidade na indústria

A pesquisadora Elaine Aparecida da Silva, que é  vice-diretora do Centro de Tecnologia, desenvolve estudos que buscam compreender e reduzir os impactos ambientais de processos industriais. Atuando na conexão entre engenharia, gestão e sustentabilidade, suas pesquisas utilizam ferramentas como a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) e o Ecodesign para analisar todas as etapas da produção, desde a extração da matéria-prima até o descarte dos produtos. Esse tipo de abordagem permite identificar formas mais eficientes e sustentáveis de produção, contribuindo para que empresas e setores produtivos adotem práticas ambientalmente responsáveis e mais competitivas.

Professora Elaine atua na articulação entre engenharia, indústria e sustentabilidade.

Ao longo de sua atuação científica, Elaine tem coordenado projetos voltados à gestão ambiental e à transição para modelos de economia mais sustentáveis, especialmente em áreas ligadas à construção civil e ao uso de recursos naturais. Um de seus estudos investigou o ciclo de vida de materiais utilizados em atividades que demandam brita, propondo diretrizes para aproximar esse setor de práticas alinhadas à economia circular. “Essas ferramentas permitem que olhemos para o produto não apenas em sua fase final, mas em todas as etapas, desde a extração da matéria-prima até o descarte”, explica a pesquisadora, ao destacar como a ciência pode orientar decisões mais responsáveis no setor produtivo.

Além da produção científica e da orientação de novos pesquisadores na pós-graduação, Elaine também atua em espaços de debate público e formulação de políticas ambientais, contribuindo para aproximar o conhecimento acadêmico das decisões que impactam a sociedade. Suas pesquisas mais recentes se concentram nos critérios ambientais, sociais e de governança (ASG) e na relação entre mineração e meio ambiente, temas estratégicos para o desenvolvimento sustentável. “O papel da pesquisadora hoje é ser essa ponte entre o rigor da universidade e a necessidade de transformação real da sociedade”, afirma.

Renata Barbosa: novos materiais para agricultura mais eficiente

Professora e pesquisadora na área de Engenharia de Materiais, Renata Barbosa desenvolve estudos voltados à criação de materiais inovadores que possam tornar a agricultura mais eficiente e sustentável. Suas pesquisas buscam responder a dois desafios contemporâneos: o acúmulo de resíduos plásticos no meio ambiente e o uso ineficiente de fertilizantes na produção agrícola. A partir da integração entre ciência de materiais, engenharia e agricultura, o trabalho da pesquisadora contribui para o desenvolvimento de tecnologias capazes de reduzir desperdícios, minimizar impactos ambientais e melhorar a produtividade no campo.

Professora Renata está criando materiais biodegradáveis capazes de liberar nutrientes de forma gradual no solo

Entre as soluções investigadas pelo grupo estão materiais biodegradáveis capazes de liberar nutrientes de forma gradual no solo, acompanhando o crescimento das plantas. A proposta é substituir modelos tradicionais de aplicação de fertilizantes, que muitas vezes resultam em perdas por lixiviação ou volatilização. “Em vez de simplesmente aplicar o fertilizante no solo, podemos incorporá-lo em um material biodegradável que libera os nutrientes gradualmente, acompanhando o desenvolvimento da planta”, explica a pesquisadora. Além disso, parte dos estudos busca transformar resíduos agrícolas em matéria-prima para novos materiais, fortalecendo práticas alinhadas à economia circular.

As pesquisas também apontam caminhos para tecnologias emergentes, como dispositivos agrícolas produzidos por impressão 3D e materiais projetados para se degradar de forma programada no ambiente. Segundo Renata Barbosa, essas soluções podem contribuir para reduzir a contaminação do solo e da água, melhorar o aproveitamento de nutrientes e tornar a produção agrícola mais sustentável. “A engenharia de materiais permite projetar o comportamento do material desde sua composição molecular até sua aplicação no campo. Muitas vezes invisível para o público, essa ciência está presente em soluções que impactam diretamente o alimento que chega à mesa das pessoas”, afirma.

Regina Lúcia Ferreira Gomes: pesquisa para fortalecer o cultivo do feijão fava

A pesquisadora Regina Lúcia Ferreira Gomes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), desenvolve estudos na área de genética e melhoramento de plantas com foco em uma cultura tradicional da agricultura nordestina: o feijão-fava. As pesquisas buscam desenvolver cultivares mais produtivas, resistentes e adaptadas às condições do semiárido, contribuindo diretamente para o fortalecimento da agricultura familiar e também para sistemas de produção em maior escala. “Nosso objetivo é desenvolver cultivares melhoradas que atendam tanto o agricultor familiar quanto o produtor do agronegócio”, explica a cientista.

Pesquisadora Regina Lúcia busca desenvolver cultivares da fava adaptadas ao semiárido

Um dos diferenciais do trabalho é a parceria direta com produtores rurais de municípios como Várzea Grande, Tanque do Piauí e Francinópolis, principais regiões produtoras de feijão-fava no estado. Os agricultores participam ativamente das etapas de avaliação das plantas por meio do chamado melhoramento participativo, ajudando a identificar características consideradas mais importantes para o cultivo. “A gente chama os agricultores para ver as linhagens, avaliar as plantas e dizer exatamente o que é interessante para eles. Assim conseguimos desenvolver materiais que realmente atendam às necessidades do campo”, destaca Regina.

Além de contribuir para a produtividade agrícola e a segurança alimentar, as pesquisas também fortalecem redes de cooperação científica nacionais e internacionais. O grupo mantém parcerias com pesquisadores de países como México, Estados Unidos, Peru, Uruguai e Equador, ampliando o intercâmbio de conhecimento sobre o melhoramento da cultura. Para Regina Lúcia, a ciência produzida na universidade tem impacto direto na vida das pessoas. “Quando desenvolvemos novas variedades adaptadas à realidade dos agricultores, estamos contribuindo para tornar a produção mais eficiente e sustentável”, afirma.

Mais reconhecimento

Dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da UNESCO indicam que as mulheres já representam cerca de metade dos pesquisadores no Brasil. Apesar desse avanço, elas ainda enfrentam desafios para ocupar posições de liderança na carreira científica, especialmente em áreas historicamente masculinas, como engenharias e tecnologia.

Para o pró-reitor de Pesquisa e Inovação da UFPI, Rodrigo Veras, ampliar a presença feminina na ciência é fundamental não apenas para promover igualdade de oportunidades, mas também para fortalecer a produção de conhecimento no país. “A presença das mulheres na ciência é não apenas uma questão de justiça e equidade, mas também um fator essencial para o avanço do conhecimento e para a construção de soluções inovadoras e de relevância social”, afirma. Segundo ele, a universidade busca fortalecer políticas institucionais que incentivem a permanência e o crescimento das mulheres na carreira científica.

Esse compromisso com a equidade tem gerado reconhecimento nacional. No último dia 5 de março, a UFPI conquistou o terceiro lugar na categoria Mérito Institucional do 2º Prêmio Mulheres e Ciência, promovido pelo CNPq em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e o Ministério das Mulheres.

Nadir Nogueira recebeu o Prêmio Mulheres e Ciência do CNPq, na categoria Mérito Institucional.

A categoria reconhece instituições de ensino e pesquisa que desenvolvem ações concretas para promover igualdade de gênero, diversidade e inclusão no ambiente acadêmico. No caso da UFPI, o reconhecimento veio com o projeto Ciência Plural na UFPI, que reúne estratégias voltadas à promoção da igualdade de gênero e ao enfrentamento da violência contra mulheres dentro da universidade.

A iniciativa busca transformar a cultura institucional e ampliar a participação feminina na ciência, reforçando o compromisso da universidade com a redução das desigualdades e com a construção de um ambiente acadêmico mais inclusivo.

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